Há cada vez mais mistério - Ponto SJ

Há cada vez mais mistério

A busca não nos leva a um prémio, é do caminho que vamos exercitando o espanto, e quanto mais nos rendemos a essa magia, mais mistério se revela.

Começo por uma curta declaração de intenções, de uma posição de observação e escuta, de alguém que procura compreender o seu lugar e a razão de tudo isto:  à medida que me é permitido viver um dia após o outro confirmo que há cada vez mais mistério.

Começo pelo princípio.

Quando fiz, pela primeira vez, os Exercícios Espirituais, em 2024, com o P. Luís Onofre Pinto, sj na Casa de Retiros de Santo Inácio, estávamos no tempo da Páscoa. A frase inaugural no meu caderno de apontamentos foi a seguinte: ‘colocar-me perante a surpresa de Deus’. Jamais supus um Deus de surpresas. A esta declaração, escrevi duas perguntas: ‘o que é ser espiritual?’, ‘em que acredito?’.

Inscrevi-me no retiro para procurar certezas e não encontrar dúvidas e surpresas. No entanto, gosto de um desafio de pensamento, filosofia e lógica, puxei pela argúcia de jornalista, coloquei-me, qual detetive, na pista da surpresa, ou, podemos dizê-lo, de um mistério. De um lugar onde a Ciência não calcula probabilidades, ou algoritmos, num espaço livre, de contemplação natural, que nos é dado, gratuitamente, de forma espantosa. Acedemo-lo como crianças que acreditam na magia, como a inexperiente paixão dos primeiros amantes, com a vontade de futuro de um feijão que dorme no algodão húmido, como a miragem dos que atravessam o deserto.

Recorro-me às fontes. Em O Elogio da Sede, José Tolentino Mendonça inicia o livro com a premissa de nos colocar no lugar de ‘aprendizes do espanto’ e com as palavras do Evangelho de São João: «espanta-te ainda», «espanta-te mais uma vez». Levante a mão quem nunca se achou, em certo momento da sua vida, tão sabedor, conhecedor, ‘eu já sei tudo’, ‘já vi tudo’ – é aí que somos «desarmados» e «desarrumados» pelo espanto. Já havia aqui partilhado o meu caminho de luto e de abertura à Fé. A perda, em rápida sucessão, do meu Pai e irmão, duas pessoas que tanto amava e continuo a amar, deixou-me literalmente desmanchada, sem defesa, amputada. Um desamparo como nunca vivi, onde me senti «a descer uma íngreme escada sem corrimão». E desse lugar, onde parecia não haver saída, senti a vontade de mistério, recusei-me à autocomiseração, à vitimização. Escolhi a surpresa, o olhar da criança para o mágico! Senti a sede, recusei o peso e procurei a leveza. Recorrendo a Fernando Pessoa, segundo nos diz Tolentino, para ver a realidade como ela é, precisamos de ‘aprender a desaprender’. «Desaprendamos então para apreender aquela graça que possibilitará a vida dentro de nós». Esse ‘desaprender’, para quem tem em Deus a sua raiz, exprime-se e tem uma voz: «Senhor, eu estou aqui à espera de nada».

E desse lugar, onde parecia não haver saída, senti a vontade de mistério, recusei-me à autocomiseração, à vitimização. Escolhi a surpresa, o olhar da criança para o mágico! Senti a sede, recusei o peso e procurei a leveza.

‘Ora aí está!’ – digo eu de lupa colada ao meu olho, ou como um cão farejador de pistas. É este o lugar do mistério. Onde me rendo da espera, e tudo se torna a surpresa. Este é o lugar da Fé, inabitado pela Ciência, o lugar da mística, de uma pureza de intenções, sem nada esperar em troca.

Deixo a advertência, numa única alínea: este não é um lugar imune à dor. Pelo contrário, é um caminho vincado de dor e tempo. Acedendo ao mistério, em consciência, acordados em cada instante, em cada pedaço de caminho, nascemos e renascemos várias vezes, na mesma vida. Como a fita de uma cassete, grava e avança, não para, não faz rewind, nem grava por cima. Tudo segue num sentido, unidirecional. Corpo, sentimentos e emoções acedem a um lugar, simples e complexo.

O luto é uma força invencível, que da morte traz uma mensagem de vida. A morte acontece porque há vida. Simples e complexo. A Páscoa é, desde há muito, a minha festividade preferida. Traz-me as primeiras memórias de infância, das férias em casa dos meus tios em Arouca, das cameleiras a rebentar de flores, de apanhar salamandras no rio, do açúcar dos melindres e da sopa no prato, num plano inclinado a 15 graus, conforme o chão da casa de jantar. Esta última Páscoa passeia-a na Ilha de São Miguel, nos Açores, com o meu filho. Numa celebração magnífica de vida sobre a morte, de comemoração da natureza e da rendição ao mar e à rocha, e da absoluta certeza da nossa fragilidade. Paixão, morte e ressurreição.

Para me ajudar, depois, a compreender a natureza da dor, servi-me do guia Reflexões sobre a Dor de Umberto Eco, onde o autor aproxima-se da noção de «aprender a ser-para-a-dor, alfabetizarmo-nos a esse respeito», concluindo que «sabendo do que estamos a sofrer, sabemos resistir melhor». Na sua perspetiva, a dor é um fenómeno universal, como a presença do mal do mundo. Umberto Eco analisa a dor na filosofia romântica, e o sofrimento como via para o conhecimento. A «cognição da dor»:  qui auget scientiam, auget et dolorem, ou seja, «quem aumenta o grau de consciência acrescenta também o seu sofrimento». Com as devidas ressalvas, não estou a fazer um exercício de ‘regularizar’ a dor em situações de doença ou em extremo sofrimento. Como curiosa investigadora e colecionadora de opiniões, agarrei-me à ideia do ‘sofrimento como um caminho para a criação’, tal como Eco refere: «o saber exige uma descida do pensamento aos infernos.» Já Eça de Queiroz havia dito algo do género, que ‘para escrever era preciso sofrer’.

Schopenhauer aborda a dor como uma consequência do simples facto do ‘desejo de viver’: «Quanto mais se anseia viver, tanto mais se sofre. Não existem remédios definitivos para escapar à dor, porque ela está conectada à nossa própria materialidade». Nietzsche advoga a «ligeireza, a dança, mesmo nos aspetos mais trágicos da vida» com que se convive com o sofrimento, «a ligeireza que convive com o sofrimento, mas que não lhe imputa nenhuma culpa. Faz parte da vida: é o amor fati (o amor pelo destino). Dizer sim à existência tal como ela é. «Cada sim à alegria contém um sim à vida e, portanto, também ao sofrimento: alegria e dor estão entrelaçadas».

Filósofos, escritores, pensadores, poetas, cardeais, teólogos, cada um, à sua maneira, buscam e cultivam o mistério. O espiritual. Em que acredito? Não há um limite, definitivo, um fim, um início, mas um continuum. A busca não nos leva a um prémio, é do caminho que vamos exercitando o espanto, e quanto mais nos rendemos a essa magia, mais mistério se revela. Até ao transcendente, até ao infinito e mais além. Tal como uma criança que sonha voar.

«Angels can fly because they take themselves lightly. Solemnity flows out of men naturally, but laughter is a leap. It is easy to be heavy, hard to be light. Satan fell by the force of gravity. Moderate strength is shown in violence. Supreme strength is shown in levity».

G. K. Chesterton

 

 

 

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.