Na sexta-feira, dia 15 de maio, teve lugar a X Assembleia Social Inaciana. Organizada pela Comissão do Apostolado Social (CAS), mais de cem pessoas ligadas às obras sociais da Companhia de Jesus puderam estar presentes num dia essencialmente pensado para o Encontro, para a Formação do Corpo e para a (re-)inspiração para a Missão de Deus.
Partindo do mote “Se tudo está ligado, porque agimos separados?”, o dia serviu para mergulhar no pensamento de Francisco, na Laudato Si’ e no seu apelo a uma ecologia integral. Mais: foi como o recentrar das várias missões, um dia que permitiu pôr em perspetiva todo o trabalho realizado, o seu porquê e o seu para quem. Ao longo do dia, procurou-se perceber as implicações que a espiritualidade inaciana tem (e tem de ter) nas nossas respectivas missões.
Através do brilhante testemunho de Elena Lassida, aprendemos a urgência da interdependência no nosso dia a dia, como trabalhadores para o Reino, como seres humanos num mundo que tende cada vez mais para “a autonomia que não gera vida.” Pusemos em causa a interdependência do nosso trabalho: nos nossos deveres e compromissos, criamos ou procuramos criar comunidade? Que espaço tem a gratuidade na nossa vida pessoal e profissional? Em que medida as metas, o impacto, os resultados e os relatórios nos afastam da humildade necessária para compreender e assumir a nossa fragilidade?
No mundo acelerado e cheio de solicitações em que vivemos, que tende para a autonomia e a especialidade e no qual o desnorte se torna cada vez mais presente e possível, a Assembleia relembrou a necessária centralidade do Evangelho, do legado de Francisco e da exigência inaciana. “Tudo está interligado”, palavras tantas vezes relembradas.
Um mundo fragmentado tem de ser visto por nós como repleto de lugares de alcance do Amor do Pai. As nossas relações pessoais, profissionais, institucionais são, por isso, espaço para que este Amor cresça e se faça presente. A fragilidade dessas mesmas relações, bem como a das vidas daqueles para os quais trabalhamos, pode ser vista “como forma de dar nova vida”. Dar nova vida às vidas à nossa volta é um compromisso que tem tanto de exigente quanto de urgente.
Por tudo isto, saímos da passada sexta-feira com o compromisso reforçado. Enquanto obras inspiradas pela vida de um santo que a tudo se fez indiferente, devemos nós também reaprender palavras em desuso. A gratuidade da vida de Cristo e a Terra enquanto Criação que recebemos gratuitamente e que merece ser cuidada são realidades que merecem estar mais presentes nos nossos dias enquanto obras ligadas à Companhia.
Procurando perceber de que forma a gratuidade e o resultado podem andar de mãos dadas; de que maneira pode a fragilidade ter espaço nos nossos dias; de que forma o alcance (tantas vezes obsessivo) de resultados e métricas nos afasta da nossa condição de criaturas frágeis e interdependentes. Que lugar tem a sempre exigente opção preferencial pelos pobres nas nossas áreas? De que forma a relação é o princípio gerador de tudo aquilo que fazemos?
Foi na certeza de um caminho que pode ser sempre ajustado, repensado e recentrado, porque conta com a presença do Senhor, que saímos da Assembleia. Como relembra o Papa Francisco no final da Laudato Si’: “(…) que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta não nos tirem a alegria da esperança”.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
