Desencontrados - Ponto SJ

Desencontrados

O desencontrado não é propriamente uma pessoa perdida. Vive entre a dificuldade de escutar a sua interioridade, o desconhecimento de si próprio e a multiplicidade de possibilidades que a exterioridade lhe oferece.

Os desencontrados crescem e desenvolvem-se, cada vez mais, nas nossas sociedades contemporâneas. Sociedades marcadas pela aceleração, pelo fazer, pela eficiência e pela técnica, essa “mãe de todas as possibilidades”. Nelas, a contemplação é tantas vezes tratada como se fosse apenas um intervalo lúdico. E, assim, acaba por ser apenas uma bela ideia.

O desencontrado não é propriamente uma pessoa perdida. É alguém que vive num permanente desencontro: confuso, confundido e, muitas vezes, confundindo os outros. Não tem idade nem condição social. Está por todo o lado e sempre existiu. Há pais e mães, padres, médicos, professores, políticos, pedreiros, carpinteiros, desportistas, artistas. Hoje, alguns apresentam-se até como “modelos de vida” e influenciadores de muitos outros.

O desencontrado vive entre a dificuldade de escutar a sua interioridade, o desconhecimento de si próprio e a multiplicidade de possibilidades que a exterioridade lhe oferece: sucesso, riqueza, poder, reconhecimento, estatuto. Precisa de mostrar uma vida aparentemente perfeita.

Os desencontrados estão cada vez mais zangados, violentos, polarizados, insatisfeitos e cheios de razão. Algazarra. Gritaria. Nunca tanto se falou de empatia e de amor e, paradoxalmente, nunca se pareceu viver tão longe da empatia e do amor.

A fragilidade não é aceite. A dúvida é vista como fraqueza. Reconhecer que não sabemos torna-se insuportável. Pedir perdão parece uma humilhação.

Os desencontrados sonham com a felicidade. Desejam-na. Procuram-na. E, no entanto, permanecem longe dela. Autocontemplam-se cada vez mais. Cuidam do corpo, da imagem, da aparência. Procuram ser cada vez mais bonitos, mais jovens, mais saudáveis, mais desejáveis. E, ao mesmo tempo, estão cada vez mais insatisfeitos consigo mesmos, por fora e por dentro. Uma canseira. Uma permanente insatisfação.

Querem justiça, respeito e reconhecimento da parte do outro, mas desrespeitam o outro. Vivem centrados em si, nos seus interesses, na sua casa, nos seus. Protestam porque os outros buzinam. Protestam porque os outros não respeitam as leis. Protestam porque os outros não cumprem as regras. E, entretanto, permanecem desencontrados, porque não vivem aquilo que exigem dos outros. Estão atentíssimos ao cisco no olho do outro e não dão conta da trave que está no seu próprio olho (Mt 7,3).

Os pais estão, talvez, cada vez mais próximos dos filhos. Mas, ao mesmo tempo, permitem que estes façam, cada vez mais cedo, aquilo que querem. Quando alguma coisa corre mal, a culpa é dos professores, da escola, dos outros — porque não fizeram a vontade ao seu filho.

A “conversa de taberna” passou para a televisão. Os “opinadores” faltam, em direto, ao respeito pelo outro. A banalização do mal ecoa por todo o lado. A infidelidade é “louvada” em troca do sucesso. A mentira pouco importa, acima dela está “a minha verdade”. O outro deixa de ser alguém a respeitar e passa a ser alguém a combater. O problema ambiental é sempre responsabilidade do outro.

O desencontrado tem dificuldade em aprender. O sofrimento e a dúvida não o fazem crescer e tornar-se mais compassivo, pelo contrário, a sua insegurança faz crescer nele a soberba.

A fragilidade não é aceite. A dúvida é vista como fraqueza. Reconhecer que não sabemos torna-se insuportável. Pedir perdão parece uma humilhação.

Precisamos de ter razão, de parecer fortes, de mostrar que sabemos, que podemos, que conseguimos.

O desencontrado precisa de parar!

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.