Eram horas de almoço e Mariana foi deixar o carro à oficina. Até ao escritório eram 20 minutos a pé e pensou: ”vai saber-me bem, há que tempos que não faço uma caminhadazinha.” Era Verão e, logo ao virar da esquina, o calor já apertava. Mariana não esperava que a temperatura estivesse tão alta e já pensava em chamar um Uber. “Para que é que eu me meti nisto? Agora vou chegar ensopada ao escritório, não me dava jeito nenhum”. Já sentia o rosto quente, estava a começar a suar e tudo justificava o carro, mas lembrou-se que não fazia exercício há muito tempo e quis continuar.
A brisa fala-nos sempre
A certa altura soprou uma brisa. “Que bom!” pensou Mariana. E, pela rua fora, aquele ventinho cada vez a refrescava mais. Respirava fundo e aproveitava a sensação. Mais confortável com a passeata e praticamente indiferente ao calor, Mariana pôs-se a pensar. “Se eu não tivesse dado atenção à primeira brisa, se calhar já tinha desistido deste passeio…” e ia discorrendo, livre, pelo caminho que agora até lhe parecia mais curto, de tão bem que se sentia. “Ainda bem que não estou num carro, isto é muito melhor. E eu que só estava a refilar com o calor…” Ainda faltavam uns bons quarteirões até ao fim do caminho e Mariana foi andando, despreocupada e alegre por estar a viver aquele momento. Estava o mesmo calor de ananases e ela sentia-o, mas tinha deixado de ser incómodo. Espantou-se. A sensação tão agradável que a brisa lhe trouxera tinha transformado aquele passeio.
A cada coisa sua importância
“Nunca pensei que uma brisa tivesse tanto poder”, matutava Mariana. “Isto até dava uma história: o poder da brisa”, e riu, de si para si. Sentiu-se grata e riu um pouco mais para dentro, divertida. Na verdade, riu de si própria por se ver a querer agradecer um fenómeno da Natureza. Não que tivesse alguma coisa contra, só não achava suficiente e, rapidamente, voltou ao seu eixo. “Ó Deus, bem sei que quem fez isto tudo foste Tu, sempre perfeito, meu Senhor”. E foi louvando Deus por esta constatação. O seu pensamento corria solto e a certa altura viu-se a rezar. “Isto de eu estar a ligar mais à brisa do que ao calorão que está hoje, tem que se lhe diga. Até acho que se pode transportar para qualquer coisa na vida. Acho que me vou perguntar mais vezes: em que me concentro? O que me dá gosto ou o que me irrita? É uma escolha, afinal…”
Ele conhece tudo
Mariana tinha uma fé estruturada e um dos seus trunfos era ter o acompanhamento de um diretor espiritual que lhe ensinara a rezar qualquer coisa. “Tudo pode ser matéria de oração, deixe o pensamento voar, reze por tudo e por nada”, dizia com sentido de humor. Foi uma frase que Mariana interiorizou desde o primeiro momento. “Lembre-se que rezar é conversar com Deus e Ele sabe tudo, conhece tudo, mesmo o que ocorre fora das suas linhas”, era o resto do ensinamento que Mariana tinha sempre presente. A sua forma de rezar preferida era aquela e cada vez estava mais contente por ter resolvido ir a pé. Silenciou um pouco. Também sabia que, por vezes, se fala demais quando se reza assim, desta maneira desprogramada. Sobretudo quando uma pessoa se entusiasma com alguma descoberta e, de facto, estavam a abrir-se caminhos dentro de Mariana. Pouco depois, os pensamentos voltaram a encadear-se, o que fez Mariana sentar-se num banco da rua, pois o seu escritório estava muito próximo e ainda tinha tempo até ao fim da hora de almoço. Achou que mais valia deixar a oração fluir do que aproveitar aqueles dez minutos para almoçar. Percebeu que aquela opção significava que escolhera não se centrar em si própria e nas suas necessidades básicas. “E foi uma escolha livre, eu quero mesmo continuar a ouvir-Te”, rezava ela. E silenciou outra vez.
As escolhas, sempre as escolhas
Aquela oração não terminou ali. Para Deus não há tempo e os dez minutos que Mariana roubou ao tempo que tinha para almoçar não chegaram para ouvir tudo o que Deus tinha para lhe dizer sobre a questão das escolhas. “Mas o que está na base das boas escolhas? Das que, depois, mesmo sendo um salto no escuro, nos realizam, nos fazem felizes?”, queria Mariana aprofundar. Lembrou-se que se fala muito na importância das escolhas. A ponto de ser tema de publicidade a uma marca de café, mas quase sempre pela rama. Mariana não se ficava pela rama, queria sempre ir mais longe e mais ao fundo.
E a resposta vem
Estava na hora. Levantou-se, ainda a questionar a base de uma boa escolha e dirigiu-se ao escritório. Aos poucos saía daquele estado de matutação (se é que esta palavra existe), para chegar a horas, desempenhar as suas tarefas, etc. etc. etc. Cumprimentou o porteiro, deu boa tarde às pessoas que estavam no elevador, lembrou a recepcionista que daí a pouco ia ter uma reunião na sala Oceano e foi para o seu lugar. Logo que se sentou intuiu: “uma escolha tem de ser livre e a liberdade também depende de não se estar concentrado apenas em si próprio”.
Em segundos, o que tinha vivido na última hora e meia passou como um filme no seu interior: esforçara-se por não se atrasar a entregar o carro na oficina por respeito ao mecânico, estava à espera disso para só depois ir almoçar; não achara dramático que o carro só ficasse pronto daí a dois dias; tinha decidido aproveitar para fazer uma caminhada; sentiu a força da brisa que soprava suave e percebeu: o seu Senhor dava-lhe a certeza de que, para escolher aquilo que a fazia feliz, tinha de sair de si própria e desconcentrar-se daquilo que lhe trava a oração. Emocionou-se e, em agradecimento, começou a rezar um Pai Nosso. Estava tão absorvida que se assustou quando a sua extensão tocou. Era a visita que esperava para a tal reunião na sala Oceano. Correndo o risco de poder estar a exagerar naquilo que é “ver sinais de Deus em tudo”, Mariana terminou o Pai Nosso e, pelo corredor, ainda rezou alegremente: “isto é tudo um mar infinito e agora vou para a sala Oceano. Deves ter mais para me dizer sobre isto de sair de mim, meu Deus. Amanhã fecho-me ali na igreja e dizes-me mais coisas”. Quando chegou à sala de reuniões, Mariana sentia-se com mais vida pela frente, com mais fé e a viver mais despreocupadamente. Sorriu para dentro, para o Deus que estava no seu coração, e conduziu aquela reunião com muita competência. Tinha crescido.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
