6 de setembro de 2026. O partido de extrema-direita “Alternativa para Alemanha” (AfD) vence as eleições estaduais na Saxónia. 20 de setembro. O cenário repete-se, agora, em Mecklemburgo. “Como é isto possível, apenas 81 anos após a derrota do Nazismo?” É a pergunta que muitos se colocam. Mas será assim tão surpreendente esta vitória?
É claro que causa especial perplexidade – e até receio – saber que falamos de um Estado da Federação Alemã, país fortemente marcado pela cicatriz histórica do Nazismo. Aí estão os campos de concentração e extermínio como testemunho perene do terror. Queríamos acreditar que a simples lembrança desse capítulo ‘horribilis’ afastaria qualquer tentativa de repetir o passado. Poderá a memória ter-se desvanecido assim tão rápido?
A verdade é que esta vitória não tem nada de surpreendente. Como também já não surpreende a repetição do que pensávamos estar aprendido com a História (veja-se como o Estado de Israel, nascido na esteira do Holocausto, é hoje promotor de um genocídio na Palestina[1]). Na última década tem-se tornado cada vez mais claro para onde caminhamos coletivamente. Só os muitos distraídos (e quantas vezes não o somos todos, enquanto “Homo capitalisticus“, entre ecrãs e experiências que se sucedem) podem, agora, surpreender-se com a chegada ao poder da extrema-direita.
Em novembro de 2016, quase há dez anos, Donald Trump ganhou as eleições para a presidência dos EUA. Alguns meses antes, em junho de 2016, o Brexit havia saído vitorioso do referendo à continuidade do Reino Unido na União Europeia, numa campanha marcada por uma nova palavra: “desinformação”. De lá para cá, não têm faltado os exemplos da ascensão e confirmação no poder dessa mesma ultradireita: Bolsonaro no Brasil, em 2018; Netanyahu (na coligação governamental mais extremista de sempre) em Israel, em 2022; Milei na Argentina, em 2023; novamente Trump nos EUA, em 2024;… Pelo meio, o início da guerra na Ucrânia, em fevereiro de 2022.
Só os muitos distraídos (e quantas vezes não o somos todos, enquanto “Homo capitalisticus”, entre ecrãs e experiências que se sucedem) podem, agora, surpreender-se com a chegada ao poder da extrema-direita.
Olhando para o futuro imediato, também encontramos sinais no mesmo sentido: Le Pen e a União Nacional que se perfilam como vencedoras das presidenciais francesas, em 2027; Farrage e o Reform UK que são cada vez mais relevantes no Reino Unido; no Brasil, as eleições deste mês cuja primeira volta colocou o candidato da extrema-direita na dianteira;…
Em Portugal, não estamos imunes a este fenómeno: em 6 anos (entre 2019 e 2025), a extrema-direita multiplicou o seu número de deputados por 60 e disputou a segunda volta das presidenciais com Seguro, em 2026.
O que une todos estes episódios recentes funda-se no que de pior a Humanidade tem e, consequentemente, a cada dia que passa, o Homem é cada vez mais “o lobo do Homem”. Podemos encontrar cinco traços comuns em tudo o que vimos assistindo. Primeiro, a afirmação de um certo “vale-tudo” como novo normal, isto é, já não interessa se é ‘certo’ ou ‘errado’, ‘justo’ ou ‘injusto’, ‘verdade’ ou ‘mentira’, apenas importa que seja vitorioso, que sirva o interesse. Um utilitarismo amoral em esteroides despido de qualquer Ética. Segundo, a exploração (e mesmo exaltação) do que há de mais básico no ser humano: o medo, o egoísmo (egocentrismo), a mentira, a inveja, a brutalidade, a ignorância, o ódio, a vontade de possuir, … Terceiro, a potenciação de tudo isto pelos espaços mediáticos (a internet e as redes sociais, mas também os média “clássicos”). Quarto, a fraqueza das instituições. Quinto, a apatia – mais ou menos generalizada – daqueles que não se reveem neste movimento. A falta de sobressalto cívico da “maioria silenciosa” (que, também por isso, vai sendo cada vez menos maioria, como se viu nos EUA, se está a ver no Brasil e se perspetiva em França).
Ou seja, há uma inversão completa do que seria Bom. Por isso, tantos sentimos que “o mundo está de pernas para o ar”. É o poder, e não a justiça, que impera. A mentira, e não os factos, que se impõe. O ódio, e não o Amor, que parece vencer. E esta onda parece imparável…
Poderemos afirmar que “foi sempre assim”, “é a natureza humana”. Ou que o ser humano explorará sempre: os outros seres humanos, a natureza, até as circunstâncias, … Que estaremos sempre no domínio da luta entre o Bem e o Mal e teremos, ciclicamente, períodos mais luminosos e outros mais tenebrosos. É indiscutível. Afinal, é disto mesmo que nos falam as Sagradas Escrituras. O que é a vida de Jesus senão uma imagem poderosíssima deste combate, entre vales sombrios e o cimo da montanha, entre cruz e ressurreição?
Todavia, ficarmo-nos por aqui é muito pouco. Não só porque é conformista – fatalista até – e não permitirá compreender, aprender, agir,…, mas, sobretudo, porque enquanto cristãos somos chamados a, estando conscientes de que o mundo não é perfeito, atuarmos decisivamente nele e, nas palavras de S. Paulo, “travarmos o bom combate”. A cruz faz parte, mas a nossa fé radica na ressurreição. Não nos ficamos pelo calvário. E o calvário há de sempre escandalizar um cristão.
A cruz faz parte, mas a nossa fé radica na ressurreição. Não nos ficamos pelo calvário. E o calvário há de sempre escandalizar um cristão.
No rescaldo da Segunda Guerra Mundial e dos seus horrores, sob a sombra da ameaça nuclear e num mundo dividido em dois, foi-se construindo – não sem muitas imperfeições – um sistema de Direito Internacional, alicerçado nas Nações Unidas. A Declaração Universal dos Direitos do Homem, em 1948, constituiu, de forma simbólica, o horizonte comum: “todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos”.
Bem sabemos que nunca foi totalmente assim – alguma vez o será? – mas, pelo menos, a Humanidade apontava-se a isso. Na esteira da Revolução Francesa e dos Estados de Direito, da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão,…, da Doutrina Social da Igreja e da ‘Rerum Novarum’. A dignidade da pessoa humana era o centro. “Nunca mais” (“Never Again”) era o grito da Humanidade envergonhada com as atrocidades vividas e o lema de uma ética para o futuro.
Na Europa Ocidental, com maior ou menor velocidade, as democracias consolidavam-se após os fascismos e nascia a União Europeia (talvez o projeto que ainda mais se alinhe com esse horizonte comum, apesar de todas as suas incapacidades e contradições).
O colonialismo ia cedendo lugar a novas nações e o multilateralismo ia ganhando tração. O Direito da Guerra (Direito Internacional Humanitário) densificou-se na esteira da Carta das Nações Unidas.
A Humanidade foi enfrentando – quantas vezes titubeantemente – os seus desafios comuns: a fome, a saúde, a educação, os direitos civis,…, até mesmo as alterações climáticas. Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que sucederam aos Objetivos do Milénio, assim o ilustram.
Para isto foi determinante a afirmação do Estado Social, isto é, dum “modelo de organização política e económica em que o governo assume a responsabilidade de garantir serviços essenciais, direitos básicos e proteção a toda a população”. De facto, após as tensões que marcaram o século XIX e o início do século XX, fruto da Revolução Industrial e de um capitalismo desregrado – contexto em que se insere a emergência do Marxismo e, por exemplo, a ‘Rerum Novarum’ (a que já aludimos supra) – não restavam dúvidas de que o desenvolvimento só seria possível porquanto se compaginasse com o bem-estar comum.
Contrariando as crenças de supremacia racial (a raça ariana nazi, a supremacia branca, ou ultranacionalismo japonês), a luta pelos direitos civis nos EUA, liderada por Martin Luther King, salda-se num grande avanço civilizacional e, na África do Sul, Mandela inspira milhões pela forma como o apartheid se supera. A não violência, de que Ghandi é igualmente figura de proa, surge como caminho para o progresso da Humanidade. A força moral e a resistência pacífica eram ‘armas’ poderosas. Haverá algo mais cristão do que esta não violência?
Enfim, grosso modo, a Humanidade – ainda que com muitas matizes – parecia ter aprendido alguma coisa com a Segunda Guerra Mundial. Evidentemente, o mundo não era um oásis. Em grandes partes do globo, a liberdade era ainda uma batalha, bem como a igualdade e a fraternidade. Mas, no largo espetro, a Humanidade parecia rumar – pelo menos aspirar? – a um mundo mais justo e fraterno.
Ora, não podem restar dúvidas de que esse paradigma está a inverter-se.
Os nacionalismos ressurgem com força, desafiando e enfraquecendo o multilateralismo. O Direito Internacional Humanitário “jaz morto e arrefece”, como o comprovam múltiplos conflitos (Ucrânia, Palestina, Ormuz, Mar Sul da China,…). Os Direitos Humanos são flagrantemente violados, sem que isso constitua especial escândalo. A xenofobia e o discurso de ódio inflamam o espaço público, espalhando-se como um vírus. Onde está hoje a não violência?
Mas, como chegamos até aqui? Talvez a pergunta mais importante seja: porque votam as pessoas nestes movimentos?
Será, simplesmente, porque a maldade – que também faz parte da condição humana – decidiu vir ao de cima e toda gente perdeu a vergonha de ser ‘mauzinho’? Como se se tivesse aberto a caixa de pandora e, agora, fosse impossível voltar a fechá-la?
A verdade é que, para além de todas as justificações que possamos encontrar, não podemos deixar de expor esta dimensão ética. Ainda que existam razões para descontentamento e causas profundas e complexas para o que estamos a viver, será que quando alguém vota num partido que propõe realizar uma limpeza étnica (vulgo “remigração”), como acontece com a AfD, é possível dizer que essa pessoa faz uma coisa “boa”? A que luz poderá uma limpeza étnica ser boa?
Ainda que existam razões para descontentamento e causas profundas e complexas para o que estamos a viver, será que quando alguém vota num partido que propõe realizar uma limpeza étnica (vulgo “remigração”), como acontece com a AfD, é possível dizer que essa pessoa faz uma coisa boa?
Estamos, portanto, perante uma crise da Ética. Quando se perde a noção do bem e do mal, quando “vale tudo”, fica muito difícil identificar o errado e encontrar barreiras para o mal. E ele alastra. A tal ponto, que o mal passa a ser a bitola. É o mais brutal que surge como referencial. Não era já assim que os nazis pintavam o seu super-homem ariano?
A ilusão de que um voto ou a adesão a uma certa ideologia política pode ser neutra do ponto de vista ético, não passa disso mesmo: uma ilusão. Posso ser bom (pai, filho, esposo, etc.) e votar em quem pretende fazer o mal. É esta ilusão de neutralidade que retira a dimensão de responsabilização e, bem assim, de censura. Quando se pode fazer tudo, quando nunca há responsabilidade, nada é censurável. Sob a capa de democracia, pretende-se permitir tudo, porque estabelecer limites seria antidemocrático. Ora, não se pode confundir democracia com possibilidade de votar. Votar acontece até nas ditaduras. Aliás, os regimes antidemocráticos não prescindem das suas eleições. Portanto, não é simplesmente porque se pode votar que existe democracia. Esta pressupõe ética democrática e esta nunca se compagina com a mentira, a violência e o insulto.
Votar na extrema-direita não é, então, um ato democrático, porquanto a democracia não se esgota no processo democrático. Para ser verdadeira democracia, pressupõe uma Ética.
É necessário que quem vota no populismo xenófobo e promotor do ódio se sinta responsabilizado por isso. Compreenda que, à luz da ética democrática – e, acrescento, cristã – faz mal. Por outras palavras, é necessário que exista um juízo de censura sobre quem, pelo seu voto, legitima e alimenta aqueles que fragilizam a própria Democracia, os Direitos Humanos, o Direito Internacional e, então, a nossa convivência comum. É ainda mais assim quando somos cristãos.
É necessário que exista um juízo de censura sobre quem, pelo seu voto, legitima e alimenta aqueles que fragilizam a própria Democracia, os Direitos Humanos, o Direito Internacional e, então, a nossa convivência comum. É ainda mais assim quando somos cristãos.
Compreendo que facilmente pareça que faço a apologia da limitação da liberdade de pensamento, opinião e, mesmo, voto. Não é assim. O que se pretende colocar em evidência é que, perante a ausência de qualquer imperativo ético (que a situação atual parece ter gorado alcançar) é importante que, coletivamente, tenhamos a capacidade de voltar a firmar esses marcos éticos de forma que ninguém vote sem ter a consciência plena do que está a fazer, também no campo ético.
Será que se a comunidade tivesse exprimido um forte juízo de censura ética, os soldados das SS teriam continuado a sua ação? Não será que em muitos – já que não pela consciência individual – se acenderia o semáforo ético – ao menos pela consciência coletiva?
Porque se temos a liberdade de escolher em quem votar, também temos de ter a responsabilidade de assumir as consequências do nosso voto. Assim como se temos a liberdade de escolher como agir, também temos de ter a responsabilidade para assumir as consequências da nossa ação (ou omissão).
E isto leva-nos à crise da liberdade.
O neoliberalismo económico coloca a tónica fundamental na liberdade individual, acicatando fortemente o individualismo. O Estado e a Comunidade (isto é, também os outros indivíduos) aparecem como meros panos de fundo, utilitários, quando não como obstáculos. O capitalismo parece oferecer todas as soluções necessárias a uma vida feliz, reconduzindo-as a atos de consumo. O indivíduo é sobretudo livre para consumir e enriquecer. É este o objetivo: ficar sempre melhor, crescer infinitamente. Aí estão as alterações climáticas e o desafio da Inteligência Artificial desregulada para expor as fragilidades deste sistema.
Consumimos afeto, consumimos descanso, consumimos saúde,… Mas, acima de tudo, consumimos evasão. Aqui reside o novo paradoxo: tanta liberdade individual só se aguenta com muita fuga da realidade. Quando nos apercebemos que somos ratinhos numa roda, rodeados de muitos outros ratinhos em rodas, é difícil continuar. E para isso o capitalismo oferece os seus pronto-a-consumir. Seja uma viagem, um programa de entretenimento light, aquele objeto que finalmente me vai satisfazer, o scroll infindável nas redes sociais,…
O indivíduo é sobretudo livre para consumir e enriquecer. É este o objetivo: ficar sempre melhor, crescer infinitamente. Aí estão as alterações climáticas e o desafio da Inteligência Artificial desregulada para expor as fragilidades deste sistema.
Criou-se a ilusão de que todos poderão ser ricos. O que cria uma pressão para alcançar o sucesso, traduzido na capacidade de consumir. E a saúde mental ressente-se, claro.
Não são desejáveis limites à economia. A regulação impede o progresso (veja-se como a Inteligência Artificial cresce sem nenhum tipo de regulação pública, nos EUA). Voltamos a uma espécie de “laissez-faire”. O capitalismo é, hoje, mais desregulado do que há 50 anos.
Nos anos 80 do século passado, Reagan e Tatcher lançaram as âncoras do sistema económico neoliberal cujas consequências sofremos atualmente. A enorme concentração da riqueza, o aumento das desigualdades sociais e enfraquecimento do Estado Social derivam dessas alterações.[2] O mundo é mais “rico” do que nunca, mas, curiosamente, não parece estar mais feliz ou em paz.
E como se liga isto com o crescimento da extrema-direita?
Em primeiro lugar, o fechamento sobre si próprio. Quanto menos me sinto parte de um todo, menos me importo com as consequências dos meus atos sobre esse todo. O que importa é que eu viva bem, os meus estejam em segurança, o meu país funcione. O resto pouco me interessa. Porque devo pagar do dinheiro que eu conquistei com o meu trabalho para que outros vivam sem trabalhar? Quem já não ouviu esta pergunta?
Ou seja, se vivemos constantemente num sistema que nos ensina – e estimula – a ultrapassar o outro, como podemos querer gerar empatia e altruísmo? Como pode o bem-comum ser (um)a prioridade? Isto começa desde a juventude, quando somos ensinados a competir por notas na escola. E continua no mundo do trabalho, quando o mérito é medido por resultados e muito pouco por atitudes.
Existe um problema nos nossos sistemas de reconhecimento do mérito. O sucesso é demasiadas vezes medido apenas pelo resultado, não tendo em conta a forma como este se alcançou ou o contributo para a comunidade. É mais importante centrar-me em mim, estudar muito e ter 20 de média e entrar em medicina, do que fazer muito voluntariado. É mais relevante ter muito lucro, mesmo que se contornem as regras, do que ter menos lucro porque se foi mais justo. É curioso porque o próprio Trump (à imagem da sociedade americana) apresenta o conceito de “loser” (“perdedor”) como um insulto. Como se ganhar fosse o referencial absoluto do mérito.
É preciso – e urgente – que os nossos sistemas de reconhecimento do mérito valorizem o fazer o bem. Quem faz o bem tem de ser promovido, mais do que quem alcança resultados ainda que faça o errado. É curioso como o catolicismo já está nesta linha quando nos apresenta exemplos de santidade, tantas vezes em disrupção com a lógica do mundo.
Em segundo lugar, a frustração por não conseguir alcançar. A promessa do neoliberalismo não se veio a verificar por inteiro. O mundo está mais rico, sim, mas a riqueza não chegou a todos de forma igual. A igualdade está mais longe e os mecanismos redistributivos do passado (impostos) tendem a não conseguir cumprir a sua missão. Como taxar os super-ricos? Apesar da riqueza gerada, o trabalho precarizou-se e os serviços públicos não estão melhor. Logo, apesar de puderem consumir mais e terem melhores padrões materiais de vida, as pessoas não vivem vidas melhores/mais felizes porquanto veem a riqueza cada vez mais concentrada e o Estado a não conseguir desempenhar o seu papel. Constatamos a erosão do “chão comum”: o Estado Social.
O mundo em que vivemos teve o condão de nos atomizar e anestesiar, preenchendo-nos com atos de consumo, criando a expectativa de liberdade quase absoluta que dispensa grandes considerações morais, não deixando espaço ao sofrimento, com a expectativa de riqueza e sucesso.
Portanto, o mundo em que vivemos teve o condão de nos atomizar e anestesiar, preenchendo-nos com atos de consumo, criando a expectativa de liberdade quase absoluta que dispensa grandes considerações morais, não deixando espaço ao sofrimento, com a expectativa de riqueza e sucesso. Eu, primeiro, os outros, depois. A América primeiro, o resto do mundo a seguir. Estamos, no fim, mais sós, mais vazios, mais mesquinhos. Então, menos capazes de lidar com a frustração e o sofrimento (que sempre existirá, porque parte da experiência humana). Ao mesmo tempo, os Estados Sociais enfraqueceram e a desigualdade aumentou.
Ora, este quadro traduz-se na crise das democracias. Podemos olhar para esta crise por dois prismas. Por um lado, a crise do sistema democrático, por outro, a crise das instituições.
Comecemos pelo sistema democrático. A República de Weimar foi o berço do Nazismo. Porquê? Porque não lhe soube colocar freio. Essa é uma lição que a História nos ensina. Quando as democracias não se defendem, acabam. Este é o famoso “Paradoxo da Tolerância”, de Karl Popper: se uma sociedade for tolerante ao ponto de tolerar a intolerância, a sua capacidade de ser tolerante será eventualmente destruída. As forças de extrema-direita podem usar os mecanismos democráticos para alcançar o poder e, posteriormente, enfraquecer as próprias instituições que as elegeram. Não vimos já este filme?
Por conseguinte, uma das causas para o recrudescimento da extrema-direita é, sem dúvida, a incapacidade de as democracias lidarem com ela. Não porque até não existam mecanismos, mas simplesmente porque as instituições se demitem de os aplicar. Vejamos alguns exemplos: A) Nenhum partido pode existir legalmente em Portugal sem estar alinhado com a Constituição e ser aprovado pelo Tribunal Constitucional. Alguém tem dúvidas de que a extrema-direita viola a Constituição quando é racista, xenófoba, etc? Porque se permitiu esse partido? Agora, claro, é demasiado grande para ser extinto. B) Tal como num jogo de futebol, para jogar o jogo da democracia há que respeitar as regras. Se não aceito as regras, não posso jogar. Alguém acha que é lícito a um candidato ameaçar o adversário com a prisão? Porque não foi Donald Trump desqualificado?
A ilusão de que a Democracia se regula a ela própria – tal qual a mão invisível que regulava a economia em Adam Smith – tem impedido a sua defesa ativa. Dispensando intervenções difíceis – quiçá até impopulares – as instituições democráticas desvalorizam o problema ou esperam que ele se resolva sozinho, com as consequências que já conhecemos. Entre nós, a postura do Presidente da Assembleia da República ilustra o que acabamos de dizer.
Uma Democracia que não consegue impedir um cidadão que incitou à invasão da casa mesma da Democracia de se voltar a recandidatar e ser eleito é uma Democracia saudável? Eis a imagem plena do que vimos aduzindo. Como a Democracia não conseguiu parar o antidemocrata, ele chegou ao poder e exerce-o, agora, de forma mais absoluta – e absurda – do que nunca. Era inevitável? Não, se o sistema democrático tivesse funcionado e se tivesse protegido a si mesmo. Quão longe já estamos de Watergate…
Por outro lado, a materialidade democrática, as instituições que concretizam a Democracia quotidianamente no plano social, económico, cultural, têm-se erodido. Quando comprar ou arrendar uma casa é um luxo, alguém pode falar de Democracia plena?
Décadas de políticas neoliberais e de austeridade que desmantelaram os serviços públicos, transformando direitos fundamentais como a saúde, a educação e a habitação em bens precários e mercantilizados estão na raiz desta crise do Estado Social. Ao reduzir o investimento estatal e promover privatizações, quebrou-se o contrato social e gerou-se um profundo sentimento de abandono nas classes média e baixa. Este desamparo e a perda de dignidade quotidiana alimentam um forte ressentimento popular que, à falta de alternativas mobilizadoras, é capitalizado por movimentos populistas de extrema-direita, que desviam a culpa das falhas estruturais do sistema económico para minorias e imigrantes.
Tudo quanto vimos a dizer é exponenciado pelo mediatismo. Existe um certo fascínio do espaço mediático por estes movimentos e pelas figuras que os personificam. É incrível a omnipresença de Trump, por exemplo. No caso português, temos mesmo estudos académicos que confirmam esta tese.[3] Se a isto juntarmos o algoritmo, isto é, as redes sociais, chegamos à conclusão de que a promoção dos movimentos da extrema-direita é absolutamente avassaladora.[4]
Portanto, a sobre-exposição à narrativa e aos conteúdos da extrema-direita é um facto que não podemos ignorar quando analisamos o seu crescimento.
Assim, por ação ou omissão, os media e as redes sociais servem como catalisadores de um fogo que arde cada vez mais intensamente. Os media tradicionais porque parecem rendidos ao “entretenimento” proporcionado por estes movimentos. Ainda que com iniciativas louváveis, como o ‘fact-checking’, a continua importância atribuída ao que se origina destes movimentos – mesmo que seja para os debater – reforça-os grandemente, mais do que não seja porque o mesmo espaço não é atribuído aos demais. As redes sociais, mais perigosamente, porque sob o oculto do algoritmo, vão alimentando uma fome que também vão provocando.
Não restam, hoje, dúvidas que as eleições presidenciais dos EUA em 2016 foram fortemente impactadas pelo que se passou online, nomeadamente nas redes sociais, sendo até claro que estados terceiros (Rússia) influenciaram o resultado das eleições por esse meio.[5]
Este cenário tende a agravar-se com a inteligência artificial e o facto de cada vez mais decisões serem automatizadas. No futuro, poderemos entrar num espiral desinformativa em que a pós-verdade seja, simplesmente, a nova verdade. Isto é, em que já não seja possível estabelecer o que é ou não verdade.
Este cenário tende a agravar-se com a inteligência artificial e o facto de cada vez mais decisões serem automatizadas. No futuro, poderemos entrar num espiral desinformativa em que a pós-verdade seja, simplesmente, a nova verdade. Isto é, em que já não seja possível estabelecer o que é ou não verdade.
Podemos afirmar, então, que a combinação de uma crise ética, em que há uma inversão de valores, com as consequências do neoliberalismo que se impôs a partir dos anos 80, aliadas à crise da Democracia e do Estado Social, criam o contexto perfeito para a explosão da extrema-direita. Claramente, nem a lembrança da História recente será suficiente para travar esta marcha.
Porque continua a existir uma passividade tão grande que vai deixando campo aberto à ultradireita? Talvez uma das causas fundamentais para tudo isto seja a alienação promovida pelo capitalismo neoliberal. Como bem expõe o filósofo esloveno Slavoj Žižek na sua obra “Contra o Progresso”: “desde que o aquecimento global não afete as nossas férias de verão, tudo está bem.”
Todos os dias somos confrontados com informação que nos relata as consequências do crescimento da ultradireita. E talvez já estejamos cansados de tanta informação, de tanta exploração mediática. A verdade é que vemos bairros norte-americanos a serem alvo de raides à boa maneira das polícias dos estados totalitários. Vemos a miséria absoluta do povo Palestiniano em Gaza. Vemos um salve-se quem puder na União Europeia, quando um fluxo migratório é instrumentalizado. Vemos um Presidente a afirmar que vai anexar um território europeu. Vemos outro Presidente com uma motosserra prometendo acabar com o Estado Social. Vemos deputados a insultarem gratuitamente e a fazerem gestos obscenos no Parlamento. E a lista poderia continuar. Contudo, onde estão as manifestações que nos façam acreditar que “Não Passarão”? Não estão, ou estão-no muito insipidamente. Talvez as manifestações estudantis a que assistimos em França nos últimos dias sejam um sinal de esperança.
Vivemos na nossa bolha. Até solidários com as vítimas, mas demasiado anestesiados para agir. Amiúde não queremos saber. Talvez cause demasiado sofrimento e angústia confrontar o mundo tal como ele se está a tornar. E talvez por isso ele se vá tornando cada vez mais no que não queremos ver. É preciso agir sobre as várias crises que vivemos, simultaneamente. Porque só agindo sobre todas poderemos encontrar respostas integradas e complexas para problemas que são complexos. Respostas simplistas ou ilusórias apenas tornarão esta marcha cada vez mais imparável.
Concluindo, infelizmente nada há de surpreendente nas vitórias da AfD. Falta uma alternativa mobilizadora que, reconhecendo os problemas e enfrentando-os, apresente soluções baseadas no Amor de não no Ódio. Caminhos positivos, de construção e avanço, e não apenas caminhos negativos, de destruição e retrocesso. O que as pessoas sentem e vivem merece ser valorizado e correspondido. Essa tarefa não pode ficar nas mãos de quem apenas instrumentaliza o descontentamento.
[1] https://www.ohchr.org/en/press-releases/2026/09/gaza-un-expert-warns-israeli-rubble-clearing-could-erase-traces-atrocity
[2] Global Economic Inequality – https://wir2026.wid.world/insight/global-economic-inequity/
[3] https://rr.pt/fotoreportagem/politica/2026/05/22/media-fizeram-crescer-o-chega-no-inicio-foi-ingenuidade-agora-e-cumplicidade/471425/
[4] Amplified Hatreds: Far-right Extremism and the Algorithmic Infrastructure of Social Media –
https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=6350058
[5] Russian interference in the 2016 United States elections – https://www.ebsco.com/research-starters/diplomacy-and-international-relations/russian-interference-2016-united-states
Referências
² Global Economic Inequality – https://wir2026.wid.world/insight/global-economic-inequity/
⁴ Amplified Hatreds: Far-right Extremism and the Algorithmic Infrastructure of Social Media – https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=6350058
⁵ Russian interference in the 2016 United States elections – https://www.ebsco.com/research-starters/diplomacy-and-international-relations/russian-interference-2016-united-states
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
