Jesus também viveu o drama da imigração, Jesus também é do Bangladesh! - Ponto SJ

Jesus também viveu o drama da imigração, Jesus também é do Bangladesh!

Não faltam apelos dos sucessores de Pedro a resistir à presente onda de racismo, xenofobia, indiferença e recusa de compaixão e empatia.

1. A 10 de fevereiro deste ano de 2025, o Papa Francisco, diante dos “delicados momentos” que se viviam nos EUA, escreveu uma carta aos bispos católicos locais [as citações que se seguem são uma minha tradução livre a partir da versão inglesa, uma vez que não foi fornecida uma tradução oficial portuguesa]. Nesta carta, reafirmou sem hesitações o constante ensinamento da Igreja ao longo de todo o séc. XX e, de modo especial, nos últimos pontificados, quanto às respostas pastorais a dar aos diversos movimentos migratórios.

Francisco fá-lo a partir de uma sólida leitura das Escrituras e da doutrina social da Igreja, reafirmando “a nossa fé num Deus que está sempre próximo, encarnado, migrante e refugiado” (n. 1). E sublinhando também com vigor que estas suas palavras não são “uma construção artificial”: “O Filho de Deus, ao tornar-se homem, também escolheu viver o drama da imigração” (n. 2).

Não poucos comentadores viram também nas palavras do Papa uma refutação da interpretação que o vice-presidente dos EUA tinha feito nesses dias da doutrina tomista da ordo amoris.

A decisão do Papa de escrever publicamente aos bispos de uma nação, o que raras vezes acontece, foi claramente motivada pela “grave crise” desencadeada naqueles dias pelo início do “programa de deportações em massa” de imigrantes com o qual a nova administração dera os seus primeiros passos. Afirmou inequivocamente Francisco: “A consciência corretamente formada não pode deixar de fazer um julgamento crítico e expressar o seu desacordo com qualquer medida que, tácita ou explicitamente, identifique a situação ilegal de alguns migrantes com criminalidade” (n. 4). O que não significa, evidentemente, deixar de aplicar a lei a quem cometa atos que a desrespeitem, sejam eles nacionais ou estrangeiros. No entanto, ao comentar o que é “um autêntico Estado de direito”, diz que esse “se verifica precisamente no tratamento digno que todas as pessoas merecem, especialmente as mais pobres e marginalizadas” (n. 5). Quanto a uma compreensão autenticamente cristã do que é o bem comum, Francisco afirma que ele “é promovido quando a sociedade e o governo, com criatividade e respeito rigoroso pelos direitos de todos — como já afirmei em várias ocasiões — acolhem, protegem, promovem e integram os mais frágeis, desprotegidos e vulneráveis” (ibid.).

Não poucos comentadores viram também nas palavras do Papa uma refutação da interpretação que o vice-presidente dos EUA tinha feito nesses dias da doutrina tomista da ordo amoris, como se o amor cristão se dirigisse primeiro aos mais próximos, da mesma casa, família, grupo étnico ou nação e, só depois, na medida do possível, se ainda houver alguma migalha em sobra, ao outro, ao estrangeiro, ao distante: “O amor cristão não é uma expansão concêntrica de interesses que, pouco a pouco, se estende a outras pessoas e grupos” (n. 6). E ainda: “A verdadeira ordo amoris que deve ser promovida é aquela que descobrimos meditando constantemente sobre a parábola do «Bom Samaritano» (cf. Lc 10, 25-37), ou seja, meditando sobre o amor que constrói uma fraternidade aberta a todos, sem exceção” (ibid.).

A carta termina com palavras que poderiam com muito fruto, creio bem, ser aplicadas por uma consciência cristã bem formada aos discursos que têm invadido o espaço público aqui em Portugal: “preocupar-se com a identidade pessoal, comunitária ou nacional, à parte destas considerações, introduz facilmente um critério ideológico que distorce a vida social e impõe a vontade dos mais fortes como critério da verdade” (n. 7). E ainda: “Exorto todos os fiéis da Igreja Católica e todos os homens e mulheres de boa vontade a não cederem a narrativas que discriminam e causam sofrimento desnecessário aos nossos irmãos e irmãs migrantes e refugiados” (n. 9).

Leão XIV alerta sem rodeios neste texto para as tentações nacionalistas do presente.

2. O Papa Leão XIV tem indubitavelmente prosseguido na esteira de Francisco. Vou apenas referir brevemente três escritos seus.

2.1. Na Mensagem para o 111º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, os migrantes são apresentados como mensageiros de esperança: “A sua coragem e tenacidade são testemunho heroico de uma fé que vê além do que os nossos olhos podem ver e que lhes dá força para desafiar a morte nas diferentes rotas migratórias contemporâneas”.

Leão alerta sem rodeios neste texto para as tentações nacionalistas do presente e para a crise do multilateralismo a que elas têm conduzido: “A tendência generalizada de cuidar exclusivamente dos interesses de comunidades circunscritas constitui uma séria ameaça à partilha de responsabilidades, à cooperação multilateral, à realização do bem comum e à solidariedade global em benefício de toda a família humana”. Tentações que invadem a própria Igreja: “Sempre que a Igreja cede à tentação da «sedentarização» e deixa de ser civitas peregrina – povo de Deus peregrino rumo à pátria celeste (cf. Agostinho, De civitate Dei, Livro XIV-XVI), deixa de estar «no mundo» e torna-se «do mundo» (cf. Jo 15, 19)”.

Pelo contrário, a presença de migrantes, nomeadamente aqueles católicos, “com o seu entusiasmo espiritual e a sua vitalidade”, pode ser, afirma o Papa, fonte de revitalização em muitas comunidades eclesiais envelhecidas e acomodadas. Não só pode, como está de facto a ser! Basta ir à Missa em muitas paróquias por essa Europa fora, aqui mesmo entre nós, como testemunho com os meus próprios olhos na comunidade paroquial que agora frequento.

2.2. Na homilia do Jubileu dos Migrantes, no passado dia 5 de outubro, na Praça de S. Pedro, em que tive o privilégio de estar, o Papa recordou “a história de tantos nossos irmãos migrantes, o drama da sua fuga da violência, o sofrimento que os acompanha, o medo de não conseguirem, o risco de travessias perigosas ao longo das costas marítimas, o seu grito de dor e desespero”, para depois apelar com veemência: “Irmãos e irmãs, aqueles barcos que desejam avistar um porto seguro onde atracar e aqueles olhos cheios de angústia e esperança que procuram terra firme onde desembarcar não podem nem devem encontrar a frieza da indiferença ou o estigma da discriminação!”. E terminou com estas belas palavras de acolhimento: “Aos migrantes, por sua vez, digo: sede sempre bem-vindos!”.

2.3. No primeiro grande texto do seu pontificado, a Exortação Apostólica Dilexi te sobre o amor aos pobres, Leão dedica alguns números ao acompanhamento dos migrantes (nn. 73-75). Depois de recordar que “a experiência da migração acompanha a história do povo de Deus”, o Papa afirma que “o próprio Cristo (…) viveu entre nós como estrangeiro” e, que, por isso, “a Igreja sempre reconheceu nos migrantes uma presença viva do Senhor” (n. 73).

No contexto da citação bíblica de Mt 25, 35 a que o Papa Leão XIV alude, repito, com Francisco, que “não é uma construção artificial” poder dizer hoje, em novembro de 2025, em Portugal, que Jesus também viveu o drama da imigração, Jesus também é do Bangladesh! E, ao ler o Papa a recordar as grandes figuras de santos que “se destacaram no cuidado pastoral dos migrantes”, quando, no séc. XIX, “milhões de europeus emigravam em busca de melhores condições de vida” (n. 74), não posso deixar de exprimir o meu profundo escândalo por ver membros da Igreja, não só leigos, mas também em alguns casos até bispos e padres, a exprimirem dúvidas quanto às respostas pastorais a dar quando agora os milhões de migrantes já não são europeus, mas africanos, asiáticos ou latino-americanos. E também dou graças a Deus por não faltarem apelos dos sucessores de Pedro a resistir a esta onda de autêntico racismo, xenofobia, indiferença e recusa de compaixão e empatia. “A Igreja, como mãe, caminha com os que caminham. Onde o mundo vê ameaça, ela vê filhos; onde se erguem muros, ela constrói pontes. Pois sabe que o Evangelho só é crível quando se traduz em gestos de proximidade e de acolhimento; e que em cada migrante rejeitado, é o próprio Cristo que bate às portas da comunidade” (n. 75).

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.