O primeiro objetivo das linhas que seguem é o de apresentar brevemente o que entendemos no Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral por desenvolvimento humano integral. Veremos depois como o ainda curto magistério pontifício do Papa Leão XIV nos tem ajudado a clarificar a missão que a Igreja nos confiou.
O desenvolvimento para que apontamos ultrapassa o âmbito dos índices associados ao crescimento económico e social, ou até mesmo metas muito respeitáveis, como as sintetizadas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Como formulou Paulo VI na famosa encíclica Populorum Progressio (n.14), o autêntico desenvolvimento tem de ser integral, ou seja, tem de promover o desenvolvimento de todas as pessoas e da pessoa toda. Francisco haveria de colocar no centro do seu pontificado “a preocupação pelo desenvolvimento integral dos mais abandonados da sociedade” (Evangelium Gaudium, n. 186). Essa é a opção preferencial pelos pobres que constitui um dos princípios basilares da doutrina social católica; porém, para ser integral, o desenvolvimento humano tem de incluir a todos. É o que todos desejamos, para nós mesmos, a nossa família, a nossa comunidade, a nossa nação, a humanidade inteira.
Para ser integral, o desenvolvimento humano tem de incluir a todos.
Francisco apresentou assim a missão do Dicastério: “O Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral tem a missão de promover a pessoa humana e a própria dignidade que lhe foi dada por Deus, os direitos humanos, a saúde, a justiça e a paz. Interessa-se principalmente pelas questões relativas à economia e ao trabalho, ao cuidado da criação e da terra como «casa comum», às migrações e às emergências humanitárias” (Praedicate Evangelium, n. 163 §1). A tarefa específica que nos cabe é a de apoiar o Papa e as Igrejas locais e seus bispos na promoção do desenvolvimento humano integral de todo o povo de Deus.
Como já ficou dito, Leão XIV veio ajudar a aprofundar a nossa compreensão do que é o autêntico desenvolvimento humano. Num Discurso aos membros da International Catholic Legislators Network, identificou-o com o “pleno crescimento da pessoa em todas as dimensões: física, social, cultural, moral e espiritual”. Vejamos como o Papa descreve a integração de todas essas dimensões: “a autêntica prosperidade humana manifesta-se quando as pessoas vivem virtuosamente, quando vivem em comunidades saudáveis, beneficiando não só do que têm, do que possuem, mas também do que são como filhos de Deus. Assegura a liberdade de procurar a verdade, de adorar a Deus e de criar uma família em paz. Inclui também uma harmonia com a criação e um sentido de solidariedade através das classes sociais e das nações”. Um critério para aferir da autenticidade evangélica da nossa espiritualidade, di-lo-á o Santo Padre precisamente aos movimentos eclesiais, associações e novas comunidades, é assim a sua capacidade de transformar e aperfeiçoar todas as demais dimensões do ser humano: “a autêntica espiritualidade implica o compromisso com o desenvolvimento humano integral, atualizando entre nós a palavra de Jesus” (Homilia na Vigília de Pentecostes de 2025). Nada de separações artificiais, por conseguinte, entre a espiritualidade, a evangelização e a promoção social.
De entre as questões a que Leão XIV tem dedicado atenção, gostaria de sublinhar duas: a exploração dos recursos naturais e os desafios da inteligência artificial.
A abordagem peculiar do Dicastério é a de ajudar a identificar e a procurar ultrapassar os obstáculos ao desenvolvimento humano integral próprios de cada contexto local: doenças, degradação ambiental, migração forçada, emergências humanitárias, insegurança, violência e guerra, pobreza, desemprego e trabalho forçado, outras violações dos direitos humanos, etc. Na sua recente viagem a África, Leão XIV convocou vigorosamente as autoridades e a sociedade civil ao combate pela eliminação destes obstáculos que atingem sobretudo os mais desfavorecidos: “Eliminemos os obstáculos ao desenvolvimento humano integral, lutando e esperando com aqueles que o mundo rejeitou, mas que Deus escolheu” (Discurso em Luanda). Em Malabo, diante de um semelhante auditório, afirmou ser um dever da “boa política” o de “remover os obstáculos ao desenvolvimento humano integral”, recordando que dele fazem parte como princípios fundamentais “a destinação universal dos bens e a solidariedade”. E não vacilou no questionar as opções políticas das autoridades da Guiné Equatorial: “Que o vosso país não hesite em rever as suas trajetórias de desenvolvimento e as positivas oportunidades de se posicionar no cenário internacional ao serviço do direito e da justiça”.
De entre as questões a que Leão XIV tem dedicado atenção, gostaria de sublinhar duas a que o nosso Dicastério tem dado particular relevo: a exploração dos recursos naturais e os desafios da inteligência artificial. Comecemos pela primeira. O nosso acompanhamento de diversas Igrejas locais em várias partes do mundo, mas de um modo especial no continente africano, tem levado a identificar com cada vez mais clareza o nexo entre a descoberta de recursos naturais, como o petróleo, o gás natural, minerais diversos, pedras preciosas e até mesmo os recursos hídricos, e a emergência de conflitos e guerras. No seu Discurso aos participantes no Encontro Mundial dos Movimentos Populares, o Papa apontou o exemplo da República Democrática do Congo, país que é detentor das maiores reservas de coltan do mundo. Este mineral é absolutamente essencial para o desenvolvimento das tecnologias de informação e das telecomunicações. Afirma Leão XIV a propósito do coltan: “a sua extração depende da violência paramilitar, do trabalho infantil e do desalojamento das populações”. E o Papa apresenta de seguida o lítio como outro exemplo. As palavras de denúncia são fortíssimas: “a competição entre as grandes potências e as grandes empresas pela sua extração representa uma grave ameaça à soberania e à estabilidade dos Estados pobres, a tal ponto que alguns empresários e políticos se gabam de promover golpes de Estado e outras formas de desestabilização política, justamente para se apoderarem do «ouro branco» do lítio”. Na visita a Angola, Leão XIV voltou a denunciar o modelo de desenvolvimento que não beneficia as populações dos territórios ricos em recursos materiais, antes as discrimina, exclui e, em demasiados casos, mata: “Quanto sofrimento, quantas mortes, quantas catástrofes sociais e ambientais acarreta esta lógica extrativista!”.
Terá de indagar se os progressos da IA resultam sempre no desenvolvimento integral do ser humano e da sociedade.
Em diversas ocasiões, o Papa tem procurado intervir no debate acerca das implicações éticas da Inteligência Artificial (IA). Menciono apenas uma Mensagem aos participantes numa Conferência sobre IA, Ética e Governança Corporativa. Leão XIV faz eco das questões que se têm vindo a colocar sobre “o uso adequado de tal tecnologia na geração de uma sociedade global mais autenticamente justa e humana”. Um acurado discernimento é necessário quanto aos usos deste instrumento de grande potencial: “Em certos casos, a inteligência artificial foi usada de modo positivo e até nobre, para promover maior igualdade, mas também existe a possibilidade de ser mal utilizada para lucros egoístas à custa dos outros ou, pior ainda, para fomentar conflitos e agressões”. Esta avaliação terá de indagar se os progressos da IA resultam sempre no desenvolvimento integral do ser humano e da sociedade. Por meio de um Rescriptum assinado pelo Prefeito do nosso Dicastério, Cardeal Michael Czerny S.J., a Santa Sé acaba de anunciar a instituição de uma Comissão Interdicasterial sobre a Inteligência Artificial. Esta instituição deve-se, entre outras razões, “à preocupação da Igreja pela dignidade de cada ser humano, sobretudo em relação ao seu desenvolvimento integral”. A publicação da primeira encíclica de Leão XIV, Magnifica Humanitas, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial, constituirá indubitavelmente um marco de grande relevo neste processo de discernimento ético e espiritual em que todos somos chamados a participar.
Termino esta nota como a iniciei, ou seja, com Paulo VI e a sua famosa interrogação na Populorum Progressio: “se o desenvolvimento é o novo nome da paz, quem não deseja trabalhar para ele com todas as forças?” (n. 87). É assim que Leão XIV interpreta as palavras do grande Papa Montini: ele “tencionava dizer que a verdadeira harmonia não é simplesmente ausência de conflito, mas deriva da promoção de um autêntico desenvolvimento humano integral” (Discurso aos membros da Papal Foundation).
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
