Estamos a percorrer os primeiros dias do Tempo da Criação, o qual se estende de 1 de setembro até à festa de S. Francisco de Assis, no dia 4 de outubro. Esta é uma iniciativa ecuménica que nasceu em 1989 em contexto cristão ortodoxo, a que mais tarde aderiram as Igrejas protestantes por meio do Conselho Mundial de Igrejas (WCC) e dos cristãos luteranos e anglicanos e, finalmente, a Igreja Católica.
O compromisso para com o cuidado da Casa Comum foi uma das marcas definidoras do pontificado que acaba de terminar. O Papa Francisco, de boa memória, instituiu o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação (DMOCC) a 1 de setembro, no contexto da publicação da encíclica Laudato si’, o seu texto mais marcante no que diz respeito às questões ecológicas. O Papa Leão XIV, por sua vez, introduziu na liturgia o formulário da Missa pela Custódia da Criação, por ele mesmo celebrada pela primeira vez em 9 de julho passado. E o tema que o Santo Padre escolheu para o vídeo do Papa de setembro de 2025 é precisamente “Pela nossa relação com toda a criação”, sublinhando a interdependência do ser humano com todas as criaturas.
Este ano, o tema para o DMOCC, ainda escolhido pelo Papa Francisco, é “Sementes de paz e de esperança”. O Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral preparou uma breve síntese da Mensagem de Leão XIV para este dia, uma infografia e diversos materiais para uso pastoral, desde subsídios litúrgicos a guiões para encontros com adultos, jovens e crianças.
Este ano, o tema para o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, ainda escolhido pelo Papa Francisco, é “Sementes de paz e de esperança”.
A analogia entre a semente e o grão de trigo a que alude Leão na mensagem não é meramente literária, mas é convite ao acolhimento da vida nova que germina da paixão de Cristo: “Na sua pregação, Jesus usa com frequência a imagem da semente para falar do Reino de Deus e, na véspera da Paixão, aplica-a a Si mesmo, comparando-Se ao grão de trigo, que deve morrer para dar fruto”. Paixão que continua nos membros do seu corpo e nos elementos da criação: “Por todo o lado, a injustiça, a violação do direito internacional e dos direitos dos povos, a desigualdade e a ganância provocam o desflorestamento, a poluição, a perda de biodiversidade”.
A nossa esperança reside na capacidade transformadora do Espírito de Deus, pois só Ele “é capaz de transformar o deserto árido e ressequido num jardim, num lugar de repouso e serenidade”. Porém, Deus não age sem a implicação da nossa vontade, ou seja, o nosso empenho em “ações concretas que tornem perceptível esta «carícia de Deus» sobre o mundo”.
O empenho de que fala o Papa corresponde à luta por uma forma de justiça a que não estávamos até há pouco habituados a considerar: a justiça ambiental. Este é um conceito paralelo ao de desenvolvimento integral, enquanto “representa uma necessidade urgente que ultrapassa a mera proteção do ambiente. Trata-se verdadeiramente de uma questão de justiça social, económica e antropológica”. E, para quem tem fé, a justiça ambiental é autêntica “exigência teológica, que para os cristãos tem o rosto de Jesus Cristo, em quem tudo foi criado e redimido. Num mundo onde os mais frágeis são os primeiros a sofrer os efeitos devastadores das alterações climáticas, do desflorestamento e da poluição, cuidar da criação torna-se uma questão de fé e de humanidade”.
Para quem tem fé, a justiça ambiental é autêntica “exigência teológica, que para os cristãos tem o rosto de Jesus Cristo, em quem tudo foi criado e redimido. Num mundo onde os mais frágeis são os primeiros a sofrer os efeitos devastadores das alterações climáticas, do desflorestamento e da poluição, cuidar da criação torna-se uma questão de fé e de humanidade”.
O que fazer, então, em termos concretos enquanto empenho por cuidar da criação e por promover a justiça ambiental? Algumas notas da minha reflexão a nível pessoal e pastoral, para depois apresentar um exemplo prático sonhado por Francisco e continuado por Leão.
1. Ações concretas a nível pessoal. Aqui vou ser muito terra a terra. O facto de ter mudado recentemente de casa e de cidade implicou a sempre penosa tarefa das mudanças: arrumar, empacotar, transportar, desempacotar, arrumar… Foi uma oportunidade única para refletir acerca dos meus hábitos muitas vezes desordenados de consumo, acerca do acumular de tanta coisa inútil, acerca da facilidade com que cedo à tentação apresentada pela engrenagem de uso e de descarte da sociedade de consumo em que vivemos: “compre e poupe”, “a semana dos preços mais baixos de sempre”, “saldos”, “baixa de preços”, “compre 2 e leve 3”, “20% de desconto na segunda compra e 40% na terceira”…
Mas estarei mesmo a poupar ou a gastar sempre e sempre mais? Preciso mesmo deste objeto, desta peça de roupa, de uvas com sabor a manga ou a baunilha (não estou a delirar, chegaram recentemente aos supermercados!)? É mesmo vergonha usar um casaco já com 20 anos, mas ainda em perfeito bom estado? Preciso mesmo de trocar o meu carro, que continuo a achar tão confortável, só por pensar “o que dirão de mim por andar com um carro que já tem 16 anos…”?
Alguns dias depois de me instalar na nova cidade, quis libertar-me de algumas peças de roupa e corri os contentores de depósito de roupas usadas. Um após outro, esquina após esquina, atafulhados de roupa e mais roupa… Justiça ambiental tem diversos significados muito concretos, como por exemplo: a nossa compulsão no Ocidente por comprar roupa e mais roupa sem cessar está a provocar uma verdadeira catástrofe ecológica. As fibras das roupas são dos materiais mais difíceis de reciclar. Muitas das pilhas e pilhas de roupa que depositamos, ainda perfeitamente utilizáveis, nos ditos contentores, terminam em descomunais lixeiras em muitos países africanos, com as fibras sintéticas a desfazerem-se e a poluir os cursos de água e oceanos. Para não falar em certos dados que nos deixam perplexos quanto à forma como estamos a esgotar os recursos do planeta, como o facto de uns únicos jeans gastarem cerca de 5.000 litros de água na sua produção.
Justiça ambiental tem diversos significados muito concretos, como por exemplo: a nossa compulsão no Ocidente por comprar roupa e mais roupa sem cessar está a provocar uma verdadeira catástrofe ecológica.
2. Compromisso pastoral. Talvez seja este um momento em que me deixei dominar por um pessimismo não habitual em mim, mas confesso que não entendo, com tantos e tão bons materiais que têm vindo a ser produzidos pelo Dicastério em que colaboro, pelo Movimento Laudato si’, pela iniciativa Tempo da Criação e outras, como é possível que tão pouco compromisso pastoral se torne visível nesta área na vida das nossas paróquias, grupos, associações, movimentos. No dia 1 de setembro, Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, fui à missa na paróquia onde agora resido e nem uma única referência ao que se celebrava. Uma paróquia com três missas ao domingo bem participadas, um exército de acólitos muito piedosos, uma oferta nutrida de adorações, orações do terço e peregrinações… Tudo coisas boas, santas e necessárias para alimentar a fé cristã e a vida espiritual. Mas um vazio aparente no que diz respeito à implicação numa das questões mais urgentes do nosso tempo, o cuidado pela casa comum, nas homilias, nos avisos paroquiais, na decoração da igreja, nos placards informativos… Como gostaria de acreditar que é um caso isolado!
E o que dizer de um compromisso pastoral mais institucional? Nem uma referência ao Tempo da Criação no site da Conferência Episcopal Portuguesa nem de nenhuma das dioceses, salvo algum erro de consulta da minha parte. A público, nestes últimos dias, transpareceu apenas o apelo do bispo de Portalegre e Castelo Branco, por sinal com palavras bem fortes.
3. O exemplo concreto do Papa. Decorre neste dia 5 de setembro a inauguração do Borgo Laudato si’, um extraordinário projeto de educação ambiental, sustentabilidade, inclusão e acolhimento sonhado pelo Papa Francisco e que Leão XIV continuou a acalentar com entusiasmo. O Borgo Laudato si’ resulta da transformação das vilas pontifícias de Castel Gandolfo, uma antiga vila do imperador romano Domiciano. Pretende ser um exemplo de economia circular, combinando pesquisa, formação, trabalho e vida quotidiana.
O projeto inclui o Centro de Formação Laudato si’, que se calcula que venha a formar cerca de dois a três mil estudantes por ano e que constitui o pilar educativo do projeto. A ele está associada uma exploração agrícola que aplica os princípios da ecologia integral. Uma parte dos estudantes, incluindo portadores de deficiência, irão trabalhar no restaurante que irá ser aberto e toda a formação ministrada terá uma componente prática muito nítida.
A palavra-chave de todo o projeto é a sustentabilidade. Inclui vinhas biodinâmicas, uma moderna estufa alimentada a energia fotovoltaica e está em preparação um sistema “agrivoltaico”, que combina a produção agrícola e a produção de energia. Termino com as palavras de Leão XIV na Mensagem para o DMOCC: “A encíclica Laudato si’ acompanha a Igreja Católica e muitas pessoas de boa vontade desde há dez anos: que ela continue a inspirar-nos, e que a ecologia integral seja cada vez mais escolhida e partilhada como caminho a seguir”.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
