Macron precisa de um Ratatui - Ponto SJ

Macron precisa de um Ratatui

A França parece ter ingredientes: democracia, partidos, instituições, mas está sem receita e sem remédio. E sem um Ratatui (um primeiro-ministro acertado), parece que está condenada a azedar.

Há menos de 9 meses, para ilustrar o caos político francês – uma constante nos últimos anos – adaptei uma famosa citação de um dos grandes autores portugueses para afirmar que “às vezes, a política é mais inverosímil que a ficção”. A tendência parece continuar.

Numa outra crónica, recorri a uma fabulosa série política, Baron Noir, para tentar compreender a barafunda francesa. O que vemos hoje supera até a melhor temporada dessa série. Emmanuel Macron precisa de um Ratatui (ou Ratatouille), alguém como o rato gourmet da Disney, mas especialista noutros campos: um “mini-chef” político que consiga resgatar uma França ingovernável, cozinhando uma receita que ninguém parece conseguir desenhar ou cozinhar.

Em 8 de setembro de 2025, François Bayrou – o primeiro-ministro centrista apelidado de “gestor austero” – fracassou de forma apoteótica numa moção de confiança: 194 a favor contra 364 contra. O resultado foi a queda do seu governo – o terceiro em apenas 14 meses – e a renúncia imposta, um desastre que empurrou ainda mais o Presidente Macron para o fogão aceso duma crise institucional. Desde então, o Presidente procura o quarto primeiro-ministro em tempo recorde – ou será já o quinto? – demonstrando que uma receita milagrosa simplesmente não existe.

E o público, o povo francês, parece já não aguentar. Assistimos a ruas em ebulição, protestos marcados com o lema “Bloquons tout”: um caos à vista que se manifestou no passado 10 de setembro.

A dívida pública de França parece um menir do Obélix – perto de 114 % do PIB – e o orçamento de 2026 precisa de cortes drásticos. Bayrou tentou reduzir um pouco mais de quarenta mil milhões de euros, com cortes duros nas regalias nacionais, incluindo feriados, e prevendo o congelamento de pensões e cortes na contratação pública. Mas a maioria na Assembleia Nacional virou-lhe o bico ao prego, unindo-se esquerda e extrema-direita, que se recusaram a ser ingredientes na sua panela: sem negociação, sem inspiração, o caldo talhou, com colheradas a mais.

E o público, o povo francês, parece já não aguentar. Assistimos a ruas em ebulição, protestos marcados com o lema “Bloquons tout”: um caos à vista que se manifestou no passado 10 de setembro, com 80 000 polícias mobilizados apenas para tentar conter um “cozido social” e uma panela a que, enquanto escrevíamos estas linhas, ainda não sabíamos quanto tempo aguentava sem saltar a tampa.

Este “Ratatui” terá de recolher os fragmentos de centristas, socialistas, independentes, à espreita de um caminho de compromisso.

Ora aí está o problema gaulês: faltam chefs especializados, que dominem os ingredientes existentes em França; e as receitas do passado falharam. Nunca houve consenso, nem um caldo base de confiança política capaz de unir os partidos. Macron precisa de um mini-chef no seu ombro, um Ratatui político que lhe sussurre e dê respostas: alguém astuto, invisível, minúsculo – mas habilidoso –, que se infiltre num contexto dominado por extremos sem diálogo. Estará Lecornu pronto para isso?

Este “Ratatui” terá de recolher os fragmentos de centristas, socialistas, independentes, à espreita de um caminho de compromisso. Como no filme da Disney, tem de ser alguém que faça magia com ingredientes que ninguém vê: uma colherada de diálogo aqui, uma pitada de redistribuição ali, um toque de esperança sustentável acolá. Um chef que cozinhe, não com imposição, mas com inteligência e “política dos afetos” (aquele carisma que os bons políticos têm).

Macron continuará a trocar cozinhas e ministros, mas o prato nunca vai ser servido apurado e pronto a satisfazer o povo (e, mais difícil, a tripartida Assemblée Nationale).

No entanto, encontrar este Ratatui em 2025 parece uma missão impossível para Macron. Onde está ele? Talvez escondido no gabinete do próximo primeiro-ministro, que já sabemos ser o indefetível Lecornu, mas que pode não se aguentar muito e vir a ser substituído em breve por alguém como Gérald Darmanin ou outro tecnocrata que consiga, enfim, temperar uma nova maioria e um orçamento viável até ao fim do ano. Sem ele, Macron continuará a trocar cozinhas e ministros, mas o prato nunca vai ser servido apurado e pronto a satisfazer o povo (e, mais difícil, a tripartida Assemblée Nationale).

A França parece ter ingredientes: democracia, partidos, instituições, mas está sem receita e sem remédio. E sem um Ratatui (um primeiro-ministro acertado), parece que está condenada a azedar e a uma refeição, até às presidenciais de 2027, “politicamente impossível”: um prato indigesto, que só um mini-chef improvável poderá salvar. Esperemos que Macron descubra um bom ratinho para o acompanhar junto ao tacho de uma França faminta por uma receita política, uma receita que equilibre sabores e satisfaça apetites potencialmente incompatíveis.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.