«Uma vocação dentro da vocação». Obrigado, D. Daniel, pelo testemunho - Ponto SJ

«Uma vocação dentro da vocação». Obrigado, D. Daniel, pelo testemunho

Obrigado P. Daniel, obrigado pelo testemunho de uma fé que te levou a viver agradecido e a morrer sem amargura.

Quando me tornei jesuíta, em 2005, ingressando no noviciado de Coimbra, o então P. Daniel tornou-se pároco da minha terra – Algés – onde ministrou por longos anos. E lá ficou por muitos anos. Ainda lá estava quando fui ordenado presbítero. Agradeço o facto dele sempre me ter acolhido na paróquia que também é “minha”, com alegria e gratidão, durante os períodos de verão, para celebrar missas e confissões. Tive, portanto, a graça de o conhecer um pouco e de perceber o quanto era amado por todos os paroquianos. E também pude acompanhar o período da sua doença, na oração e amizade.

Lembro-me de ter ficado muito tocado no momento em que ele decidiu não receber mais visitas, quando já estava na unidade de cuidados paliativos. Agora, agradeço a sua vida, e as palavras que ele nos deixa neste livro. Uma vocação dentro da vocação (Paulinas, 2026) reúne uma espécie de diário e crónicas, com um “Testamento espiritual”, que D. Daniel Batalha Henriques foi escrevendo a partir do diagnóstico de um cancro do cólon, em agosto de 2019, até à sua morte em novembro de 2022. Vindo a falecer com apenas 56 anos de idade, a sua vida foi imensa.

Ao ler este testemunho, tenho pena que seja o livro que, provavelmente, só será lido por crentes. Pois o seu testemunho desfaz um preconceito persistente sobre o crente, sobretudo o cristão: o de que vive de costas voltadas para este mundo, tolerando os sofrimentos da vida presente como um fardo a suportar, numa espécie de sacrifício que paga uma felicidade só vivida num além desta terra. Como se a fé fosse uma fuga à realidade. O testemunho de como viveu o sofrimento e o aproximar-se da sua morte desfaz este equívoco com uma clareza desarmante.

Como ele próprio escreve, foi-se treinando na “arte de sobreviver numa casa em ruínas”

Por um lado, as suas palavras transbordam de gratidão por esta vida terrena, nas coisas mais simples e banais que ela nos oferece: uma refeição partilhada com amigos, a visita inesperada de quem se estima… A fé nunca o tornou indiferente às coisas deste mundo: pelo contrário, tornou-o mais sensível, como quem aprende a saborear o pão de cada dia com mais intensidade. Não o pão de um destino imposto, mas o pão recebido das mãos de alguém que é amado e que deseja amar. Trata-se de uma fé que o torna mais humano, por não subtrair nada a esta vida. Com efeito, cada momento torna-se mais inteiro, mais saboroso, quando se descobre que é dado. Tornamo-nos mais agradecidos quando experimentamos a graça de sentir que, por detrás do dom da vida que nos foi dada, há um Pai que ama. É essa gratidão filial, mais que qualquer renúncia, que lhe permitiu agradecer toda a sua vida até ao fim.

Por outro lado, a fé também o ajudou a enfrentar e a integrar a doença terminal. Como ele próprio escreve, foi-se treinando na “arte de sobreviver numa casa em ruínas”: uma imagem crua e honesta que não disfarça nada, nem silencia a dor e a morte como um tabu a evitar. Mais: é nessa mesma crueza que aparece o humor e a humanidade com que ele chega a baptizar o seu cancro como “o meu primo Colonico”, um primo que de vez em quando aparece sem avisar na família, sempre pronto para se instalar e desarrumar a casa toda; um primo com quem a família não quer estar. O P. Daniel – sempre assim o chamámos em Algés – foi aprendendo a acolhê-lo em sua casa. A ironia com que ele enfrenta o cancro não se confunde com a coragem fria de um estoico, capaz de suportar a dor com a sua própria força. Com muita humanidade, ele assume a fragilidade da sua condição humana, tão humana, na convicção serena de que o sofrimento, a limitação e a morte não têm a última palavra. E isso não significa só esperar no além: pois traduz-se também numa vocação a viver plenamente mesmo quando o corpo desfalece e a dor aparece.

A vulnerabilidade, o sofrimento, podem tornar-se o lugar de um coração que não se petrifica num estoicismo heroico, ao abrir-se a quem cuida.

É aí que a sua fé não o leva só a agradecer toda a vida como um dom: também lhe permite experienciar o sentido do sofrimento. E isso de várias maneiras. Em primeiro lugar, é a fé simples que ele nos ensinava como pároco: a consciência humilde de que a vida inteira, incluindo o sofrimento, pode tornar-se um caminho de purificação daqueles que são peregrinos nesta terra. É nesse sentido que ele fala explicitamente no Purgatório, como quem aceita que ainda há muito a ser limpo antes de ver Deus face a face. E aceita isso como um dom; não como um castigo. Mas havia outra fonte de sentido, igualmente concreta: amar e ser amado pelos demais. A vulnerabilidade, o sofrimento, podem tornar-se o lugar de um coração que não se petrifica num estoicismo heroico, ao abrir-se a quem cuida. É tocante ver como ao longo do tempo da sua doença ele não se cansou de agradecer, não só a Deus, mas a todos que cuidavam dele profissionalmente, que rezavam por ele, que dele se compadeciam. De facto, a sua doença despolotou vigílias da parte dos seus paroquianos, fê-lo compadecer-se e aproximar-se de outros sacerdotes doentes, alguns dos quais partiram deste mundo antes dele. Nessa rede de afecto, o P. Daniel foi sempre um bom homem, um bom cristão, um bom pastor.

Trata-se de um testemunho semelhante ao de são João Paulo II, um Papa que sempre inspirou a vocação do P. Daniel: desde a sua decisão de entrar no seminário até à sua vida de Padre e de bispo auxiliar de Roma, uma inspiração que se intensificou durante o período final da sua vida, não tivesse a feliz coincidência (providência) conduzido o P. Daniel a Roma, a fim de ser internado no hospital onde João Paulo II foi operado após o atentado de 1981.

Uma vocação dentro da vocação não é um livro de piedade edificante para consumo interno. É um testemunho de como a fé pode tornar um homem mais humano, mais presente, mais grato. Obrigado P. Daniel pelo testemunho de uma fé que te levou a viver agradecido e a morrer sem amargura.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.