A pressa e o empobrecimento interior - Ponto SJ

A pressa e o empobrecimento interior

Vivemos rodeados de estímulos, urgências e solicitações constantes, mas o maior desgaste do nosso tempo talvez não seja apenas físico ou mental: é a dificuldade crescente de habitar a vida com presença, silêncio e interioridade.

Há um tipo de cansaço que já quase toda a gente conhece e que, ainda assim, continua a ser difícil de explicar. Não é apenas o cansaço normal de quem trabalhou muito, dormiu pouco ou teve uma semana particularmente exigente. É outra coisa, mais funda e mais difusa, uma espécie de desgaste interior que se vai acumulando em silêncio, até ao momento em que começamos a perceber que o problema não é só precisar de descansar, mas já não sabermos muito bem como voltar a estar presentes na nossa própria vida.

Vivemos num tempo em que quase tudo nos empurra para fora de nós: o ritmo dos dias, a pressão para responder depressa, a fragmentação constante da atenção, a sensação de que há sempre qualquer coisa em falta, qualquer coisa por ler, por ver, por resolver, por acompanhar e o mais curioso é que grande parte desta exaustão não nasce apenas do excesso de trabalho, embora também venha daí; nasce, sobretudo, desta incapacidade crescente de habitar com inteireza aquilo que fazemos, aquilo que sentimos e até aquilo que pensamos. Vamos estando em todo o lado e, ao mesmo tempo, cada vez menos inteiros onde realmente estamos.

Cumprimos, respondemos, organizamos, produzimos e seguimos em frente, com frequência num registo quase automático.

Talvez por isso tantas pessoas descrevam hoje uma forma de mal-estar que não é exatamente tristeza, nem exatamente ansiedade, nem sequer apenas fadiga. É uma sensação de dispersão permanente, como se a vida estivesse sempre a acontecer um pouco depressa demais para poder ser verdadeiramente acolhida. Cumprimos, respondemos, organizamos, produzimos e seguimos em frente, mas com frequência fazemos tudo isso num registo quase automático, sem tempo para perceber o que nos está a acontecer por dentro. Quando essa distância entre o que vivemos e a maneira como o vivemos se prolonga, instala-se um desencontro difícil de nomear: continuamos a funcionar, mas já não estamos propriamente em casa dentro de nós.

Talvez seja por isso que o nosso cansaço contemporâneo não seja apenas físico nem mental, mas também espiritual, mesmo para quem não usa esta linguagem ou não se reconhece numa prática de fé. Porque há uma fadiga muito própria de quem perdeu espaço interior, de quem vive tão ocupado a gerir o imediato, a responder ao urgente e a acompanhar o ruído, que já mal consegue parar o suficiente para escutar o que sente, o que deseja, o que teme, o que lhe falta. Sem esse espaço interior vai-se perdendo também a possibilidade de discernir, que é sempre mais do que escolher entre opções: é perceber o que, no meio de tantas solicitações, merece realmente o nosso tempo e a nossa vida.

Quem vive sempre em aceleração acaba muitas vezes por perder não só a paz, mas a espessura.

O problema é que nos habituámos a confundir ocupação com importância, rapidez com competência e resistência com maturidade. Há quase um prestígio social no facto de andarmos permanentemente cheios, permanentemente solicitados, permanentemente sem tempo, como se o valor de uma vida se medisse pela densidade da agenda e como se parar fosse sinal de fraqueza, de ineficiência ou até de irresponsabilidade. No entanto, quem vive sempre em aceleração acaba muitas vezes por perder não só a paz, mas a espessura. Quando tudo é urgente, quase nada pode amadurecer verdadeiramente: nem uma decisão, nem uma relação, nem uma dor, nem uma esperança.

É por isso que a questão não se resolve apenas com técnicas de gestão de tempo, com retiros improvisados ao fim de semana ou com um discurso mais sofisticado sobre bem-estar. Tudo isso pode ajudar, claro, mas há qualquer coisa mais funda em causa, e o que está em causa é a nossa relação com o tempo, com o silêncio, com o vazio, com o limite e com aquela dimensão da vida onde ninguém produz nada visível, mas onde tantas vezes se decide o essencial. Porque uma pessoa que nunca pára verdadeiramente, que nunca aceita a lentidão e que nunca consente momentos de recolhimento e de escuta arrisca-se a viver numa espécie de superficialidade funcional: faz muita coisa, mas nem sempre sabe bem a partir de onde vive, nem para onde se está a dirigir.

Uma existência totalmente ocupada pela funcionalidade acaba por se tornar mais pobre, mais vulnerável à ansiedade, mais exposta à dispersão e, por isso mesmo, menos livre.

A tradição cristã, como tantas outras sabedorias espirituais, sempre intuiu isto com clareza. A importância do silêncio, da oração, do recolhimento, do descanso e da interrupção do ciclo contínuo da utilidade não aparece como fuga ao real, mas precisamente como condição para regressar a ele com mais verdade. Não se trata de fazer da pausa uma idolatria, nem de romantizar uma vida lenta que muitas pessoas simplesmente não podem ter. Trata-se, isso sim, de reconhecer que uma existência totalmente ocupada pela funcionalidade acaba por se tornar mais pobre, mais vulnerável à ansiedade, mais exposta à dispersão e, por isso mesmo, menos livre.

Talvez uma das pobrezas mais sérias do nosso tempo não seja apenas material, embora essa exista e pese brutalmente sobre a vida de tantos, mas a pobreza de atenção, de interioridade e de presença. Falta-nos, tantas vezes, a capacidade de estar inteiros num só lugar, de escutar alguém sem ir ao telemóvel, de atravessar um momento de silêncio sem a necessidade imediata de o preencher, de caminhar sem estímulo, de rezar sem pressa, de ler devagar, de pensar até ao fim um pensamento e esta incapacidade, que à primeira vista pode parecer pequena ou até banal, vai moldando por dentro a maneira como nos relacionamos connosco, com os outros e com Deus.

Talvez não estejamos apenas cansados, mas desencontrados, afastados daquele lugar interior onde a vida pode voltar a fazer sentido e onde as coisas retomam a sua justa medida.

Talvez seja por isso que parar, hoje, não é uma questão acessória nem um luxo reservado a quem tem tempo. Parar é, em muitos casos, uma forma de resistência interior, não para fugir ao mundo, mas para não sermos completamente absorvidos por ele, não para abandonar responsabilidades, mas para que elas não nos colonizem por dentro, não para viver menos, mas para voltar a viver com presença, com liberdade e com algum sentido de unidade.

Isto pode começar de forma muito simples, quase impercetível, e talvez seja importante dizê-lo assim para não transformar tudo isto num ideal bonito, mas impraticável. Pode começar por desligar um ecrã mais cedo, por resistir à tentação de preencher todos os vazios, por recuperar o hábito de uma breve oração no meio do dia, por fazer uma caminhada sem auscultadores, por visitar alguém sem consultar constantemente as horas, por não responder imediatamente a tudo, por aceitar que nem toda a solicitação é um dever e que nem toda a disponibilidade é sinónimo de amor. Pequenos gestos, afinal, mas que reabrem espaço interior.

No fundo, talvez não estejamos apenas cansados, mas desencontrados de nós próprios, afastados daquele lugar interior onde a vida pode voltar a fazer sentido e onde as coisas retomam a sua justa medida. Enquanto não levarmos isso a sério, corremos o risco de continuar a tratar superficialmente um mal-estar que é mais fundo. Não nos falta apenas descanso, embora ele seja necessário. Falta-nos, talvez, reaprender a habitar a vida antes que ela passe por nós demasiado depressa e sem nos encontrar verdadeiramente presentes nela.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.