Na sua primeira visita apostólica[1] o Papa Leão XIV foi interpelado por um jornalista que pediu se lhe podia indicar um livro, para além dos livros de Santo Agostinho, que o pudesse ajudar a conhecer melhor as preferências de escritos espirituais de Robert Prevost. A resposta a esta questão surpreendeu, de algum modo, o jornalista: o Papa indicou os escritos espirituais do Irmão Lourenço, como o livro de espiritualidade com especial importância na sua vida. [2] Trata-se do livro A prática da presença de Deus de Frei Lourenço da Ressurreição. [3]
Ao longo de várias fases e momentos da sua vida este livro terá sido uma fonte de suporte e orientação na vida de Robert Prevost. Durante os anos[4] em que viveu no Peru, Prevost foi confrontado com a ameaça de possíveis ações terroristas do Sendero Luminoso. Nesse contexto, os escritos do Irmão Lourenço tê-lo-ão ajudado a levar por diante missões perigosas, suportadas e fortalecidas pela confiança em Deus. Também no Conclave, quando Prevost percebeu que poderia vir a ser eleito, estes escritos ajudaram-no a render-se totalmente e a colocar-se nas mãos de Deus, deixando-se conduzir por Ele. Como ele próprio afirma: “este pequeno livro descreve um tipo de oração e espiritualidade em que se entrega a vida ao Senhor e se deixa que seja Ele a conduzir.”[5]
“Foi então que eu me encontrei inesperadamente mudado. E a minha alma, que até então permanecia sempre perturbada, sentiu-se numa profunda paz interior.”
Quem era Frei Lourenço da Ressurreição? Batizado com o nome de Nicolas Herman (1614-1691) nasceu em Lorena, região muito disputada entre a França e a Alemanha, em contínuas guerras desde o séc. XVII até ao séc. XX. Aos 18 anos, recebe uma graça singular na sua conversão: “Um dia de inverno, olhando uma árvore despida e considerando que algum tempo depois as folhas voltariam, juntamente com as flores e os frutos, recebeu uma vista de cima da providência e da potência de Deus, que nunca mais se apagou da sua alma. Esta vista desapegou-o totalmente do mundo e comunicou-lhe um tal amor por Deus que não se pode dizer se teria aumentado, passados mais de quarenta anos”.[6]
Nesta mesma altura, e ainda com 18 anos, Nicolas alistou-se na Guerra dos Trinta Anos, tristemente célebre pelas suas crueldades desumanas. Aos 21 anos, um ferimento força-o a abandonar a vida militar. Mais tarde, Nicolas há-de lamentar o seu passado, deixando adivinhar as atrocidades das quais teria sido cúmplice na guerra, bem como que a graça recebida se teria esbatido.
Entretanto volta a sentir a graça recebida. Faz várias tentativas para acertar com a sua vocação. Estas sucessivas experiências redundam em fracasso, acabando também por deixar de sentir a graça recebida. Até que, por fim, com 26 anos, entra num convento de carmelitas descalços, como irmão leigo, e toma o nome de Irmão Lourenço da Ressurreição: “Lourenço” era o padroeiro da sua terra natal e “Ressurreição” recordava-lhe possivelmente a graça atrás referida. Inicialmente, no convento serve como cozinheiro (cozinheiro chefe de uma comunidade com mais de cem membros) e posteriormente, com as forças já mais diminuídas, como sapateiro.
Nos primeiros dez anos vive bastante atormentado pelo pecado passado. Até que se decide fazer um ato de abandono, dispondo-se a tudo suportar se isso fosse do agrado de Deus: “não importa o que eu faça ou o que eu sofra, contando que permaneça amorosamente unido à Sua vontade, residindo aí toda a minha ocupação.”[7] Diz ainda: “Foi então que eu me encontrei inesperadamente mudado. E a minha alma, que até então permanecia sempre perturbada, sentiu-se numa profunda paz interior.”[8]
Todas as espiritualidades convergem para a vida em Cristo e para a graça do Espírito.
É verdade que na Igreja cada espiritualidade tem as suas características próprias. A espiritualidade da Companhia de Jesus “não é uma mística nupcial da esposa abismada no Esposo (Escola Carmelita) mas uma mística do serviço de quem trabalha nas coisas do seu Senhor (Escola Inaciana) ”[9]. Simultaneamente, diferentes espiritualidades podem ter pontos em comum. De qualquer modo, todas elas convergem para a vida em Cristo e para a graça do Espírito.
No contexto da contrarreforma, Teresa de Jesus e João da Cruz dão origem à Ordem dos Carmelitas Descalços. Já na última etapa da sua vida, Teresa de Jesus faz uma afirmação desconcertante: “entendi que, até mesmo na cozinha, entre as caçarolas, anda o Senhor a ajudar-nos interior e exteriormente”.[10] Para alguém conhecedor da espiritualidade inaciana esta afirmação soa de forma familiar.
Teresa de Jesus define a oração pessoal como “tratar de amizade com quem sabemos que nos ama”.[11] Para Inácio de Loiola cada hora de oração tem como culminar o colóquio que “se faz falando, assim como um amigo fala com outro, ou um servo com o seu senhor” (EE 55).[12] De forma análoga, Frei Lourenço recomenda que se cultive esta conversa familiar com o Senhor, inclusive ao longo das tarefas do dia.[13]
De modo análogo a S. Inácio de Loiola, Frei Lourenço cultiva o sentido de presença de Deus na sua vida.
Em diferentes exercícios, quer no início quer no final da oração, Inácio diz ao exercitante para se colocar na presença de Deus (EE 98. 151. 232). No final da sua vida, Inácio diz que “ia sempre crescendo na facilidade de encontrar a Deus e agora, mais que em toda a sua vida. E sempre e a qualquer hora que queria encontrar a Deus, encontrava-o”.[14] De modo análogo, Frei Lourenço cultiva o sentido de presença de Deus na sua vida. É uma presença que por um lado é interior e por outro se manifesta nos acontecimentos da vida. De modo semelhante, S. Paulo diz que “em Deus vivemos, nos movemos e existimos” (At 17, 28) ou, então, “já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20).
Vimos que Frei Lourenço percorre todo um caminho espiritual, que pressupôs uma longa prova ou combate espiritual ao longo de dez anos, culminando finalmente numa oração de grande simplicidade, caracterizada por uma experiência contínua da presença de Deus. Ora a experiência original dos Exercícios Espirituais[15] conclui com os “três modos de orar”,[16] que têm paralelos em Frei Lourenço.[17]
Hoje em dia, em âmbito católico, há várias abordagens que tendem a hipervalorizar uma vertente técnica da oração para chegar à contemplação, experiência de Deus que reza e ama em cada um. A própria Teresa de Jesus incorreu nesta tentação. Diz ela que a determinada altura passou a considerar a Humanidade de Cristo como um impedimento à oração. Contudo, “não tardou em convencer-se que semelhante opinião não era bom caminho, já que a sua alma se sentia muito mal. Parecia-lhe que ia sem caminho e que andava no ar sem apoio. Isto fê-la regressar à Humanidade de Cristo”.[18] Haveria antes que se descentrar em favor da gratuidade de um Deus Amor que liberta e plenifica a existência humana.
O Papa Francisco utilizava o termo “rapidación”[19] para caracterizar o ritmo acelerado de vida no nosso tempo. Neste contexto, as pessoas tendem a desviar a procura da quietude, da serenidade e paz interior recorrendo a uma série de técnicas, hobbies e formas de lazer por forma a encontrar e preservar o equilíbrio. A espiritualidade inaciana, em diálogo com outros interlocutores dentro e fora da Igreja, abre horizontes de encontro e possibilita uma resposta consistente e profunda aos anseios do ser humano na sua busca de sentido, harmonia existencial e espiritual.
[1] Trata-se da visita à Turquia e ao Líbano, de 27 de Novembro a 2 de Dezembro de 2025.
[2] “Pope: ‘I was thinking of retiring, but instead I surrendered to God’”, in Vatican News, 02 December 2025; “Pope Leo: Br. Lawrence teaches us joy of living each day in God’s presence”, in Vatican News, 19 December 2025. O Prefácio de Leão XIV à reedição dos escritos de Frei Lourenço data de 11 de Dezembro de 2025.
[3] Passado alguns dias, o livro era reeditado com um prefácio do próprio Papa Leão XIV!
[4] A missão de Prevost no Peru vai de 1985-1986 e, posteriormente, já como administrador apostólico e bispo, de 2014-2023.
[5] Cfr. página oficial “Le Carmel en France”; Frère Laurent de la Résurrection, Écrits et entretiens sur la pratique de la présence de Dieu, Ed. Cerf, Paris 2026; Frei Lourenço da Ressurreição, A prática da presença de Deus, Ed. Paulinas, Lisboa – Prior Velho 2026.
[6] Frère Laurent de la Résurrection, Écrits et entretiens sur la pratique de la présence de Dieu, Ed. Cerf, Paris, 2026, p. 181.
[7] Idem. p. 69.
[8] Idem. pp. 133-134
[9] Esta transcrição de J. de Guibert vem citada no Artigo “Ignacio de Loyola”, de Ignacio Cacho SJ, in Diccionario de Espiritualidad Ignaciana, Ed. Mensajero – Sal Terrae, 2007.
[10] Santa Teresa de Jesus, Obras Completas, Edições Carmelo, “Livro das Fundações”, capítulo 5, §8.
[11] Tomás Álvarez, Comentarios al “Camino de Perfección” de Santa Teresa de Jesus, Ed. Monte Carmelo, Burgos 2011, pp. 140, 144-145.
[12] Santo Inácio de Loiola, Exercícios Espirituais, Ed. Apostolado da Oração, Braga 2016. Sempre que citar este texto recorro à sigla EE seguido do número em que está dividido o texto.
[13] Cfr. O diálogo de Catarina de Sena; e o Livro do Exodo 33, 11: “Moisés falava com Deus como um homem com o seu amigo”.
[14] Santo Inácio de Loiola, Autobiografia, Ed. Apostolado da Oração, Braga 2015, nº 99.
[15] Os Exercícios Espirituais estendem-se ao longo de cerca de 30 dias (EE 4) e procuram levar-nos a tomar consciência da misericórdia de Deus a respeito da nossa condição pecadora (primeira de quatro etapas) e por outro levar-nos a contemplar o Senhor ao longo da sua vida oculta e pública, até ao Domingo de ramos (segunda etapa), na paixão (terceira etapa) e nas aparições do ressuscitado (quarta etapa).
[16] Segundo J. A. Polanco (secretário fiel de Inácio de Loiola, à frente da Companhia de Jesus recém-fundada), quando Inácio orientava Exercícios Espirituais, distribuía o tempo na quarta e última etapa do seguinte modo: para a contemplação dos mistérios da ressurreição e ascensão com o Pentecostes, dois a três dias; para a “contemplação para alcançar amor”, um dia; e para o exercício dos “três modos de orar”, alguns dias (cfr. Josep M. Rambla Blanch SJ, Una manera de estar en el mundo, Relectura de los Ejercicios Espirituales de san Ignacio de Loyola, Ediciones Mensajero, Bilbao 2020, p. 294).
[17] Significativo que Louis Lallemant SJ (1578-1635), instrutor de terceira provação dos jesuítas mártires no Canadá, se refira aos seguintes sucessivos “graus da vida espiritual: meditação, oração afetiva, oração de silêncio e de presença de Deus e, finalmente, contemplação” (cfr. Louis Lallemant SJ, Doctrina espiritual, Ed. Mensajero – Sal Terrae, 2017.
[18] Salvador Ros García, A experiência de Deus a meio da vida, Edições Carmelo, Marco de Canaveses 2024, p. 204.
[19] Papa Francisco, encíclica Laudato Sí, nº 15.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
