Desde que o sistema Volta começou a funcionar e a atribuir um valor de depósito às garrafas e latas de bebidas, já há quem fale de uma nova realidade: a “mineração do lixo”. A expressão é dura, mas talvez seja a mais apropriada para descrever o que começa a acontecer nas nossas cidades: pessoas que percorrem ruas, contentores e ecopontos à procura de embalagens que podem ser trocadas por dinheiro. Não procuram resíduos; procuram valor. Procuram alguns cêntimos que, somados ao longo do dia, podem fazer a diferença entre comer ou não comer.
O sistema Volta nasce para incentivar a reciclagem de embalagens e promover uma economia mais circular. É uma boa medida. Mas trouxe consigo um efeito inesperado: tornou visível uma realidade que muitos preferiam ignorar. E esta pode ser uma oportunidade para educar o nosso olhar. A recente encíclica Magnifica Humanitas, de Leão XIV, recorda que a justiça social exige «um olhar a partir dos últimos». E é precisamente isso que o sistema Volta nos obriga a fazer.
Talvez o problema não seja a chamada “mineração do lixo”. O problema é que só agora reparamos em quem vive dela. As embalagens ganharam valor económico e, de repente, ganharam também visibilidade as pessoas que dependem desse valor. Não foi a pobreza que apareceu, fomos nós que deixámos de conseguir ignorá-la.
Mas olhar não basta. Se estas pessoas passaram a ser mais visíveis, a nossa resposta não pode ser apenas de curiosidade, desconfiança ou incómodo.
É precisamente aqui que a ecologia integral deixa de ser um conceito abstrato. Não existe verdadeira resposta à crise ambiental sem enfrentar também a crise social. Uma política pública pode contribuir para proteger o ambiente e, simultaneamente, revelar as desigualdades que atravessam a sociedade. As duas dimensões nunca estão separadas.
Mas olhar não basta. Se estas pessoas passaram a ser mais visíveis, a nossa resposta não pode ser apenas de curiosidade, desconfiança ou incómodo. Também não podemos transformar a pobreza num espetáculo de rua ou estas pessoas em mais uma categoria a gerir. O primeiro passo é reconhecer nelas aquilo que muitas vezes esquecemos: pessoas com uma dignidade que não depende do que têm, do lugar onde vivem ou do que procuram nos contentores. A pobreza não lhes retira direitos, nem deve determinar a forma como são olhadas. Como tão bem nos recorda o papa Leão XIV, a justiça social não se limita às escolhas individuais: exige também estruturas capazes de permitir «a todos, em particular aos mais fracos, uma vida verdadeiramente humana, sem que ninguém fique para trás.». (final do 77 – magnifica humanitas)
E talvez seja aqui que começa o verdadeiro desafio. Perante alguém que recolhe embalagens, a resposta não deveria ser apenas facilitar-lhe o acesso aos cêntimos do depósito, mas perguntar porque precisa(m) deles. O sistema pode funcionar melhor, os pontos de recolha podem ser mais acessíveis e as políticas sociais podem acompanhar quem se encontra em situação de maior vulnerabilidade. Mas, diria (que acima de tudo), precisamos de construir uma sociedade onde recolher garrafas seja uma escolha e não uma necessidade. A reciclagem pode devolver valor às embalagens. A nossa responsabilidade é garantir que esse valor não seja a única coisa que conseguimos reconhecer nas pessoas que as recolhem.
A verdade inconveniente é esta: um sistema criado para reciclar embalagens acabou por reciclar também o nosso olhar. Mostrou-nos pessoas que sempre estiveram ali, mas que aprendemos a não ver. A pergunta mais importante já não é o que fazemos às garrafas. É o que fazemos às pessoas que, por necessidade, vivem do seu valor.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
