Ouvi a expressão “a esperança lá de casa” num encontro diocesano, dita por uma mãe de cinco filhos, um deles uma criança com deficiência. Não percebi logo o que ela quis dizer. A frase ficou a ecoar, mas sem ressoar um significado. Mais tarde, partilhei este episódio com um grupo de amigas e a reação foi imediata: não fazia sentido. Como pode a deficiência ser sinal de esperança, quando é tão difícil de viver e causa tanto sofrimento?
A pergunta ficou comigo.
O ano jubilar da esperança terminou, mas a experiência da esperança não se fecha num calendário. Talvez porque a esperança, quando é verdadeira, não se aprende em abstrato. Aprende-se no quotidiano, de forma concreta, na sua maioria em lugares que não escolheríamos.
A nossa sobrinha Teresinha é um desses lugares.
Falar de deficiência é, quase sempre, falar de limites. Do corpo, da linguagem, da autonomia, das expectativas. É falar de cansaço, de medo e de uma vulnerabilidade que não se pode esconder. Nada disto é fácil, nem bonito por definição. E talvez por isso exista a tentação de procurarmos rapidamente uma leitura redentora, como se fosse preciso justificar o sofrimento com uma explicação espiritual ou uma lição edificante.
Mas a Teresinha não é uma metáfora. É uma presença concreta que desorganiza rotinas, obriga a abrandar o tempo e desloca o centro das atenções. À volta dela, vamos aprendendo, devagar e com muitas falhas, que viver juntos não é apenas coordenar agendas ou cumprir planos, mas ajustar-nos continuamente uns aos outros.
A esperança, aqui, não se faz presente ao negarmos a dificuldade ou ao esperarmos que tudo se resolva. Aqui a esperança torna-se efetiva através da relação. Com aquilo que se transforma em nós quando aceitamos não controlar tudo, não compreender tudo, não resolver tudo.
Talvez por isso a deficiência incomode tanto. Porque nos lembra algo que preferimos esquecer: a nossa dependência radical uns dos outros. Num mundo obcecado pela autonomia, pela eficiência e pela normalidade, a deficiência expõe a fragilidade como parte constitutiva da condição humana.
Como sociedade, falamos progressivamente de diversidade e inclusão, e isso é importante. Mas há uma diferença grande entre incluir alguém num sistema que permanece intacto e deixar que a relação com essa pessoa nos transforme. A deficiência não é apenas uma característica individual. É uma experiência relacional, que envolve famílias, instituições, ritmos de vida e modos de organizar a sociedade.
Em casa, essa transformação acontece de forma silenciosa. Aprendemos a celebrar pequenas conquistas, a relativizar urgências, a estar presente de outra forma. Aprendemos que a vida não vale apenas pelo que produz ou alcança, mas pelo modo como é partilhada.
Talvez seja isto que aquela mãe quis dizer com “a esperança lá de casa”. Não uma esperança ingénua, nem heróica, nem forçada. Mas uma esperança discreta e teimosa, que nasce da convivência com a fragilidade e nos ensina, dia após dia, a viver de forma mais humana.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
