“Que tipo de Igreja as pessoas encontram precisamente quando estão mais frágeis ?” Eis a questão, lançada pelo Papa Leão no dia 7 de outubro no arranque do encontro que assinalou os 10 anos da publicação da encíclica Amoris Laetitia. Mais de duzentas pessoas estiveram reunidas no Vaticano para refletir em conjunto sobre cinco grandes temas: “As famílias hoje: realidade, beleza e desafios”; “Os jovens e a descoberta da vocação ao matrimónio”; “Vida conjugal: os primeiros anos de casamento – um momento decisivo”; “Nas dificuldades da vida: acompanhamento e apoio”; “Famílias cristãs, sujeitos da missão da Igreja”.
Os temas quase que falam por si, indicando fragilidades e prioridades. O encontro teve pouco mediatismo, até porque calhou mesmo na semana da operação ao pulmão do Papa Leão. A Amoris Laetitia, lançada no ano da misericórdia (2016), abriu outros caminhos para a vida conjugal e familiar. E iniciou uma corrente de misericórdia e de novas oportunidades para muitas pessoas e situações, sobretudo para situações de fragilidade: uma grande benção!
E se falássemos menos dos padres?
Nesta última década “bateu-se” muito nos padres! Os abusos sexuais de menores e o clericalismo foram os grandes motivos. Foi também em 2016 que o tema dos abusos emergiu com mais força entre nós: um autêntico tsunami de crimes hediondos que bradam aos céus! E outras tantas falsas acusações e injustiças. O clericalismo foi nomeado pelo Papa Francisco como a principal “doença” da Igreja. Doença que está tantas vezes na origem dos abusos.
No meio disto, tornaram-se evidentes as fragilidades de muitos padres, assoberbados de solicitações e cobertos por um manto de desconfiança por causa dos abusos. Só este ano, três padres meus próximos tiveram burnouts. Deu-me que pensar. Agora que este tema dos abusos parece ter sido devidamente reconhecido, endereçado e tratado, fica a pergunta: vamos continuar a ”bater” nos padres ou vamos mudar de conversa?
É que o clericalismo também é um “afunilar” das conversas num certo fascínio manhoso pelas figuras sacerdotais, misturado com uma maledicência doentia. Fala-se demais dos padres, dos que são o máximo e dos que fazem porcaria. De todos se fala dos seus pecados, vaidades e fragilidades. Além de carregada de maus sentimentos e excessos, essa conversa vem muitas vezes esconder outra, que ninguém quer ter: o pouco ou nada que fazem todos os outros batizados, que somos a larguíssima maioria!
Sinodalidade
A recente aposta no reforço da sinodalidade é a tentativa de equilibrar muita coisa: de procurar outros caminhos, de valorizar os contributos de cada um e as várias vocações. De reconhecer fragilidades e aprender a trabalhar juntos, de nos relacionarmos melhor, todos, e de refletir em conjunto, promovendo melhorias. E de se abordarem temas relevantes, sem afunilar a conversa nos temas do costume: os abusos, os padres…
A sinodalidade não é uma ameaça às lideranças de padres e bispos. É uma grande oportunidade de valorização de todos. Infelizmente, parece que esta “conversa” sinodal está a passar ao lado da larga maioria das pessoas, talvez por ser (ainda) demasiado processual ou metodológica.
Este mais recente encontro a assinalar o décimo aniversário da Amoris Laetitia foi também mais um exercício de sinodalidade, desta vez em torno de temas vitais das famílias e dos casais: responsáveis da Cúria, bispos, especialistas e vários casais estiveram reunidos mais de uma semana em mesas redondas onde a palavra e o silêncio circulou por todos. São por demais conhecidas as fragilidades atuais dos casais e das famílias e importa refletir e propor caminhos para as melhorar. Por um lado, é pena um encontro destes ser tão pouco divulgado. Por outro, gosto de pensar que as coisas boas vão surgindo lentamente, no silêncio e no coração de quem as vai gerando, “sem muita onda”. Os frutos deste encontro chegarão a seu tempo.
“Nós, leigos, casados ou não, haveríamos de concentrar esforços na nossa vocação de batizados que, nos altos e baixos da vida, aspiram à santidade. Haveríamos de apoiar e fortalecer mais as pessoas, as novas formas de agregação e as comunidades que promovem um paradigma laical e conjugal, dando-lhes mais solidez e força.”
E se falássemos mais dos leigos?
No século passado emergiram diversos movimentos e correntes de vida laical e conjugal. O Concílio Vaticano II veio dar força a este inconsciente coletivo eclesial, a esta intuição de fundo: o paradigma clerical, que imperou durante séculos, não poderia continuar a ser o único. Todos somos chamados à santidade. Se “na casa de meu Pai há muitas moradas” – como diz Jesus no Evangelho – têm de poder coexistir, ombro a ombro, sem complexos de superioridade ou inferioridade, outros paradigmas, outros estilos prementes de viver a fé e a caridade. Passou-se a falar no paradigma conjugal (de que as Equipas de Nossa Senhora são um belo exemplo), do paradigma da santificação do trabalho e da vida corrente (em que o Opus Dei é uma referência incontornável), da santificação das famílias (em Schoenstatt e nos Focolares, por exemplo). E outras correntes de vida que crescem na nossa vida eclesial hodierna.
Nós, leigos, casados ou não, haveríamos de concentrar esforços na nossa vocação de batizados que, nos altos e baixos da vida, aspiram à santidade (em vez de passar a vida a falar dos padres!). É certo que uma vida laical desenrola-se em contextos muito diversos e é difícil de tipificar. Cada leigo é diferente de outro e tem uma missão quase única e própria, um raio de ação diverso, uma maior penetração em certos ambientes; é preciso acreditar no valor e na importância da missão laical, nos variadíssimos âmbitos em que se desenrola. Não são missões de somenos importância nem menos propensas à santidade e à propagação do Evangelho. E não estão menos cheias de fragilidades.
Santa Teresinha, a pequena grande santa dos tempos modernos, deu o mote para este novo tipo de santidade: pequeno caminho de “amor concentrado”, de maior interioridade e invisibilidade, de cuidado nas pequenas coisas e gestos do dia a dia, de entrega generosa aos que estão fisicamente próximos (família!), de oração pelos ateus, sempre muito orante e com forte ardor missionário.
Também São José nos ensina a viver uma grande e humilde santidade em meio laical e familiar, trabalhando, rezando e providenciando, sem alarido nem espetáculo. Donald Calloway, padre americano autor do bestseller Consagração a São José não tem dúvidas em afirmar que todo o contexto atual do mundo e da Igreja levam a acreditar que “esta é a hora de São José!”.
Haveríamos de apoiar e fortalecer mais as pessoas, as novas formas de agregação e as comunidades que promovem um paradigma laical e conjugal, dando-lhes mais solidez e força.
Casais santos e frágeis
Podem inspirar-nos também as ainda recentes canonizações ou beatificações de alguns casais, como o casal Beltrame Quatrocchio, Zélia e Luís Martin (pais de Santa Teresinha), Carlos e Zita de Habsbourg e mais um ou outro. São poucos, ainda.
Importa fala mais de casais santos (mesmo que ainda não canonizados) com vidas de abundância e entrega generosa, de famílias que procuram seguir o Senhor com criatividade e no meio de tantas solicitações, de mães e pais de família extraordinários que dão tudo no seu dia a dia. Aceitam-se testemunhos que nos entusiasmem pela vida conjugal no meio de tantas fragilidades.
Neste recente encontro por ocasião dos 10 anos da Amoris Laetitia também se falou de famílias missionárias e sujeitos de missão e de santidade para o mundo. A concluir o encontro, o Papa Leão, na fragilidade pós operatória, enviou do hospital a homilia para ser lida por um cardeal na missa final. Afirma o Papa que “o mundo não tem futuro sem famílias sólidas” e que “merecem ser valorizados e apoiados os esforços de tantas famílias que, nas nossas cidades e aldeias, vivem a sua vocação e missão dia após dia, sem ruído, mas com fidelidade por vezes heroica”. O site www.amorislaetitia.va inclui a homilia completa e muita informação e recursos desta magna reunião. Sabemos, porém, que a sinodalidade não vale tanto pelas sínteses dos encontros e recursos online. O processo, as relações e o ambiente criados, valem tanto ou mais do que produtos finais escritos. Assim é a nossa vida também. Vida sempre recheada de fragilidades: dos casais, dos padres, do Papa no hospital, da Igreja toda, de todos e de cada um de nós. Talvez a santidade seja este assumir constante da nossa fragilidade, aliado a uma vontade firme de permanecermos perto de Jesus.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
