Vivemos numa sociedade cansada. Não é apenas uma impressão ou uma sensação individual. É o retrato de uma época e de mim própria, que cada vez me sinto mais assoberbada por um certo “Martalismo”, que a idade deveria dispensar.
Byung-Chul Han chamou-lhe “sociedade do cansaço”: uma sociedade que já não precisa de um opressor exterior para nos exigir sempre mais, porque cada um de nós se tornou, de algum modo, o seu próprio vigilante, o seu próprio patrão e, tantas vezes, o seu próprio carrasco. Temos de produzir, ser eficientes, responder, competir, melhorar, superar-nos. Nunca parece ser suficiente. Nem para nós nem para os outros.
Vivemos sob o imperativo do desempenho. O sucesso tornou-se quase uma categoria moral. Há um obsessivo direito ao sucesso, mas parece não existir um verdadeiro direito ao fracasso. Os que vencem são apresentados como exemplos; os que ficam para trás desaparecem da narrativa. Uns entram nas estatísticas do crescimento, da produtividade, da inovação e do mérito. Ganham likes e conquistam seguidores. Outros aparecem apenas nas estatísticas do desemprego, da pobreza, dos subsídios e dos apoios sociais e ainda são insultados de malandros por algumas pseudo elites. Como se o insucesso económico fosse, de alguma maneira, uma diminuição da dignidade humana.
O ser humano não pode ser reduzido àquilo que faz ou produz. Uma pessoa não é uma unidade de produção. Não vale mais porque produz mais, nem vale menos porque produz menos. Na sua distinção entre trabalho, obra e ação, Hannah Arendt foi provocadora. Recorda-nos que a vida humana acontece na relação, na palavra, na presença e na capacidade de aparecer diante dos outros como alguém único. E, quem produz muito hoje parece ter saído de uma série qualquer de fábrica…
Etty Hillesum, talvez de uma forma ainda mais radical, percebeu isto num dos contextos mais desumanizadores da história. Nos seus Diários, escritos durante o cativeiro nazi, encontramos uma mulher que procura preservar dentro de si um espaço de liberdade, de humanidade e de relação com Deus. Etty não tinha o poder de mudar as estruturas que a cercavam, mas recusou deixar que essas estruturas destruíssem a sua capacidade de amar e de resistir ao que lhe era imposto. No meio da violência, descobriu que ainda podia escolher aquilo que faria de si própria diante do outro.
Talvez esta seja uma das grandes questões do nosso tempo: o que estamos a deixar que a lógica da produtividade faça de nós?
Temos valor porque somos criaturas e, antes de qualquer mérito, há uma dádiva, uma vida recebida. Temos pena de que seja uma verdade tão simples e ao mesmo tempo tão pacificadora.
A teologia cristã tem aqui algo de profundamente belo, mas incómodo a dizer. A dignidade humana não é uma recompensa pelo desempenho. Não temos valor porque somos úteis. Temos valor porque somos criaturas e, antes de qualquer mérito, há uma dádiva, uma vida recebida. Temos pena de que seja uma verdade tão simples e ao mesmo tempo tão pacificadora.
Se formos ao Evangelho vemos que Jesus se aproxima precisamente daqueles que a sociedade tende a colocar nas margens: os pobres, os doentes, os pecadores, os que não têm poder nem estatuto. Tudo o que não prestava, como costuma dizer um padre meu amigo. E, na parábola do Bom Samaritano, não pergunta primeiro quem é produtivo, competente ou bem-sucedido. Pergunta quem foi capaz de se fazer próximo. Nada mais contracultural. Sobretudo nos nossos dias.
Jesus nunca apresenta a produtividade como uma categoria moral. Não encontramos nos Evangelhos a ideia de que uma pessoa vale na proporção daquilo que consegue fazer, produzir ou realizar. Pelo contrário: muitas das páginas mais bonitas e comoventes do Evangelho acontecem precisamente junto daqueles que a sociedade considera frágeis, inúteis, improdutivos ou até incómodos.
Veja-se, por exemplo, o homem da mão paralisada. Jesus encontra-o na sinagoga e, antes de o curar, coloca uma pergunta desconcertante: “É permitido ao sábado fazer bem ou fazer mal, salvar uma vida ou perdê-la?” A questão não é saber quanto aquele homem ainda consegue produzir. A questão é saber se uma regra, mesmo uma regra religiosa, pode estar acima da dignidade de uma pessoa. Para Jesus, não pode. A instituição existe para o ser humano e não o ser humano para a instituição.
O mesmo acontece com a mulher encurvada há dezoito anos. Jesus não a olha como alguém definido pela sua incapacidade. Aliás, a sua doença não é a sua identidade. A sua limitação não diminui o seu valor.
E depois há Bartimeu, sentado à margem do caminho, a gritar por Jesus enquanto a multidão procura fazê-lo calar. É uma imagem poderosa para o nosso tempo. Também hoje há pessoas que desaparecem das nossas narrativas porque deixaram de ser competitivas, eficientes ou produtivas. Mas Jesus manda chamá-lo. E quando Bartimeu chega, não lhe pergunta o que pode oferecer. Pergunta simplesmente: “Que queres que Eu te faça?”. Antes de ser útil, aquele homem é alguém. Antes de produzir, tem uma voz. Antes de cumprir uma função, tem um rosto.
É por isso que a dignidade humana, numa perspetiva cristã, não pode depender da produtividade. Começa noutro lugar: o ser humano é imagem de Deus antes de ser produtor, consumidor ou trabalhador. A dignidade é anterior ao desempenho. Não precisamos de provar que merecemos existir.
Talvez a parábola dos trabalhadores da vinha seja ainda mais paradoxal. Uns trabalham desde manhã, outros chegam quase no fim do dia, e no fim todos recebem o mesmo. A lógica do mérito é aqui deliberadamente perturbada. Jesus não está a ensinar uma teoria económica; está a revelar uma outra lógica: a lógica da graça. Deus não distribui dignidade segundo as horas trabalhadas. O amor de Deus não é um salário.
É precisamente esta a grande diferença entre a lógica da produtividade e a lógica do Evangelho. A produtividade pergunta: “Quanto vales pelo que fazes?” O Evangelho pergunta: “Quem és tu?” A primeira mede; a segunda reconhece. A primeira compara; a segunda acolhe. A primeira transforma a pessoa em recurso; a segunda devolve-lhe um rosto.
Até a cena da viúva pobre, que deposita duas pequenas moedas no templo, contém esta inversão. Jesus vê um valor que não pode ser calculado economicamente. A oferta é pequena, mas a pessoa não é pequena. Aquilo que interessa não é a quantidade, mas o coração de quem oferece.
É por isso que a dignidade humana, numa perspetiva cristã, não pode depender da produtividade. Começa noutro lugar: o ser humano é imagem de Deus antes de ser produtor, consumidor ou trabalhador. A dignidade é anterior ao desempenho. Não precisamos de provar que merecemos existir.
Talvez seja esta uma das mensagens mais urgentes do cristianismo para uma sociedade exausta: há uma vida para além da produtividade. Há momentos em que cuidar vale mais do que produzir, escutar vale mais do que responder, acompanhar vale mais do que vencer, permanecer ao lado de alguém vale mais do que alcançar uma meta.
Seria, por isso, interessante que nos obrigássemos a fazer aquela pergunta incómoda: que espécie de sociedade estamos a construir quando começamos a avaliar as pessoas pelos mesmos critérios com que avaliamos as coisas?
Uma máquina pode ser mais ou menos eficiente. Um trabalhador pode produzir mais ou menos. Uma empresa pode ser mais ou menos rentável. Mas uma pessoa não pode ser mais ou menos digna.
É esta distinção que não podemos perder. Porque, quando a produtividade se transforma numa categoria moral, o fracasso deixa de ser apenas uma circunstância e passa a ser uma culpa; a pobreza deixa de ser uma condição e transforma-se num estigma; a doença deixa de ser sofrimento e passa a ser incapacidade; a velhice deixa de ser uma etapa da vida e passa a ser um problema.
Sonho, por isso, com a possibilidade de recuperar o direito de parar, de contemplar, de estar com os outros… Recuperar a possibilidade de simplesmente existir sem ter de justificar permanentemente a existência através do desempenho.
Será que o Algoritmo vai permitir a descoberta de que a vida não é um concurso para merecer o direito de existir?
Bom outono.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
