Uma revolução existencial - Ponto SJ

Uma revolução existencial

Poucas civilizações na história tiveram uma oportunidade tão grande de inventar formas completamente novas de organização, de relação e de vida em comum. É o grande convite da conversão ecológica.

Poucas civilizações na história tiveram uma oportunidade tão grande de inventar formas completamente novas de organização, de relação e de vida em comum. É o grande convite da conversão ecológica.

No Dia Mundial do Ambiente, o Ponto SJ publica a transcrição de uma conferência que a investigadora Elena Lasida deu em Lisboa, no dia 15 de maio, no âmbito da Assembleia Social Inaciana. A tradução e a edição são da responsabilidade do Ponto SJ.

A ecologia convida-nos hoje a escrever de uma forma nova a história do mundo. Este encontro da Comissão do Apostolado Social dos Jesuítas está relacionado com a ecologia integral e quero, por isso, explicar-vos um pouco a partir de onde falo sobre ecologia e ecologia integral.

Gosto de me apresentar através de uma imagem que me identifica muito: a de uma fronteira. A fronteira é um lugar de relação; pode ser um lugar de separação, de rutura, ou um lugar de encontro. Para mim, é uma imagem que ressoa com muitas coisas da minha história e que me convida a continuar a pensar como está presente na vida.

Há três fronteiras em particular que me identificam. Antes de mais, a fronteira geográfica. Sou do Uruguai, vivi muitos anos na América Latina e, há já bastante tempo, vivo em França. Continuo com esta dupla pertença entre o Uruguai e França. No Uruguai fiz os meus primeiros estudos em Economia e fui profundamente marcada pela corrente teológica, a Teologia da Libertação, e pelas comunidades eclesiais de base. Fiz experiências muito fortes nessas comunidades, em bairros pobres da periferia de Montevideu. Por isso, quando ouço o tipo de experiência que vocês representam, isso faz eco de coisas muito fortes para mim.

Esse contacto com a Teologia interrogou-me profundamente sobre o meu trabalho e a minha formação em Economia. Foi isso que me levou a instalar-me em França, porque queria cruzar Economia e Teologia. Em geral, quando se juntam Economia e Teologia, o resultado é uma abordagem muito moralista, pois em nome da Teologia condena-se a economia. A Economia seria tudo o que é mau — egoísmo, competição — e a Teologia tudo o que é bom — amor, justiça, bem comum. Para mim, essa oposição não fazia sentido, nem de um lado nem do outro.

Esta é a segunda fronteira que me identifica: entre Economia e Teologia, que continua a ser um lugar de pensamento, de investigação e de compreensão da realidade.

Foi isso que me levou a aprofundar a relação entre estas duas disciplinas. Esta é a segunda fronteira que me identifica: entre Economia e Teologia, que continua a ser um lugar de pensamento, de investigação e de compreensão da realidade.

A terceira fronteira é a fronteira profissional. Trabalho sobretudo na universidade, num contexto muito teórico, mas foi sempre importante manter um pé na ação associativa. Por isso, hoje, toda a investigação que faço na universidade está associada ao que em França se chama investigação participativa ou investigação-ação. Há aqui uma forma diferente de pensar a investigação e de articular teoria e prática, pensamento e ação.

É deste lugar que vos falo hoje sobre ecologia. Descobri a ecologia sobretudo como economista. Evidentemente, a ecologia está ligada ao meio ambiente, aos recursos naturais, e foi assim que comecei a interessar-me pelo desenvolvimento sustentável.

Trabalhava muito sobre estas questões e aí havia uma forma muito particular de pensar o meio ambiente: como um conjunto de recursos necessários para a vida humana. Quando surgiu a Laudato Si’ foi uma verdadeira tempestade, um abalo profundo na minha forma de pensar o meio ambiente e a natureza. A Laudato Si’ convida a um deslocamento não apenas na maneira de olhar e pensar a natureza, mas também de pensar e olhar a vida, a existência e o sentido da existência.

Tive a sorte de viver este momento de forma muito especial. A Laudato Si’ foi publicada em 2015, o ano da COP21, Conferência das Partes sobre Alterações Climáticas das Nações Unidas, que se realizou em Paris. Essa COP foi particularmente importante porque, até aí, a comunidade internacional não conseguia chegar a um acordo para combater o aquecimento global. A Laudato Si’ foi publicada, precisamente, alguns meses antes da COP21.

A Laudato Si’ convida a um deslocamento não apenas na maneira de olhar e pensar a natureza, mas também de pensar e olhar a vida, a existência e o sentido da existência.

Em França, o que me impressionou muito foi que quando a encíclica saiu os primeiros a falar dela não foram os cristãos, mas os políticos. França é um país muito laico, onde o governo normalmente só fala da Igreja para a criticar. Pela primeira vez, ouviu-se dizer: “Há aqui um texto que nos pode ajudar no encontro que vamos ter em dezembro.” Desse ponto de vista, a Laudato Si’ é muito particular, pois antes de ser apropriada pelos cristãos, foi o setor político e não cristão que fez lhe referência.

Nessa altura, a Conferência Episcopal Francesa propôs-me acompanhar a receção da Laudato Si’ nas comunidades cristãs em França, precisamente porque eu já trabalhava as questões de desenvolvimento sustentável. Na Conferência Episcopal não existia praticamente nada de estruturado sobre ecologia. Havia pequenas iniciativas, mas nada institucional, era preciso inventar tudo. Inventar coisas novas dentro da Igreja nem sempre é fácil mas foi precisamente essa oportunidade que me permitiu trabalhar profundamente a Laudato Si’ e deixar-me deslocar por ela na minha visão do mundo. Uma mudança radical: um deslocamento na cabeça, no coração e no corpo, ou seja, uma transformação profunda.

Hoje a Laudato Si’ ajuda-me a pensar o mundo através de três elementos fundamentais da encíclica. Vou tentar mostrar como cada um desloca algo de essencial na minha conceção do mundo e também como interroga o trabalho social, especialmente quando estamos comprometidos na luta contra a pobreza e na promoção da justiça social.

O primeiro elemento é a forma como a encíclica concebe a ecologia, que na encíclica toca quatro dimensões. A primeira é a que todos associamos à ecologia: o meio ambiente, a natureza. A segunda é o humano. Há uma frase que se ouve frequentemente: “O clamor dos pobres e o clamor da Terra são um só e mesmo grito.” Para a encíclica, o humano, a natureza e o meio ambiente fazem parte da mesma realidade e não podem ser separados.

A terceira dimensão é a política. A ecologia implica pensar de forma nova a organização da sociedade, tanto a nível local como internacional e convida-nos a pensar de outra forma a vida em comum, e isso é profundamente político.

A quarta dimensão é a espiritualidade. A Laudato Si’ afirma de forma muito forte que a ecologia toca, interroga e desloca a nossa experiência espiritual. A maneira como nos relacionamos com a natureza traduz algo da nossa relação com Deus.

A Laudato Si’ afirma de forma muito forte que a ecologia toca, interroga e desloca a nossa experiência espiritual. A maneira como nos relacionamos com a natureza traduz algo da nossa relação com Deus.

Portanto, a ecologia toca estas quatro dimensões ao mesmo nível. Não se trata apenas do meio ambiente com impactos nas outras áreas, todas são essenciais para pensar a ecologia, daí a ideia de ecologia integral.

Esta visão desloca a ideia, ainda muito presente, de que a ecologia é sobretudo separar o lixo, usar energias renováveis, reduzir a poluição ou diminuir o uso de pesticidas. Quando pensamos em conversão ecológica, pensamos num uso mais responsável dos recursos naturais: andar mais de bicicleta do que de carro, comer menos carne, mudar hábitos de consumo. Mas a Laudato Si’ diz-nos que a ecologia não é apenas isso, é algo muito mais profundo: é a forma como nos relacionamos com todos os seres vivos da criação.

A ecologia não é apenas uma questão de gestão responsável dos recursos, ela vem interrogar as nossas relações a todos os níveis. Para mim, a conversão ecológica é existencial. Não diz apenas respeito ao funcionamento do sistema económico e social — embora isso também tenha de mudar —, mas toca a própria forma de viver.

No trabalho social, isto tem consequências importantes. A questão ecológica não é fácil de integrar na questão social. A dimensão social sempre esteve muito presente na Igreja, através da opção preferencial pelos pobres, mas abrir espaço para a ecologia não era evidente. Mas se a ecologia toca todas as dimensões da vida, transforma profundamente a forma como pode ser integrada no trabalho social. Isso passa por aprender com a natureza, não apenas pensar como usar a natureza de forma mais responsável, mas interessarmo-nos por ela enquanto conjunto de seres vivos capazes de nos inspirar a repensar as relações humanas.

Um exemplo: as árvores mortas numa floresta. Em geral, cortamo-las porque pensamos que representam um perigo, mas as árvores mortas desempenham um papel fundamental no ecossistema, pois, graças aos fungos, alimentam os outros seres vivos da floresta. Ou seja, a árvore morta permite que o resto do ecossistema continue a viver. Este exemplo mostra-nos que pensamos sempre vida e morte em oposição: vida contra morte, riqueza contra pobreza, força contra fragilidade. Mas na natureza vida e morte estão em inter-relação, pois não há vida sem morte.

Trabalhamos constantemente com situações de fragilidade, precariedade e sofrimento. Muitas vezes opomos pobreza e riqueza, morte à vida, fragilidade e força e queremos tornar os mais frágeis “mais fortes”.

Isto interroga profundamente o trabalho social, porque trabalhamos constantemente com situações de fragilidade, precariedade e sofrimento. Muitas vezes opomos pobreza e riqueza, morte à vida, fragilidade e força e queremos tornar os mais frágeis “mais fortes”.

Mas talvez haja algo a pensar nesta relação entre pobreza e riqueza, entre vida e morte, que não passa simplesmente por opor estas realidades. A natureza hoje ensina-nos novas formas de pensar a luta contra a pobreza, revela-nos algo sobre o humano, sobre a política, sobre a espiritualidade e até sobre Deus. No entanto, continuamos muitas vezes a pensar a natureza apenas de forma instrumental: temos de a proteger para garantir a sobrevivência humana. Ficamos presos a uma lógica instrumental.

O segundo elemento central é a relação. Na ecologia integral, a relação é um conceito-chave. A Laudato Si’ fala de quatro tipos de relação: a relação consigo mesmo, a relação com os outros seres humanos, a relação com a natureza e a relação com Deus. A ecologia implica trabalhar conjuntamente estas quatro relações. Isto desloca profundamente a nossa compreensão da ecologia, pois aqui ela não é apenas uma gestão mais responsável dos recursos naturais, mas é uma interrogação sobre as nossas relações a todos os níveis.

No trabalho social, isto significa que não basta perguntar se reduzimos a pobreza ou melhorámos as condições de vida das pessoas. Precisamos também de interrogar as relações que estabelecemos com aqueles que ajudamos pois, quando trabalhamos com pessoas vulneráveis, o risco de criar relações de dependência é muito forte, mesmo quando não o desejamos. A ecologia integral leva-nos precisamente a perguntar: que tipo de relações estamos a construir, sobretudo com as pessoas mais frágeis?

O terceiro ponto é estruturado em torno de três princípios fundamentais da Laudato Si’: tudo está interligado, tudo é dom, tudo é frágil. Estes são os três grandes princípios da ecologia integral. “Tudo está ligado” significa que a vida se constrói através de relações de interdependência, pois somos profundamente interdependentes entre nós, entre sociedades e entre todos os seres vivos. Isso questiona uma ideia central da modernidade: a noção de autonomia entendida como independência. Todos queremos ser autónomos, independentes, não depender dos outros. Mas o problema é precisamente este: definimos autonomia como independência, e ser autónomo seria não depender de ninguém. O que a Laudato Si’ nos diz é que a autonomia não é isso, porque, se formos totalmente independentes — isto é, se não dependermos de ninguém — morremos. A vida é interdependência. A autonomia é interdependência. O contrário da dependência não é a independência, é a interdependência. Isso altera uma ideia muito forte nas nossas sociedades. Um exemplo: quando alguém começa a envelhecer e a tornar-se dependente dos outros, tem dificuldade em aceitar pois ninguém quer depender de outros. O que a Laudato Si’ diz é que o objetivo não deve ser fazer com que cada pessoa seja independente, mas, pelo contrário, criar relações de interdependência entre os seres humanos e com os outros seres vivos.

A autonomia é interdependência. O contrário da dependência não é a independência, é a interdependência. Isso altera uma ideia muito forte nas nossas sociedades.

Na minha opinião, isto vem interrogar profundamente o trabalho social: que relação estabelecemos com as pessoas que acompanhamos? Queremos que elas sejam autónomas; não queremos ajudá-las indefinidamente, mas como é que as ajudamos? Criamos relações de interdependência ou limitamo-nos a dar-lhes aquilo de que precisam, esperando depois que consigam responder sozinhas às suas necessidades com os seus próprios recursos?

Isto interroga também a forma como governamos as nossas instituições. Interdependência significa perguntar como decidimos juntos nas nossas estruturas, como construímos comunidade dentro das instituições. Estabelecemos relações de interdependência ou fazemos simplesmente o que é mais habitual no trabalho: dividir competências, distribuir especialidades e deixar que cada um faça aquilo em que é mais competente? Para mim, a interdependência vem questionar tudo isso.

O segundo princípio é: “tudo é dom”. Uma das coisas que a Laudato Si’ afirma com muita convicção é que o primeiro passo para uma conversão ecológica é reconhecer que a Terra é um dom imenso que recebemos gratuitamente. Antes mesmo de pensar como a utilizamos de forma mais responsável, o mais importante é reconhecer que a recebemos gratuitamente. Contudo, na nossa sociedade, a gratuidade praticamente desapareceu. Quando a encíclica fala de gratuidade, não fala simplesmente de “dar sem cobrar”, fala de uma relação de reciprocidade. Pode parecer paradoxal dizer que a gratuidade implica reciprocidade, mas é precisamente isso. Quando alguém dá e não recebe nada do outro, cria-se inevitavelmente uma relação de dependência. Ora, a gratuidade não é isso.

A diferença é que, na gratuidade, dá-se sem exigir em troca algo com o mesmo valor, como acontece na lógica do mercado. No mercado, eu dou algo e recebo em troca um equivalente. A gratuidade é diferente: é dar para permanecer ligado ao outro, para estabelecer uma relação que permita dar e receber, continuar conectado.

Há ainda outro desfasamento: em todas as nossas atividades — sejam económicas, sociais, associativas ou eclesiais — estamos obcecados com os resultados e procuramos eficácia, desempenho, performance. Isto acontece não apenas na economia, mas também no trabalho social, no mundo académico e até eclesial. O nosso pensamento é: quantas pessoas conseguimos trazer para uma atividade? Quantas melhoraram as suas condições de vida graças ao projeto que implementámos? Gratuidade é precisamente o contrário disto, é a capacidade de estar com o outro, de estar presente, sem pensar imediatamente no que vamos produzir, sem pensar no resultado da ação. Isto é extremamente difícil, porque toda a sociedade está organizada dessa forma e avalia-nos em função dos resultados que alcançamos.

A pergunta fundamental é: que espaço deixamos à gratuidade nas nossas atividades e nos nossos projetos? A gratuidade implica não controlar, deixar acontecer.

A pergunta fundamental é: que espaço deixamos à gratuidade nas nossas atividades e nos nossos projetos? A gratuidade implica não controlar, deixar acontecer.

O terceiro e último princípio é a fragilidade. A Laudato Si’ fala de um mundo em extrema fragilidade: fragilidade humana, fragilidade da natureza, fragilidade das crenças, fragilidade das instituições. Tudo hoje está em crise, vivemos uma fragilidade generalizada. O que a Laudato Si’ pergunta, de forma muito forte, é: o que fazemos quando estamos diante da fragilidade? Normalmente, tentamos reparar para voltar ao que tínhamos antes.Quando estamos doentes, tentamos curar-nos; quando um projeto entra em crise, tentamos ajustá-lo para que volte a funcionar. A encíclica diz-nos algo muito diferente: diante da fragilidade do mundo atual — da Terra, das nossas instituições, dos nossos projetos — não tentem apenas reparar, criem algo novo.

A fragilidade é hoje uma oportunidade extraordinária para inventar, para criar novas formas de ser sociedade, de ser comunidade, de existir e de nos relacionarmos. Todas as instituições que nos formaram e que nós próprios ajudámos a construir, e que são estruturas em torno das quais organizámos a vida coletiva, estão hoje em crise: o Estado, a escola, a família, a Igreja. E no meio destas transformações, fazemos tudo para as salvar, para preservar os modelos antigos. Mas talvez a conversão ecológica seja precisamente isto: perante a fragilidade que encontramos por toda a parte, sermos capazes de parar e perguntar: “E se isto fosse uma oportunidade para criar algo novo?” É um convite à criatividade. É um convite a estar muito mais atento àquilo que emerge inesperadamente.

Mas, para isso, temos de parar pois, se permanecermos presos à lógica dos projetos, dos resultados e da eficácia, torna-se impossível. Estamos tão obcecados em alcançar os resultados previstos que deixamos de ver aquilo que de novo está a nascer à nossa volta.

Por isso, a conversão ecológica não é simplesmente uma forma mais responsável de utilizar os recursos naturais, é uma revolução existencial — a nível individual e coletivo. Poucas civilizações na história tiveram diante de si uma oportunidade tão grande de inventar formas completamente novas de organização, de relação e de vida em comum. É esse o grande convite da conversão ecológica.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.