Catequese: o que muda e porquê? - Ponto SJ

Catequese: o que muda e porquê?

Catequese continua a ser sinal de vitalidade das paróquias, mas o futuro depende de decisões prudentes e corajosas. O Itinerário é uma aposta no contrário: devolver às comunidades a confiança na sua missão de de anunciar o Evangelho.

«É catequese.» Foi assim que o jornalista João Miguel Tavares, no contexto das recentes Jornadas das Comunicações Sociais da lgreja (24.09.2026), se referiu a uma conhecida rubrica de rádio em Portugal. Na sua intervenção definiu «catequese» como um «trabalho evangélico» através do qual se transmite uma verdade fundamental à sociedade por meio de uma linguagem que todos percebem, embora não compreendam imediatamente o que está a acontecer. Explicou: «X faz catequese de uma maneira que as pessoas podem não perceber, mas é catequese. [Está a dizer:] Não sejas ridículo; tu não és o maior. E isso é mesmo um trabalho muito importante nos tempos atuais, nos tempos das redes, nos tempos dos espelhos.»

Nesta afirmação encontramos algo de fundamental sobre a catequese: fazer-nos pensar e levar-nos à mudança. Este processo requer algo tão simples, mas ao mesmo tempo tão desafiante como falar de modo que os outros compreendam. Neste sentido, proponho-me partilhar convosco algumas notas relativas ao processo de transformação da catequese das crianças e adolescentes atualmente em curso na Igreja que caminha em Portugal.

Em primeiro lugar, o contexto. Era comum pensar-se que a criança chegava à paróquia aos seis anos com a fé já semeada em casa, e à catequese cabia apenas completar o trabalho, transmitindo conteúdos. Esse pressuposto deixou de corresponder à realidade. Muitas crianças chegam à catequese sem nunca terem ouvido falar de Jesus em família, e para muitos adolescentes o Crisma acaba por ser uma festa de despedida da Igreja.

Muitas crianças chegam à catequese sem nunca terem ouvido falar de Jesus em família, e para muitos adolescentes o Crisma acaba por ser uma festa de despedida da Igreja.

Foi a pensar nisto que os bispos portugueses aprovaram, em 2022, um novo caminho para a catequese. Procurando ser fiel ao desafio de falar de modo que todos compreendam, organizo estas notas em dez perguntas e respostas.

1. O que é, afinal, o «Itinerário»?

É o novo plano de referência para a catequese das crianças e dos adolescentes em todas as dioceses portuguesas. O nome completo diz muito: Itinerário de iniciação à vida cristã das crianças e dos adolescentes com as famílias. Foi aprovado pela Conferência Episcopal Portuguesa em abril de 2022 e vem substituir o programa que orientava a catequese paroquial desde 1988.

Não se trata apenas de ter livros novos. O que está em causa é uma maneira diferente de pensar o que é a catequese e para que serve. Duas palavras do título resumem a mudança: «itinerário», porque se trata de um caminho e não de um programa escolar; e «com as famílias», porque os pais e outros familiares deixam de ficar à porta.

2. Porque é que a catequese precisava de mudar?

Porque o país mudou. Portugal continua a ter raízes católicas fortes, mas a tradição já não garante a fé. Muitas famílias pedem o Batismo ou a catequese por costume, sem que isso corresponda a uma pertença viva à Igreja. Vivemos numa sociedade plural, em que ser cristão deixou de ser o normal e passou a ser uma escolha.

O Itinerário recupera, a este propósito, uma frase de Tertuliano, um autor cristão do século II: «Não se nasce cristão, torna-se cristão.» Escrita num tempo em que os cristãos eram minoria, a frase volta a ser atual. É a primeira vez que aparece num documento oficial da Igreja sobre a catequese.

Há também uma dificuldade mais subtil. Hoje, muita gente desconfia de quem fala de fé, como se anunciar o Evangelho fosse sempre uma tentativa de «converter» alguém à força. Essa desconfiança tornou os próprios cristãos tímidos. O Itinerário quer devolver-lhes a confiança de que a sua fé é uma boa notícia que vale a pena partilhar.

3. Fala-se em passar do «modelo escolar» ao «modelo catecumenal». O que quer isto dizer?

É a mudança de fundo, e foi o Papa Francisco quem a formulou aos bispos portugueses: pede-se que a catequese deixe de transmitir apenas «conhecimentos cerebrais» e se torne um «encontro pessoal com Jesus Cristo» vivido em dinâmica vocacional, em que Deus chama e cada pessoa responde.

O modelo escolar é o que quase todos conhecemos: turmas por idade, um ano de catequese atrás do outro, matérias a aprender e, no fim de certos anos, um sacramento, quase como um prémio de mérito ou bom comportamento com um diploma de passagem de ano.

O catecumenado é o caminho pelo qual, desde os primeiros séculos, os adultos se preparavam para o Batismo. Não é um curso, mas uma iniciação: a fé aprende-se por etapas, escutando a Palavra de Deus, rezando e celebrando com a comunidade, e mudando a própria vida. O Itinerário inspira-se neste modelo e aproxima-se dele o mais possível. A catequese passa a ser entendida como um caminho de iniciação à vida cristã e de de discernimento, em que se aprende a ler a própria vida à luz de Deus e a escolher em conformidade.

A catequese passa a ser entendida como um caminho de iniciação à vida cristã e de de discernimento, em que se aprende a ler a própria vida à luz de Deus e a escolher em conformidade.

Daqui decorrem duas consequências concretas:

  • O ritmo da pessoa conta mais do que o calendário. A passagem de tempo deve depender do crescimento real de cada criança ou adolescente, e não apenas da idade ou do ano escolar.
  • Os percursos são mais flexíveis, para se ajustarem às diferentes situações de vida das famílias e das comunidades cristãs.

4. Os pais passam a ter um papel diferente?

Sim, e esta é talvez a novidade mais visível. O programa anterior dava muita importância à comunidade paroquial, mas reservava à família um papel de simples colaboradora. O Itinerário quer devolver-lhe o protagonismo e trata os pais como «companheiros de viagem».

A ideia de fundo é que a catequese de um filho pode ser uma oportunidade para toda a família fazer, ou recomeçar, o seu próprio caminho de fé. Muitos pais também nunca tiveram um verdadeiro primeiro anúncio, e dificilmente poderão transmitir aos filhos aquilo que eles próprios não viveram.

Em concreto, o Itinerário prevê:

  • Encontros em conjunto, em que pais e filhos participam na mesma sessão de catequese;
  • Momentos em que são os adultos a anunciar a fé às crianças e aos adolescentes;
  • Fé vivida em casa, com propostas de oração e pequenas celebrações em família;
  • Encontros por ocasião das celebrações principais do percurso dos filhos;
  • Uma catequese própria para os adultos, para redescobrirem a alegria da fé e, quando possível, completarem a sua iniciação cristã e ou celebrarem o Matrimónio;
  • Participação na vida da comunidade paroquial.

O objetivo final é que cada família se torne capaz de viver e partilhar a fé em casa, mesmo que até aqui isso nunca tenha acontecido.

5. Como fica o percurso, idade a idade?

O Itinerário organiza-se em quatro «tempos», que acompanham a criança desde o nascimento até à entrada na juventude. As idades são indicativas: o que conta é o caminho de cada um.

1.º tempo — Despertar da fé (até aos 7 anos). É a grande novidade no início do percurso. Começa com o acompanhamento das famílias com filhos pequenos, ligado ao Batismo e ao Matrimónio. Quando a criança entra na escola, a família é acolhida na comunidade durante cerca de um ano, que pode prolongar-se se for preciso. A regra é clara: ninguém começa a catequese sem um primeiro anúncio. A entrada na catequese faz-se através de uma celebração litúrgica. Já está publicado o percurso DF2 para os 6 anos de idade.

2.º tempo — Iniciação à vida cristã (dos 7 aos 10 anos). Lançam-se as bases da vida cristã, em três anos divididos em seis percursos semestrais:

O percurso “Celebramos a nossa fé” é flexível, podendo ajustar-se ao momento da celebração dos Sacramentos (que pode ocorrer num dos semestres do 3º ano, consoante a opção da paróquia).

3.º tempo — Aprofundamento mistagógico (dos 10 aos 14 anos). Uma idade que o programa anterior deixava um pouco esquecida: a pré-adolescência. A proposta é alargar e aprofundar o que se viveu antes, com um método que pede aos próprios adolescentes que reconheçam, interpretem e escolham, para se sentirem protagonistas do seu caminho. São quatro percursos anuais já publicados:

  • AM 1 – Viver a Palavra
  • AM 2 – Viver a Fé
  • AM3 – Viver os Sacramentos
  • AM4 – Viver em Cristo

Tendo em conta a situação de cada comunidade cristã, a ordem dos percursos pode ser alterada. Por exemplo, se houver grupos pequenos pode alternar-se entre AM1/AM2 (anos pares) – AM2/AM1 (anos ímpares) e entre AM3/AM4 (idem), propondo cada um deles de dois em dois anos. O mais importante são os percursos propostos e não tanto o ano de catequese em que se está.

4.º tempo — Discipulado missionário (a partir dos 14 anos). É o tempo da Confirmação e da ponte para a pastoral juvenil (ver pergunta 7).

6. E os sacramentos? A Primeira Comunhão e o Crisma mudam de idade?

Sim e não. Na versão final, o Itinerário optou por manter a ordem e as idades habituais: a Primeira Comunhão no segundo tempo, a Confirmação no quarto. Mas deixa espaço para a diversidade que já existe. Há, por exemplo, paróquias do Patriarcado de Lisboa onde as crianças recebem o Crisma antes da Primeira Comunhão, mesmo as que foram batizadas em bebé.

O que muda é o sentido. Na lógica antiga, a catequese preparava para um sacramento, que funcionava como meta ou diploma. Na nova lógica, a catequese parte do sacramento já recebido e ajuda a vivê-lo. O sacramento deixa de ser uma linha de chegada e passa a ser uma fonte.

Por isso, o momento de celebrar cada sacramento deve resultar de um discernimento feito em comunidade, atento ao ritmo de cada pessoa: o caminho já percorrido, a maturidade das atitudes, a ligação à comunidade cristã e o testemunho de vida. A organização em semestres no segundo tempo facilita esta flexibilidade.

7. E depois do Crisma, acaba tudo?

É precisamente isso que o Itinerário quer evitar. Para a maioria dos adolescentes, o Crisma tem marcado o fim da catequese e, muitas vezes, o fim de uma ligação regular à Igreja. O programa anterior partia do princípio de que haveria uma passagem natural para os grupos de jovens, mas essa passagem raramente acontecia.

O quarto tempo, chamado discipulado missionário, quer ser a ponte entre a catequese paroquial e a pastoral juvenil, e entre a vida na paróquia e a entrada na universidade. Inspira-se na exortação Cristo Vive, que o Papa Francisco dirigiu aos jovens em 2019.

Inclui um percurso de preparação para a Confirmação (e outros sacramentos da iniciação cristã), Ser discípulo na força do Espírito, e quatro percursos cujos títulos dizem muito do tom da proposta:

  • DM 1 – Raízes (publicado)
  • DM 2 – Sonhos (publicado)
  • DM 3 – Trilhos (a ser publicado pela pastoral juvenil)
  • DM 4 – Escolhas (a ser publicado pela pastoral juvenil)
  • DM Crisma – Um percurso anual a ser vivenciado quando se considerar mais apropriado consoante o ritmo do grupo e/ou a opção da paróquia.

A meta já não é «fazer o Crisma», mas ajudar cada jovem a encontrar o seu lugar na Igreja e na sociedade.

A meta já não é «fazer o Crisma», mas ajudar cada jovem a encontrar o seu lugar na Igreja e na sociedade. Se bem que seja difícil estabelecer uma distinção clara entre catequese da adolescência e pastoral juvenil, considera-se que este quarto tempo possa ser vivido numa lógica mais aberta aos dinamismos específicos do acompanhamento dos jovens.

8. E se os pais não forem praticantes, ou não puderem acompanhar?

O Itinerário é claro: o caminho de fé de uma criança não fica dependente dos pais. Se estes não estiverem disponíveis, cabe à comunidade cristã garantir as condições para que a criança possa fazer o seu percurso.

Ao mesmo tempo, a porta fica aberta a todos os adultos, qualquer que seja a sua situação. Há lugar para os casais casados pela Igreja, para os que vivem juntos sem terem celebrado o Matrimónio e para quem passou por uma separação. Nenhum destes está impedido de crescer na fé e de ser acompanhado pela Igreja. A catequese dos filhos pode ser, para muitos pais, a ocasião de um reencontro. Cada um dos tempos prevê interações diferenciadas com as famílias.

9. Em que ponto está a aplicação do Itinerário?

Quatro anos depois da aprovação, a renovação está a meio do caminho, e começou pelo fim. Os novos materiais, preparados pelo Secretariado Nacional da Educação Cristã com a Salesianos Editora na coleção Emaús, chegaram primeiro à adolescência. Só agora a mudança chega aos mais pequenos.

Em setembro de 2026, a situação da publicação da coleção Emaús é a seguinte:

Nesta fase de transição mantém-se em vigor os catecismos anteriores, respetivamente: 2) Ensina-nos a rezar; 3) Queremos seguir Jesus e 4) Tu tens palavras de vida eterna.

A implementação deste itinerário requer um empenho dos catequistas em compreender o seus fundamentos e o que está subjacente à metodologia catequética de cada um dos tempos.

10. O que está em jogo com esta mudança?

O Itinerário procura responder a quatro fragilidades da catequese atual:

  • A catequese é muitas vezes vista como mais uma atividade extracurricular, ao lado do desporto, da música ou dos escuteiros, e reduzida à transmissão de valores.
  • Sabe-se pouco sobre o grau real de adesão à fé de cada criança ou família, e faltam critérios para o discernir.
  • Os sacramentos continuam a ser vistos como a meta, e não como a fonte da vida cristã.
  • A catequese e a pastoral juvenil vivem de costas voltadas.

A resposta passa por três opções:

  • dar mais importância à situação real de cada pessoa perante a fé do que à sua idade;
  • equilibrar melhor o papel da catequese, da família e da comunidade;
  • propor que caminhem juntas a pastoral da infância, da juventude e da família.

Nada disto acontece por decreto. A catequese continua a ser um sinal de vitalidade das paróquias, mas o seu futuro depende de decisões prudentes e corajosas. Seria mais cómodo manter tudo como está. O Itinerário é uma aposta no contrário: não deixar as coisas na mesma e devolver às comunidades a confiança na sua missão de anunciar o Evangelho.

 

Para saber mais:

  • Conferência Episcopal Portuguesa, Itinerário de iniciação à vida cristã das crianças e dos adolescentes com as famílias (Secretariado Nacional da Educação Cristã, 2022).
  • Conferência Episcopal Portuguesa, Catequese: a alegria do encontro com Jesus Cristo, carta pastoral (2017).
  • Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, Diretório para a Catequese (2020).
  • Papa Francisco, Cristo Vive, exortação apostólica aos jovens (2019).

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.