A emigração juvenil é sempre um sinal de crise? Lições de Cabo Verde - Ponto SJ

A emigração juvenil é sempre um sinal de crise? Lições de Cabo Verde

O caso caboverdiano evidência que a emigração juvenil não deveria ser interpretada automaticamente como um sinal de fracasso coletivo.

Introdução

Sob diversas formas, muitos países do Sul Global experimentam o fenómeno da emigração juvenil. As interpretações das causas e consequências deste fenómeno conduzem frequentemente às análises catastróficas, associando esta tendência dos jovens à pobreza, à fuga de cérebros, à perda de mão-de-obra, e à má governação. Em suma, a uma crise de governação.

O caso de Cabo Verde, que nos últimos quatro anos assiste a uma emigração significativa de jovens entre os 18 e os 35 anos para países do Norte Global, serve para salientar que a pobreza, por si só, não explica este fenómeno, que afeta todas as classes sociais e categorias profissionais. Da mesma forma, as consequências desta emigração nem sempre são catastróficas para os países de origem.

 

Contexto socioeconómico e financeiro atual de Cabo Verde

Com base em indicadores disponibilizados por instituições financeiras como o Banco Mundial[1] e o Fundo Monetário Internacional, o contexto económico e financeiro de Cabo Verde está a crescer rapidamente, acompanhado por uma melhoria das condições de vida, como o aumento da esperança de vida.

Um estudo comparativo entre Cabo Verde e um outro pequeno Estado insular membro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), como São Tomé e Príncipe[2], baseado no PIB, taxa de inflação, taxa de desemprego, esperança de vida, acesso à eletricidade e utilização da internet ao longo de um período de cinco anos (2020-2025), sugere uma genuína melhoria económica em Cabo Verde nos últimos cinco anos, e que a qualidade de vida é hoje superior à de há cinco ou dez anos. É também importante lembrar que São Tomé e Príncipe tem uma população que corresponde a metade da de Cabo Verde.

O último relatório do FMI[3] indica que a situação económica de Cabo Verde se mantém favorável, com um crescimento robusto e estabilidade macrofinanceira. Os indicadores sociais também são positivos. O panorama geral não é o de um Cabo Verde em profunda crise social, mas sim o de um país que avança, embora ainda enfrente alguns desafios específicos da sua situação. Cabo Verde parece, assim, oferecer um ambiente mais favorável e resiliente.

Além disso, o mais recente relatório do Atlantic Council[4] (Abril de 2026) classifica Cabo Verde em segundo lugar, a seguir às Seychelles, no ranking dos 10 países africanos mais prósperos em 2026.

Neste contexto, importa considerar que a emigração de jovens cabo-verdianos não pode ser explicada apenas por dificuldades económicas. Uma interpretação mais complexa, que inclua a dimensão puramente humana dos projetos de vida, da realização pessoal e do bem-estar geoafetivo, é essencial.

O bem-estar geoafetivo, no seu nível mais básico, refere-se à sensação inexplicável de bem-estar que se experimenta num determinado lugar, país, cidade ou município. No seu nível mais elevado, pode ser associado a uma afinidade cultural, ideológica, epistemológica e fenomenológica que não corresponde exatamente à do habitat natural de cada um.

 

Consequências para os Estados

Embora as causas da emigração exijam uma interpretação mais complexa, as consequências tradicionais mencionadas, como a fuga de cérebros e a escassez de mão-de-obra, também merecem uma perspetiva ampla para uma avaliação justa.

Mais do que uma fuga de cérebros, a emigração juvenil, quando ocorre dentro de um quadro legal, como é o caso em Cabo Verde, e quando é segura, ordenada e regular, pode ser considerada uma forma de valorizar os talentos. Na era da globalização, torna-se uma ferramenta nas mãos dos jovens para desenvolver o seu potencial humano, intelectual e imaginativo. Permite-lhes sonhar mais alto do que os seus próprios países.

A preocupação com a mão-de-obra merece ser relativizada. O mais recente relatório sobre a população estrangeira e imigrante de 2000 a 2024, publicado pelo Observatório das Migrações de Cabo Verde[5], reforça a ideia de que, quando o Estado cumpre adequadamente as suas responsabilidades, cria-se uma dinâmica migratória em que a emigração de jovens nacionais dá lugar à imigração. Entre 2020 e 2024, em Cabo Verde, o motivo profissional surgiu como o motivo do maior número de autorizações de residência emitidas: 6.447, sendo 3.691 por atividade profissional subordinada e 2.756 por atividade profissional independente.

 

Oportunidades para os Estados

O caso cabo-verdiano realça o facto que, a emigração, quando regida por acordos bilaterais e multilaterais, posicione os países de origem como países-solução no panorama internacional, e não como países-problema.

É o caso dos acordos de mobilidade entre os Estados-membros da CPLP e do Memorando de Entendimento sobre a mobilidade laboral entre Cabo Verde e Portugal.

O Projeto MOVER[6], lançado em 15 de dezembro de 2025, e tutelado em parte pela Organização Internacional para as Migrações pode ser visto como o ponto culminante duma governação migratória orientada para a valorização dos talentos e na participação dos países do Sul Global na resolução das dificuldades do nosso tempo.

Esta emigração também expande as diásporas, incluindo a diáspora cabo-verdiana, que contribuiu com 12,3% do PIB em 2024.

E a dinâmica migratória, por sua vez, contribui para a atractividade que se pode criar entre os países do Sul Global, como Cabo Verde, que atrai sobretudo cidadãos da Guiné-Bissau e do Senegal na faixa etária economicamente ativa.

 

Conclusão

O caso caboverdiano evidência que a emigração juvenil não deveria ser interpretada automaticamente como um sinal de fracasso coletivo. Num mundo marcado pela mobilidade crescente das pessoas, a questão central não é travar a emigração, mas criar condições para que ela seja segura, regular e benéfica tanto para os indivíduos como para os Estados. Mais do que um problema a resolver, a mobilidade humana pode constituir um recurso a governar.

 

 

[1] https://donnees.banquemondiale.org/pays/CV (Consultado em 15 de abril de 2026)
[2] https://donnees.banquemondiale.org/pays/ST (Consultado em 15 de abril de 2026)
[3] International Monetary Fund (2026), Cabo Verde. Staff report for the 2025 Article IV consultation, Seventh review under the extended credit facility arrangement, and third review under the resilience and sustainability facility arrangement. https://www.imf.org/en/publications/cr/issues/2026/02/26/cabo-verde-2025-article-iv-consultation-seventh-review-under-the-extended-credit-facility-574309 

[4] Atlantic Council (2026), 2026 Atlas. Freedom and Prosperity around the World. https://www.atlanticcouncil.org/wp-content/uploads/2026/04/2026-atlas-freedom-and-prosperity-around-the-world.pdf (Consultado em 3 de junho de 2026)
[5] Observatório das Migrações de Cabo Verde – Alta Autoridade para a imigração (2025), IIº Relatório sobre População Estrangeira e Imigrante em Cabo Verde (REPEI).
[6] O consórcio responsável por este projeto é composto por a Organização Internacional para as Migrações, a Associação Empresarial de Portugal, a Associação de Hotelaria de Portugal, a Confederação do Comércio e Serviços de Portugal.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.