Não temos medo do Halloween - Ponto SJ

Não temos medo do Halloween

Devemos celebrar o Halloween? E o que fazemos quando a escola dos nossos filhos o celebra? A Igreja tem uma tradição antiga e profundamente sua de celebrar os santos, recordar os mortos e olhar a morte à luz da Ressurreição.

Teias de aranha nas montras, morcegos nas paredes, esqueletos e caveiras. E, à medida que se aproxima o dia 31 de outubro, há uma pergunta que inquieta alguns: devemos celebrar o Halloween? E o que fazemos quando a escola dos nossos filhos o celebra?

Antes de ser uma festa americana que importámos, o Halloween era a véspera de Todos os Santos (era nosso!). O próprio nome vem de All Hallows’ Eve. A história dos costumes é complexa e nem tudo tem origem cristã. Mas a Igreja tem uma tradição antiga e profundamente sua de celebrar os santos, recordar os mortos e olhar a morte à luz da Ressurreição.

Ou seja, o Halloween abre uma sequência de três dias com uma coerência espiritual muito própria. A 31 de outubro, a véspera de Todos os Santos (que foi durante séculos uma vigília litúrgica formal). A 1 de novembro, celebramos Todos os Santos, especialmente os que já habitam o Céu sem o sabermos. E a 2 de novembro, os Fiéis Defuntos, em que lembramos e rezamos por todos os que já morreram. Nestes três dias, contemplamos a morte e a vida.

Em Portugal, no dia 1 de novembro até é feriado. E se pode parecer um dia cinzento e triste (parece estar sempre a chover), aos olhos da fé é um dia bonito. Vamos aos cemitérios, lembramos com carinho os que já morreram e confiamo-los à misericórdia de Deus (e que sítio melhor há de haver do que estar entregue ao amor de Deus?).

Desde sempre, vemos no cristianismo uma relação estreita com a morte. Lembremo-nos da Capela dos Ossos, em Évora. “Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos”. Do memento mori, expressão em latim que quer dizer “lembra-te que hás de morrer”. Ou das caveiras presentes em tantas representações de santos. Olhar a morte de frente liberta-nos. Lembra-nos de usar bem o tempo que nos é dado. Não a veneramos, mas olhamo-la com esperança, como uma realidade dolorosa que Cristo venceu.

E o Halloween comercial que hoje conhecemos e que parece prevalecer? A Igreja nunca o condenou como um todo, mas vários bispos um pouco por todo o mundo têm levantado alertas sérios sobre aquilo em que se tornou. Um esqueleto numa festa não é intrinsecamente mau. Abóboras, teias de aranha, doces partilhados entre vizinhos não são, obviamente, contrários à fé. Mas as coisas podem complicar-se quando o que é lúdico ou divertido corre o risco de se tornar uma glorificação do mal, mesmo sem intenção. A Igreja é clara a condenar a superstição e o ocultismo como realidades que afastam o homem de Deus. Claro que uma criança vestir-se de bruxa não a põe num ritual ocultista. Mas é importante estarmos atentos: discernir se nos ajudam a olhar a morte com esperança ou se, pelo contrário, tornam o mal banal, divertido ou até desejável.

Aqui ninguém tem medo do Halloween. É nosso e celebramo-lo à nossa maneira. A combater as trevas com a luz.

E mais do que isso, estamos a desperdiçar uma grande oportunidade. Em particular, as escolas católicas têm uma responsabilidade especial. Em vez de enchermos os corredores com imagens de terror muito ligadas a um imaginário distante e comercial, em que ninguém sabe bem o que está a celebrar, talvez pudéssemos falar dos santos de todos os feitios e personalidades, da morte, da vida e da esperança. Oferecer uma profundidade para este tempo que nenhum outro lugar é capaz de oferecer.

Em família, podemos aproveitar estes dias para conversar com os nossos filhos abertamente sobre a morte e o Céu que desejamos. O que acontece quando morremos? O que é o Céu? Ir à missa no dia 1 de novembro (este ano até calha num domingo!). Visitar o cemitério como um ato de amor e esperança. E se houver fantasias, escolher com eles e explicar porque algumas fazem sentido e outras não. Proibir tudo por princípio raramente educa, muitas vezes até afasta. O caminho é discernir, com calma e com critério.

E porque não substituir as fantasias habituais por disfarces de santos? Pode parecer antiquado aos olhos de hoje, mas é, de facto, uma alternativa bonita. E cá em casa vejo o mesmo entusiasmo a escolher o santo e os seus adereços. Até a mesma radicalidade. São Nuno, de espada na mão, e Santa Luzia a segurar uma bandeja, onde repousam os seus próprios olhos.

Por isso, não. Aqui ninguém tem medo do Halloween. É nosso e celebramo-lo à nossa maneira. A combater as trevas com a luz.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.