Voltemos a falar da morte - Ponto SJ

Voltemos a falar da morte

Falamos pouco sobre a morte, e, talvez por isso, falemos pouco sobre a vida. Morrer, para o cristão, é a verdadeira oração do pobre. Somos passividade absoluta nas mãos de um Deus.

Todos os anos voltamos, dispersos, aos cemitérios – àqueles pontos de concentração sólidos e silenciosos, feitos de pedras e de memórias, com os quais temos uma relação que oscila entre a reverência e a desconfiança. Celebramos os fiéis defuntos – dizemos nós, os vivos (fiéis?!).

Asseamos as lápides como se fossem casas, porque uma casa descuidada parece mal. Mas também por ser o último cuidado possível com quem já partiu. E, enquanto varremos, choramos as lágrimas comprimidas durante todo o ano, sob o odor das flores frescas colocadas sobre as pedras de novembro. Ao nosso lado, campas já não visitadas, com rostos quase desaparecidos em fotografias antigas. Vidas em que a ressurreição foi ocupando o seu espaço lento.

O Dia dos Fiéis Defuntos é o dia do luto público. As sepulturas fazem-se grandes para acolher a memória de todos e a dor maior da ausência de uma relação que parecia inesgotável: avós, pais, mães, filhos, netos, maridos, esposas. O aperto assume o lugar dos nomes junto às campas, e a edição da nossa memória com eles torna-os quase tangíveis. Nunca mais a nossa vida voltará a ser a mesma.

Eu, de luto, reconheço apenas que estou vivo e que a minha vida foi habitada pelo amor. Amei e agora pago o preço. E, no entanto, voltaria a fazer tudo da mesma maneira. A mesma pessoa, a mesma relação, o mesmo espanto de criança, como se tudo fosse imortalidade.

Sentimo-nos estranhos vagabundos entre as campas. Pensamos na morte e pensamos na vida, e vice-versa. Pensamos em Deus e no sentido de todas as coisas. Avaliamos rapidamente, diante da morte, as nossas vidas e sustemos a respiração, conscientes de que um dia será a nossa vez. Talvez em nenhum outro dia do ano sejamos tão mortais como neste, no qual o morrer nos arrepia, como se nos invadisse, súbito e despropositado.

Eu, de luto, reconheço apenas que estou vivo e que a minha vida foi habitada pelo amor. Amei e agora pago o preço. E, no entanto, voltaria a fazer tudo da mesma maneira. A mesma pessoa, a mesma relação, o mesmo espanto de criança, como se tudo fosse imortalidade.

Ponderamos a nossa fé. Falamos pouco sobre a morte, e, talvez por isso, falemos pouco sobre a vida.

Morrer, para o cristão, é a verdadeira oração do pobre. Somos passividade absoluta nas mãos de um Deus que quis transformar aquele lugar de fronteira num ponto de convergência.

Hoje, debruçados sobre as campas, desdobramos a nossa oração, desejando que a meta esperada para cada um dos que amamos seja já parte do nosso próprio caminho: a vida eterna. E recuperamos a esquecida esperança, tímida diante da avassaladora torrente dos dias. Ela, sempre espantosa, vai-se tornando em nós um rosto concreto – o de Cristo, impresso no rosto daqueles que já partiram. Porque esperar é arriscar a impossibilidade diante do naufrágio. E a Deus nada é impossível.

É essa esperança que invocamos neste dia, diante dos que já partiram. Desconfiamos da sua ausência, mas nunca do amor que sentimos por eles. Dialogamos, dentro do nosso coração, com cada um deles, através da linguagem da esperança que é a do silêncio, desejando que tenham partido em paz para a terceira margem habitada.

Para o ano voltaremos, até ao dia em que não voltaremos mais – lá mais para a frente, quando vier rezar por nós o mesmo amor que temos por aqueles que já partiram. E, ao darmos essa volta até ao ano seguinte, talvez reparemos num sinal fundamental: o dia que antecede a celebração dos fiéis defuntos é o seu horizonte e a aspiração fundamental de todos nós – o Dia de Todos os Santos.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.