Santo Inácio de Loyola propõe-nos, de modo muito claro, o desejo de ver Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus. Tendo como desejo mais profundo seguir Jesus, de modo pleno e apaixonado, fico muitas vezes confusa com o que sentir face a alguns acontecimentos do mundo e, particularmente, do nosso país. Sinto que muitas vezes rezamos uma coisa e vivemos outra.
Em temas utilizados como bandeira, que aparentemente permitem ganhar votos, como os migrantes, os ciganos e a família, ajuda-me olhar, com o olhar do Cristo Crucificado, para estas realidades. Na verdade, sinto que é o único olhar possível. O Jesus migrante, o Jesus cigano, o Jesus da família imperfeita, o Jesus que afirma que vem para todos.
Sendo a missão principal da minha vida a família, este é um tema que me toca particularmente. Eu que tenho uma família multicolor, sinto que há dois pesos e duas medidas. Se tantos cristãos batem no peito dizendo que a família é a célula mãe da sociedade, como é possível que para as famílias dos migrantes possamos pedir dois anos, mais 18 meses para a decisão, mais pedidos num país de origem, muitas vezes por familiares iletrados e em países que vivem tão abaixo do limiar da pobreza ou mesmo em guerra? Haverá famílias de primeira, perfeitas e que vão juntas à igreja ao domingo, e famílias de segunda, que, por serem diferentes, merecem estar três anos separadas? Haverá maior estabilidade num migrante que vive sem a sua mulher e sem os seus filhos? Indignamo-nos com uma lei que não conhecemos ou com o incumprimento da lei que existe? A lei atual não é suficiente? Quantos de nós já lemos o que está atualmente legislado no que diz respeito ao reagrupamento familiar?
Queremos aumentar a natalidade, mas restringimos os direitos das mães, só de algumas mães, que outras, que não podem por algum motivo amamentar, nem sequer são chamadas a este assunto. Queremos ser liberais e apontamos o dedo aos países nórdicos, mas não olhamos para eles neste aspeto social tão importante para a família: o cuidar da criança, seja na amamentação seja no tempo que lhe damos enquanto pais durante a sua infância.
Criticamos os imigrantes, que chegam em busca de uma vida melhor e da possibilidade de dar um futuro aos seus filhos. Que trabalham e mandam metade do dinheiro para que as famílias possam sobreviver. Mas não criticamos alguns intermediários que recebem dinheiro para trazer pessoas em desespero, e a quem os migrantes ficam com dívidas enormes. As ditas empresas que negoceiam mão-de-obra como se de gado se tratasse. “-Este não serve, veja lá se tem lá outro. -Vou ver o que tenho”. Fiquei gelada a primeira vez que ouvi este tipo de conversa.
Parecia-me estar num filme americano, daqueles antes da guerra civil em que os negociantes de escravos mostravam os dentes para ver se servia, mas estava no Alentejo. Todos temos amigos ou conhecidos, que contratam estas empresas, e que dizem que pagam o que é de direito, mas não sabem o que quem trabalha recebe, lavamos as mãos porque foram “os outros” que fizeram o contrato, mesmo sem ter a certeza se esse contrato existe.
Gosto de imaginar que os migrantes faziam todos greve em Portugal. Uma greve geral de migrantes e o país parava. Mas como não são cidadãos portugueses provavelmente não têm direito à greve. Tudo de mal no nosso país é culpa dos migrantes: não temos médico de família, culpa dos migrantes, não temos lugar na escola para os nossos filhos, culpa dos migrantes, mas temos fruta na mesa, escritórios limpos, vinho bom e hotéis cheios, não sei bem, mas provavelmente será culpa dos migrantes.
Criticamos que não aceitem a nossa cultura, mas, rapidamente, dizemos que não sabemos se vivem 30 numa casa. Na verdade, justificamos muitas vezes com “na terra deles estão piores”. Para as condições de habitação prevalece a cultura deles, mas para a aparência já devem viver de acordo com a nossa cultura. Criticamos a religião, mas esquecemos que nós, quando fomos para a terra deles, os tentámos converter a todos à nossa religião, à nossa cultura e à nossa língua.
Gosto de imaginar que os migrantes faziam todos greve em Portugal. Uma greve geral de migrantes e o país parava. Mas como não são cidadãos portugueses provavelmente não têm direito à greve. Tudo de mal no nosso país é culpa dos migrantes: não temos médico de família, culpa dos migrantes, não temos lugar na escola para os nossos filhos, culpa dos migrantes, mas temos fruta na mesa, escritórios limpos, vinho bom e hotéis cheios, não sei bem, mas provavelmente será culpa dos migrantes. Até não temos sangue e a culpa é dos migrantes, esquecendo que se sangue é vida, todas as vidas valem o mesmo aos olhos de Deus. Este bode expiatório que nos distrai e nos torna acérrimos defensores da nossa pátria, o país vai-se entretendo, sem pensar em soluções reais para os problemas, que continuam a existir e que corremos o risco de se arrastarem no tempo por não serem olhados na sua essência.
Queremos que as famílias ciganas mandem os filhos à escola, mas arrepiamos e pedimos para o nosso filho mudar de turma se tiver muitas crianças ciganas ou migrantes na sala. Continuamos a pedir para o nosso filho ficar na “turma boa”, das crianças normais e sem problemas… Nas turmas más, onde se juntam os miúdos com problemas, os professores desanimam, os miúdos, ciganos e não ciganos, não aprendem, portam-se mal. E depois, até tínhamos razão, porque ficaram numa turma má, em que só houve confusões. “Eu bem disse, no próximo ano temos de pedir para o nosso filho mudar de turma”. Criticamos que os ciganos recebam o RSI, porque nunca descontaram, mas todos nós tentamos fugir, de algum modo, a algum imposto. Criticamos que o cigano tenha um Mercedes, mas quantos de nós temos carros topo de gama e pedimos apoio para os nossos filhos na escola? Vamos de Mercedes e temos um MAC, mas pedimos um computador para o nosso filho, só porque sim. Os sinais aparentes de riqueza só devem ser avaliados nos ciganos, ou devem ser avaliados em todos os portugueses?
Muitos destes temas, quando não nos agradam, são apontados como agenda ideológica da esquerda. Não sou de esquerda, mas sou cristã e entristece-me que estes temas, que fazem parte da doutrina social da igreja, não sejam por todos nós rezados à luz da mensagem de Cristo, apenas porque os rotulamos como “ideologia de esquerda”. Se nos comprometemos a lutar pela justiça e pela verdade, temos pelo menos de começar a olhar para a realidade como ela é e sem os óculos turvos pelos preconceitos.
Quando bato no peito não quero ter a culpa de não ter a liberdade de olhar e falar, porque posso ser rotulada ou conotada com um partido ou outro. Quero ter a liberdade de olhar com os olhos de filha de Deus que olha todos como filhos do mesmo Pai. Sem este olhar misericordioso, rezo uma coisa e vivo outra, e vivo desunida e sem identidade com Jesus. O único rótulo com que quero morrer é o de tentar viver debaixo da bandeira de Cristo, assim o consiga.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
