Para uma verdadeira liberdade, também é preciso mobilidade - Ponto SJ

Para uma verdadeira liberdade, também é preciso mobilidade

A questão não é só como nos deslocamos mas que oportunidades garantimos à vida de cada um. Uma sociedade mais justa não obriga todos a viajar da mesma forma mas assegura que o meio de transporte não se transforma em barreira intransponível

Falamos frequentemente de liberdade como a capacidade de escolher: onde viver, trabalhar, estudar ou como ocupar o tempo. Mas até que ponto somos verdadeiramente livres quando nos faltam os meios para concretizar essas escolhas?

A pergunta não é abstrata; a mobilidade quotidiana torna-a muito concreta. Para quem dispõe de meios próprios ou reside numa zona bem servida de transportes, deslocar-se é uma rotina,  por vezes demorada e, cada vez mais, dispendiosa, mas raramente um impedimento. Para outros, a ausência de um transporte compatível com o horário de trabalho, a distância até à escola ou a dificuldade em chegar a um centro de saúde condicionam profundamente a vida.

A mobilidade é habitualmente discutida sob o prisma do congestionamento, das infraestruturas ou da descarbonização. São dimensões essenciais, mas incompletas. Antes de ser um problema técnico ou ambiental, a mobilidade é uma questão de acesso a oportunidades e, portanto, de justiça social.

Antes de ser um problema técnico ou ambiental, a mobilidade é uma questão de acesso a oportunidades e, portanto, de justiça social.

Esta é uma reflexão em que a Doutrina Social da Igreja nos oferece critérios decisivos.

Na encíclica Laudato si’ (n.º 153), o Papa Francisco alerta expressamente para as condições muitas vezes indignas dos transportes urbanos, integrando esta realidade na ecologia integral: a proteção do ambiente é indissociável da dignidade humana e do modo como organizamos as cidades. Não basta pedir às pessoas que usem menos o automóvel se não existirem alternativas viáveis. Uma transição ecológica só é sustentável se não deixar para trás quem mais depende dos serviços públicos.

Já na exortação apostólica Fratelli tutti, o Santo Padre reforça a urgência de uma sociedade onde todos possam participar. As escolhas individuais não acontecem no vazio. Um jovem pode ter o mérito e a vontade de estudar, mas não ter como chegar à universidade; alguém pode ter uma oferta de emprego, mas não dispor de transporte para o turno exigido. A oportunidade existe no papel, mas a sua concretização acaba por ficar bloqueada.

O bem comum não é uma mera soma dos interesses individuais nem exige que todos tenham soluções idênticas. Significa assegurar as condições que permitem a cada pessoa e comunidade desenvolver-se. Como nos recorda o Papa Leão XIV na encíclica Magnifica Humanitas (2026), o progresso não se mede apenas pelas capacidades tecnológicas que desenvolve, mas pela forma como serve a pessoa humana.

A mobilidade encarna esta responsabilidade partilhada. Requer a ação conjunta do Estado, autarquias, empresas e cidadãos, sob a luz de dois princípios complementares: a solidariedade, que nos impede de ser indiferentes às necessidades do outro, e a subsidiariedade, que prioriza a autonomia e a iniciativa local, garantindo a intervenção dos órgãos superiores sempre que a escala da resposta assim o exija.

As decisões sobre mobilidade não dizem respeito apenas à gestão de frotas ou à eficiência de custos; definem o modelo de sociedade que construímos todos os dias. Uma rede de transportes não serve apenas para uma movimentação física abstrata: serve para aproximar pessoas, criar emprego, viabilizar o estudo e sustentar laços comunitários.

Assumir a mobilidade como um bem comum exige, por isso, passar das intenções às decisões concretas. Exige desenhar redes que sirvam as periferias, integrar os territórios e colocar a eficiência operacional ao serviço da dignidade humana. Cabe-nos articular a responsabilidade do Estado aos vários níveis, a capacidade das autarquias e dos operadores e a iniciativa das próprias comunidades para erguer soluções que abram caminhos em vez de criar barreiras.

Em última análise, a questão não é apenas como nos deslocamos, mas que oportunidades queremos garantir à vida de cada um. Uma sociedade mais justa não obriga todos a viajar da mesma forma, mas assegura que o meio de transporte não se transforma numa barreira intransponível.

Afinal, de que serve uma liberdade teórica de ir mais longe sem a possibilidade real de lá chegar?

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.