O texto “Venite ad me – Considerações sobre a transmissão da fé numa mudança de época” é um texto que nos coloca a todos, nós que nos sentimos parte da Igreja, uma questão central: como transmitir a fé em Jesus Cristo num mundo em que já não é possível pressupor que as pessoas receberam, vivem ou sequer conhecem a fé cristã?
O documento, publicado há dias pelo Dicastério para a Doutrina da Fé, parte do reconhecimento de que a Igreja se encontra perante uma verdadeira mudança de época. A fé já não é transmitida espontaneamente pela família, pela escola ou pelo ambiente cultural. Por isso, a questão não é apenas melhorar métodos pastorais, mas encontrar formas renovadas de anunciar Jesus Cristo num contexto onde muitos já não possuem sequer referências cristãs básicas.
As considerações apresentadas pelo documento não constituem uma nota doutrinal, mas um convite à reflexão pastoral, desafiando a olhar com honestidade para a realidade atual da transmissão da fé. Lembram-me uma frase que ouvi há uns anos de um bispo “Nunca se investiu tanto em recursos para a catequese e, paradoxalmente, nunca a transmissão da fé foi tão frágil.” Estamos efetivamente a precisar de parar e refletir sobre o papel da Igreja, o nosso papel, na transmissão da fé.
Há duas dimensões que atravessam todo o documento. Por um lado, a autenticidade: a coerência entre a fé proclamada e a vida vivida; e por outro, a transmissão da fé: a responsabilidade de ajudar outros a encontrar Cristo. O documento convida-nos a uma pergunta exigente e sincera: que lugar ocupa efetivamente Jesus Cristo na nossa vida? Talvez a verdadeira reflexão sobre a autenticidade da nossa fé deva ser feita individualmente. Se alguém observar a minha vida, sem eu falar de Deus, conseguirá perceber que sigo Jesus Cristo, que sou cristã? A minha fé é apenas uma convicção pessoal ou transforma verdadeiramente o meu olhar sobre o mundo, a maneira como vivo e me relaciono com os outros? Porque uma fé sem obras é morta (Tiago 2,17). Assim, considero que a transmissão da fé não pode limitar-se à comunicação de conhecimentos ou à participação em práticas religiosas: deve traduzir-se numa vida de serviço, de atenção aos mais frágeis e no compromisso diário com quem me cruzo, em casa, no trabalho, no supermercado, no centro de saúde, ….
O documento defende uma pastoral capaz de propor novamente o Evangelho, acompanhando cada pessoa no seu caminho de descoberta do sentido da vida e crescimento da fé.
O documento defende uma pastoral capaz de propor novamente o Evangelho, acompanhando cada pessoa no seu caminho de descoberta do sentido da vida e crescimento da fé. É igualmente importante redescobrir a alegria do Evangelho, colocar Jesus no centro, para que seja a luz e a força da nossa vida. Pergunto-me se as nossas comunidades cristãs são espaços onde as pessoas se sentem acolhidas e acompanhadas, mesmo antes de acreditarem ou de compreenderem a doutrina. Sobretudo, como podemos comunicar a fé numa linguagem compreensível para os jovens, sem perder a identidade da mensagem cristã? Mais uma vez a resposta passa por uma reflexão individual: O que estou concretamente a fazer para que alguém, através do meu testemunho e da minha proximidade, possa descobrir ou reencontrar Jesus?
O documento refere ainda que não podemos continuar a pensar que a formação cristã acontece só porque alguém nasceu numa família católica, foi batizado ou frequentou a catequese. Por isso, mais do que oferecer atividades religiosas, é necessário criar oportunidades de encontro com Cristo. Um bom exemplo disso são as Missões país, os projetos solidários. O serviço aos outros abre horizontes, questiona certezas, promove o crescimento humano e pode tornar-se um caminho privilegiado para encontrar Jesus.
Talvez o maior desafio lançado por este documento seja passarmos de uma pastoral passiva, de manutenção, para uma pastoral verdadeiramente missionária. Uma pastoral que sai da zona de conforto, enfrenta dificuldades, aceita a incerteza e persiste mesmo quando não vê resultados imediatos. A questão já não é apenas como manter os que estão, mas como anunciar de novo a alegria do Evangelho a quem nunca fez uma experiência pessoal de encontro com Cristo. Que tenhamos a coragem de mudar, de dar testemunho com autenticidade e de confiar que Deus continua a agir nos corações daqueles que coloca no nosso caminho.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
