“A cidade de Deus exige profecia na cidade dos homens” - Ponto SJ

“A cidade de Deus exige profecia na cidade dos homens”

Ser cristão é isto. Ninguém nos enganou, nem iludiu. “A partir daí, muitos dos seus discípulos voltaram para trás e já não andavam com Ele. Então, Jesus disse aos Doze: «Também vós quereis ir embora?»

Vivemos num tempo terrível e perturbador. Não julgo ter a tendência para o catastrofismo e sempre procurei lutar com todas as minhas energias quando confrontado com os inevitáveis desafios que a vida coloca. E alguns foram tremendos. Procurando encontrar réstias de esperança, ténues sementes de bem e de positivo por onde recomeçar a construir caminho. Sempre pensando que o amanhã será melhor e que “Deus providenciará”. Porém, confesso que me assalta um sentimento de medo, de receio pelo que o futuro reserva ao mundo, à sociedade em que vivo, o que será dos meus filhos…

A banalização da violência assusta. Nas relações internacionais, na liderança das nações mais poderosas, no desencadear fácil de conflitos armados… Atacou-se sem piedade o multilateralismo que presidiu ao processo de reconstrução pós-II Guerra Mundial, e que tão belos frutos ofereceu – a criação de instituições internacionais e regionais ao serviço do desenvolvimento dos povos e da mediação das tensões, o fim dos impérios coloniais e a feliz independência de tantas novas nações, o crescimento económico global que ajudou a aumentar a esperança de vida, a erradicar doenças, a reduzir o analfabetismo, a promover o papel da mulher nas sociedades e a fortalecer regimes democráticos… Assim, se provocou, intencionalmente, creio bem, e todos sabemos por quem, a total ineficácia da ONU e dessas outras instituições de governança partilhada. O direito internacional e o direito humanitário tornaram-se letra moribunda, se não já mesmo defunta.

O direito internacional e o direito humanitário tornaram-se letra moribunda, se não já mesmo defunta.

Há duas décadas ainda se procurava escudar no consenso das ditas coligações do bem contra os eixos do mal, ou em mandatos internacionais, as intervenções para impor os próprios interesses mesquinhos, ainda que justificadas com óbvias mentiras como a da “posse de armas de destruição massiva”. Hoje, já nem isso: simplesmente se invade, se bombardeia, se destrói e mata sem estorvo nem pudor. Dizia o Papa Leão XIV há dias: “É verdadeiramente triste ver hoje, em muitos contextos, a imposição da lei do mais forte, com base na qual se legitimam os próprios interesses. É desanimador ver que a força do direito internacional e do direito humanitário já não parece obrigar, substituída pelo presumível direito de obrigar os outros com a força. Isto é indigno do homem, é vergonhoso para a humanidade e para os responsáveis das nações” (Discurso aos participantes no Plenário da ROACO, 26/06/2025). E o Santo Padre lançava de seguida perguntas angustiadas: “Como se pode acreditar, após séculos de história, que as ações bélicas trazem a paz, sem se voltar contra aqueles que as travaram? Como se pode pensar em lançar as bases do amanhã sem coesão, sem uma visão de conjunto animada pelo bem comum? Como se pode continuar a trair os desejos de paz dos povos com as falsas propagandas do rearmamento, na vã ilusão de que a supremacia resolve os problemas em vez de alimentar o ódio e a vingança?”.

A banalização da violência não está só, porém, nas intervenções bélicas, nas “operações especiais”, nos ataques preventivos, ou nas autênticas ações e políticas de extermínio – como está patente a quem queira ver em Gaza, para mim, e para muitos, o maior escândalo ético do nosso tempo, a ignomínia que permanecerá sob a cabeça da nossa geração durante muito tempo, como disse recentemente o arcebispo de Évora: “Afinal, Auschwitz passou a ser um laboratório de aprendizagem ao pé do que estamos a ver hoje. A fome, a miséria de pratos, de tigelas, enfim, de bacias a reclamar por um pedaço de massa cozida. Já não temos direito, já não temos direito a olhar para Auschwitz com uma atitude de acusação, porque a nossa geração está a fazer pior”. É diante de horrores como o de Gaza que se joga a autenticidade do testemunho cristão, a fidelidade a Jesus. Tal como disse Leão no mesmo discurso citado: “É imitar Cristo, que venceu o mal amando a partir da cruz, mostrando um modo de reinar diferente de Herodes e Pilatos: um, com medo de ser deposto, tinha assassinado crianças, que hoje continuam a ser despedaçadas com bombas; o outro lavou as mãos, como também nós corremos o risco de fazer todos os dias no limiar do irreparável”.

A banalização da violência não está só, porém, nas intervenções bélicas, nas “operações especiais”, nos ataques preventivos, ou nas autênticas ações e políticas de extermínio – como está patente a quem queira ver em Gaza, para mim, e para muitos, o maior escândalo ético do nosso tempo, a ignomínia que permanecerá sob a cabeça da nossa geração durante muito tempo.

Mas não, a banalização da violência não está só nas guerras a que os múltiplos ecrãs nos tornaram insensíveis. A banalização da violência tomou de assalto o nosso quotidiano: os impropérios no hemiciclo de São Bento que se tornaram comuns e se espalharam qual infeção pandémica por toda a sociedade, as palavras rudes e inconsideradas dirigidas a quem é estrangeiro, membro de um grupo minoritário, diferente do suposto padrão dominante… O imigrante erigido em causa de todos os males que nos assaltam, porque “nos vem roubar os empregos, substituir a nossa cultura, violar as nossas mulheres, tornar inseguras as nossas ruas, entupir os nossos hospitais, ocupar os lugares das nossas crianças nas escolas”… Quanta efabulação, quanta estultice, quanta falsidade … E como dói, como corrói a alma, e até a fé, quando estas palavras assassinas são proferidas dentro das nossas comunidades cristãs, por quem se senta ao nosso lado a escutar a Palavra e a partir connosco o Pão da Vida. “Não oprimirás um estrangeiro residente; vós conheceis a vida do estrangeiro residente, porque fostes estrangeiros residentes na terra do Egito” (Ex 23, 9). Ou, como disse tantas vezes Francisco: “todos somos migrantes”. Entretanto, na muito cristã Califórnia, o bispo de San Bernardino viu-se obrigado a dispensar do preceito dominical os imigrantes católicos que se sentem em pânico diante da perspetiva de serem presos ao vir à igreja, num dos raides de vasculho e captura que se tornaram comuns naquela “land of the free”…

Dilacera-me a alma assistir ao quase total silêncio das nossas comunidades cristãs, dos nossos pastores, das nossas lideranças eclesiais, perante o genocídio de Gaza e perante o selvagem ataque em curso a quem se viu forçado a migrar. Multiplicam-se as peregrinações, as vigílias, as adorações, os primeiros sábados, as rezas do terço, os atos de piedade, mas aparentemente fora do mundo real, do contexto que está lá fora dos muros da igreja… Quantos sites ou redes sociais das dioceses, das paróquias, das associações e movimentos eclesiais, das congregações religiosas, fizeram eco da profética recente Nota da Comissão Nacional Justiça e Paz sobre a situação na faixa de Gaza “É tempo de gritar pela paz”? Quantos dos nossos bispos e padres são capazes de dizer, como alguns fizeram no passado a quem defendia a despenalização do aborto: não, não se pode odiar o irmão e vir comungar! “Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que está preparado para o diabo e para os seus anjos! Porque tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, era estrangeiro e não me recolhestes, estava nu e não me vestistes, doente e na prisão e não fostes visitar-me” (Mt 25, 41-43). Que prioridade é dada nos planos pastorais diocesanos e paroquiais à divulgação da doutrina social da Igreja? Onde está a proclamação de uma ética consistente da vida, tão eminentemente ensinada por São João Paulo II, e que implica o respeito pela vida humana desde a sua conceção até ao seu fim natural, mas também a opção preferencial pelos mais pobres, a busca do bem comum, a solidariedade e o destino universal dos bens?

Quantos dos nossos bispos e padres são capazes de dizer, como alguns fizeram no passado a quem defendia a despenalização do aborto: não, não se pode odiar o irmão e vir comungar!

Ao discursar aos participantes no Dia Internacional de Luta contra a Droga, celebrado no dia 26 de junho passado, Leão XIV assim sintetizou o sentido do Jubileu que estamos a celebrar: “O Jubileu indica-nos a cultura do encontro como caminho para a segurança, pede-nos a restituição e a redistribuição das riquezas injustamente acumuladas como caminho para a reconciliação pessoal e civil. «Assim na terra como no céu»: a cidade de Deus exige profecia na cidade dos homens. E isto – sabemos – pode levar também hoje ao martírio. A luta contra o narcotráfico, o empenho educativo entre os pobres, a defesa das comunidades indígenas e dos migrantes, a fidelidade à doutrina social da Igreja são, em muitos lugares, considerados atos subversivos”.

Ser cristão é isto. Ninguém nos enganou, nem iludiu. “A partir daí, muitos dos seus discípulos voltaram para trás e já não andavam com Ele. Então, Jesus disse aos Doze: «Também vós quereis ir embora?» Respondeu-lhe Simão Pedro: «A quem iremos nós, Senhor?»” (Jo 6, 66-68).

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.