Nos últimos tempos, é possível reconhecer uma procura grande por aquilo que foge à normalidade dos dias, em busca do que surpreende e espanta. À nossa volta, damo-nos conta de que se partilha preferencialmente o que acontece de novo, intenso ou diferente. Podemos ficar com a ideia de que uma vida bem vivida (ou, como se vai dizendo, vivida de forma plena) precisa de ter sempre momentos fortes e experiências memoráveis; podemos ficar com a ideia de que um dia comum é insuficiente e, quando os dias são demasiado parecidos, pode surgir em nós a sensação de que falta alguma coisa.
Mas será mesmo assim? Será que estes gestos pequenos, ordinários e repetidos (tantas vezes, lentamente) são assim tão pouco relevantes? Ou será que levam em si o essencial com uma beleza que apenas não nos chega de forma grandiosa? Não o trago apenas como provocação, mas porque me tenho detido diante da rotina e da sua importância.
Na fase final do ano letivo, temos o desafio de orientar os alunos a aproveitar da melhor forma as poucas semanas que faltam para o fim do ano. Enquanto professores, somos cada vez mais conscientes do percurso e do crescimento que fizeram e investimos em ajudar a que os alunos também o sejam. Quando olho para os meus alunos e faço memória de como chegaram no arranque do ano letivo e do caminho que fizeram desde aí, fica particularmente claro que a sua evolução se deve muito à rotina e não a acontecimentos pontuais. Deve-se à rotina porque resulta de um processo lento, feitos de gestos repetidos – de tentativas que não resultaram à primeira, de dificuldades que exigiram voltar atrás e começar de novo e do treino mesmo quando nem sempre se via logo os resultados (e até se achava que não viriam). Este processo de tomada de consciência tem feito crescer em mim a convicção de que a rotina é um lugar de revelação.
São os gestos repetidos diariamente, aparentemente vulgares e ordinários, que sustentam e permitem a verdadeira transformação.
Dar-me conta da sua importância não significa que a idealize. A rotina pode ser cansativa, repetitiva, silenciosa e até árida. Não desvalorizo os momentos extraordinários, que acontecem de forma espetacular. Antes pelo contrário, na Escola, conheço bem o seu impacto, sei como agarram e entusiasmam os alunos. Ainda assim, a experiência de acompanhar alunos faz com que acredite que são os gestos repetidos diariamente, aparentemente vulgares e ordinários, que sustentam e permitem a verdadeira transformação. Esta transformação manifesta-se de forma diferente em cada um, mas vai acontecendo, muitas vezes silenciosamente, noutras tantas de modo diferente do que esperávamos e quase sempre num ritmo que não seria o que escolheríamos.
Numa altura em que é valorizado o que é novo e em que se está logo a pensar na inovação que deve vir a seguir; em que é celebrado o que é feito de forma rápida e imediata; e em que é considerado eficiente o que nos faz avançar (sim, sempre para a frente) com o menor número possível de cliques, acho que podemos ter alguma dificuldade em olhar e voltar aos mesmos gestos sem sentir que estamos a ficar parados.
Por isso, para mim, tem sido muito importante recordar que é próprio do crescimento ser lento, isto é, que é feito através de processos lentos. A lentidão está presente sempre que esperamos, sempre que duvidamos, sempre que nos cansamos (porque investimos, porque nos dedicamos); sempre que aguardamos uma mudança que aconteceu antes de se tornar visível ou explícita. São também estes os processos que vão preenchendo a nossa rotina e que me têm ajudado a confirmar que nada essencial se faz depressa.
Este pode ser um bom momento para celebrar a rotina como lugar de revelação.
Tudo isto me tem trazido uma nova luz para olhar o Tempo Comum, que vivemos agora liturgicamente, após o Tempo Pascal. Depois de termos celebrado os dias que dão sentido à nossa Fé e a palavra ‘comum’ pode remeter-nos para algo sem grande importância ou valor – é o dicionário que o diz. No entanto, este pode ser um bom momento para celebrar a rotina como lugar de revelação, independentemente do que esta nos vier a mostrar.
Jesus também viveu uma rotina, certamente diferente da nossa. Ainda assim, experimentou a espera, o cansaço e a dúvida. E, acima de tudo, procurou ir ao encontro dos outros nas suas rotinas. Depois de ressuscitar, não preparou um momento espetacular (épico, dir-se-ia) para espalhar a notícia de que estava vivo. Em vez disso, escolheu aparecer aos Seus amigos indo ao seu encontro nas suas rotinas. Aproximou-se enquanto conversavam e encontrou-os tristes e desanimados; enquanto se reuniam e encontrou-os com medo e sem confiança; enquanto trabalhavam e encontrou-os frustrados e a sentirem-se incapazes. Mas foi aí mesmo que escolheu revelar-Se. Fê-lo com gestos que podem ser repetidos (e que ainda hoje são), trazendo luz à transformação que os Seus amigos já estavam a viver, mas da qual desconfiavam.
Ao longo destas semanas, vamos poder conhecer e ir mais fundo na rotina de Jesus e na forma como a viveu. Por isso, o Tempo Comum traz-nos a oportunidade de, sendo conscientes da sua exigência, olharmos de maneira diferente para a nossa e de descobrir o que cresce no silêncio e na lentidão que tantas vezes desprezamos nos nossos dias.
Afinal, se Santa Teresa d’Ávila dizia que Deus se movia por entre tachos e panelas, o que se pode revelar nos gestos repetidos da rotina de cada um?
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
