Ter dois “bater de coração” num coração é viver em arritmia. Só um bater de coração é bom: o de Cristo. E é nesse que fomos criados. É nesse que somos santos. Temos de parar de fugir de Deus.
Quando foi a última vez que deixámos Deus tocar onde realmente dói? Quando demos licença ao nosso Deus para habitar aquele lugar interior que sabemos não caber dentro duma oração bonita? Precisamos de regressar ao Coração. Não por nostalgia, mas por necessidade.
O Coração de Jesus não está interessado na versão ‘filtrada’ de cada um de nós, cem vezes editada. O Coração de Jesus deseja encontrar-se com a versão crua, frágil, desnuda, vulnerável, de cada um de nós. Aquela que até nós evitamos.
Porque é que o nosso Deus ferido não pode entrar no nosso coração ferido?
Um dos maiores obstáculos à nossa conversão não é a distração, mas o desejo de controlar o encontro com o Senhor. Rapidamente fugimos quando Ele ameaça entrar onde nós não queremos ir sozinhos. E, por vergonha, ainda menos com Ele.
Precisamos de reaprender a habitar o coração, esse lugar interior onde deixamos cair as máscaras e de ‘atuar’ para a multidão. Aquele lugar onde deixamos de ser avatares de nós mesmos.
Porque é que o nosso Deus ferido não pode entrar no nosso coração ferido? Donde vem esta falta de confiança? Vem de algo maior que o receio de ferir a imagem que temos de nós mesmos: brota do medo de que o nosso Deus nos peça aquilo que não queremos dar.
O Coração de Jesus não nos vai deixar ficar onde estamos: Ele vai-nos pedir seguimento. Vai dizer “Vem comigo, vive comigo, ao meu estilo”. E isso implicará perdoar, mesmo quando temos razão; confiar, mesmo quando tudo ameaça colapsar; entregar, quando desejamos controlar; amar, principalmente quando só nos apetecer fugir.
É fácil rezar com Ele. Basta parar, colocar a mão no peito e dizer-Lhe aquilo que temos evitado dizer em voz alta. Uma só coisa. Aquela coisa, a mais difícil.
O nosso Deus, ainda que console, é acima de tudo um provocador. Daí Santo Inácio procurar homens para a Companhia de Jesus inteiramente livres para a maior glória de Deus, para a sua santíssima vontade. Homens que se deixem trabalhar por Ele, que acolham este Deus-trolha no seu coração, um Deus que derruba cada um dos muros que teimosamente erigimos com a misericórdia que habita as feridas das Suas mãos.
No Coração trespassado de Cristo vemos um Deus que não se protege do sofrimento humano, mas que o atravessa connosco. Um Deus que não se impõe, mas se oferece. Um Deus que continua a dizer, no silêncio, “bem-vindo a casa”.
O coração de Jesus pede-nos que habitemos o mundo. Que, com Ele e Nele, reencontremos o centro. E é fácil rezar com Ele. Basta parar, colocar a mão no peito e dizer-Lhe aquilo que temos evitado dizer em voz alta. Uma só coisa. Aquela coisa, a mais difícil. E ficar em silêncio, aguardando que o Seu coração se encoste ao nosso. Sem explicações, nem justificações. Permanecer aí, sem fugir. E deixar-se fazer por Deus.
Antes do fazer, deixar-nos fazer.
A oração é feita de pequenos regressos ao coração. E, em cada regresso, cair na conta de que cada vez que procuramos o Seu coração, Ele cura o nosso. Discretamente, pequenos milagres ocorrerão: a dureza é aplainada; o gelo é quebrado e torna-se neve; a ferida respira; a pressa perde prioridade; o amor ganha densidade.
Queremos arrumar o coração para que Cristo chegue, mas do que precisamos é de ir até Ele com o nosso coração nas mãos. E aí encontrar morada. No coração Dele há sempre espaço. Espaço para o cansaço. Para a dúvida. Para a gratidão. Para aquilo que ainda não sabemos dizer.
Antes do fazer, deixar-nos fazer. Antes do gesto grandioso de bondade, deixar-nos amar. É assim que nasce o apóstolo. É assim que vivem os discípulos. É assim que os amados de Deus dão vida.
O Coração de Jesus não é adorno kitsch, nem piedade oca. É disrupção. Se o deixarmos aproximar-se de nós, Ele mudará os nossos ritmos, derrubará as nossas defesas e entrará, como graça, nas feridas que fingimos não ter.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
