1. Preâmbulo
A diversidade, se, por um lado, fascina e corresponde mesmo a um profundo desejo do ser humano: gostamos de conhecer, de experimentar coisas novas, de abrir horizontes, etc.; por outro lado, levanta grandes desafios e obriga a desinstalar: traz o desconhecido, o novo, e pode mesmo gerar alguns medos/receios. Reconheço que a diversidade pode ser, ao mesmo tempo, uma oportunidade e uma “ameaça”.
Creio mesmo que corresponde a uma grande luta espiritual: olhar o mundo e a vida com abertura, surpresa e espanto, ou garantir o controlo, a comodidade, o conforto e a segurança. Não crescemos sem este dilema. Por um lado, protegemos a prole, por outro, queremos que a prole saia, conheça e arrisque. A humanidade não cresce sem esta “luta”.
Gostava de trazer esta metáfora para o grande desafio que é o encontro das culturas e em particular ao nosso Portugal, num tempo de grande incremento migratório.
2. Desafios
Em Portugal e na Europa, temos assistido a um crescente discurso de rejeição a culturas e religiões diferentes, num tempo em que se têm registado grandes fluxos migratórios. Pessoas de quem a Europa e Portugal precisam e que, ao mesmo tempo, precisam de ser acolhidas e integradas. Pessoas que nos desafiam, a abrirmo-nos à novidade e ao diferente, ou a fecharmo-nos a essa novidade.
Reconheço que a rejeição não tem que corresponder a uma simplista não aceitação do estrangeiro. Em muitos casos a rejeição pode estar ligada a um medo de perca de identidade, da “portugalidade”, de um modo de viver, de uma cultura, de uma religião, e até de receios em relação ao futuro. Tudo isto merece a nossa atenção e respeito.
No caso português, penso que os números nos poderão ajudar a perceber melhor este fenómeno, e a rejeição que se vai sentindo.
A integração dos migrantes é um tema complexo que envolve diversas áreas como: politicas públicas, emprego, habitação, apoio psicológico, aprendizagem da língua do país de acolhimento, educação, saúde, cultura e religião.
3. Os números dos migrantes
Segundo o último relatório da AIMA, até ao final do de 2024, em Portugal estavam registados 1 milhão 550 mil migrantes, com as seguintes procedências de origem: Brasil (484 596 mil), India (98 616 mil), Angola (92 348 mil), Ucrânia (79 232), Cabo-Verde (65 507), Nepal (58 860 mil), Bangladesh (55 199 mil), Reino Unido (48 238), Paquistão (41 508), São Tomé e Príncipe (40 112) e Itália (40 021).
Como vemos, pelos números e pela proveniência, é significativa a diversidade cultural e religiosa que estas populações trazem. Embora a maioria dos migrantes provenha de países de língua portuguesa e com uma matriz cristã, é significativo também o número de pessoas que proveem de culturas mais “distantes”; seja pela língua falada, por hábitos culturais ou pela religião.
4. Apelo à integração
Esta diversidade religiosa e cultural, sem precedentes, merece a nossa atenção e cuidado de forma a promovermos a sua integração. A integração dos migrantes é um tema complexo que envolve diversas áreas como: politicas públicas, emprego, habitação, apoio psicológico, aprendizagem da língua do país de acolhimento, educação, saúde, cultura e religião.
Segundo Costa (2015) “a integração designa as políticas e as medidas que visam fomentar as coesão social através da aproximação das condições de vida de todos os residentes, ao mesmo tempo que procura promover a sua identificação com a comunidade política, nomeadamente através da geração e do fortelecimento de laços de união e da partilha de valores e de prática entre todos (p.56). E na definição de integração no seio da União Europeia, esta é referida como um processo de duplo sentido, baseada em direitos recíprocos e as correspondentes obrigações dos nacionais de terceiros países, com residência legal, e a sociedade de acolhimento (COM 2003).
5. Da ameaça à oportunidade
A proximidade é, a meu ver, o grande caminho para uma boa e real integração.
Um doutor da lei pergunta a Jesus: “Que que devo fazer para alcançar a vida eterna?” Jesus pede-lhe que olhe para a lei de Deus: o amor a Deus e o amor ao próximo como a ti mesmo. Reconhecendo esta verdade o doutor da lei pergunta pelo próximo – “E quem é o meu próximo?”. Então Jesus conta uma parábola levando o doutor da lei a reconhecer que o próximo é aquele que vendo o homem ferido e caído na berma do caminho, aproxima-se e cuida dele. E diz-lhe vai e faz o mesmo. (Lc 10, 25-37)
Talvez esta parábola possa iluminar o nosso olhar sobre o estrangeiro, com o seu desejo de fazer caminho e as suas feridas. A berma do caminho são as nossas ruas e locais onde estas pessoas trabalham e vivem.
Para além dos aspetos, anteriormente referidos, fundamentais e uma base essencial para a integração dos migrantes num novo país, há toda uma outra dimensão, por vezes impercetível, não tão visível, e aparentemente não tão necessitada de uma resposta imediata, mas que é essencial para a integração, sobretudo a médio e longo prazo – a promoção de uma “cultura do encontro”, como é referido na Fratelli Tutti.
A cultura do encontro requer proximidade. Pede diálogo, intercultural e inter-religioso. Pede encontro na diversidade. Talvez este seja o maior desafio nas nossas sociedades nos próximos tempos. Quando o outro se torna próximo, torna-se importante, significa, não é um desconhecido, não é alguém de quem se tem medo e se rejeita. Ao mesmo tempo esta proximidade promove e eleva o outro. O outro é alguém com quem podemos aprender, a quem podemos ensinar e com quem podemos e devemos fazer caminho. E assim a diversidade pode transformar-se numa oportunidade.
Referência bibliográfica
COM 336 (2003). Opinion of the European Economic and Social Committee on the ‘Communication from the Commission to the Council, the European Parliament, the European Economic and Social Committee and the Committee of the Regions on immigration, integration and employment’. Official Jornal of the European Union (30.3.2004).
Costa, P.M. (2015). O interculturalismo político e a integração dos imigrantes: o caso português. Politica&sociedade, 14(30).
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
