Um pouco de educação mediática, precisa-se! - Ponto SJ

Um pouco de educação mediática, precisa-se!

É preciso saber distinguir os vários estilos jornalísticos, da notícia à reportagem, passando pela entrevista ou crítica. Aprende-se na escola, falta aplicar na vida.

Assistimos impávidos a um ataque constante aos jornalistas. Este é feito à porta fechada quando, por exemplo, entrevisto alguém que antes de começar me diz num tom paternalista: “Veja lá o que vai escrever…” e, quando terminamos, se despede com um “agora cuidado, olhe que respeito muito o seu trabalho”.

Bom, se respeitasse eu não precisava de ouvir essas salvaguardas porque o meu trabalho é escrever o que me dizem. O mais curioso é, depois da entrevista publicada — estou a falar de um estilo jornalístico, a entrevista, que consiste num texto que plasma uma conversa feita de pergunta (eu pergunto) e resposta (o entrevistado responde) — receber um telefonema com “não foi isso o que eu disse”. Foi, porque está gravado. “Mas não foi isso que eu quis dizer…” Ah, então, não mate o mensageiro e assuma o seu erro.

Mas não é isso que o entrevistado faz. A seguir vai dizer “ai, os jornalistas são terríveis, tiram as palavras do contexto…” E isto, caro leitor, até pode acontecer, tirar as palavras de contexto, mas dificilmente numa entrevista. Acontece, por exemplo, numa notícia quando ouço uma ou mais pessoas sobre um mesmo tema e construo um texto a partir dessas conversas, que surgem porque há, por exemplo um anúncio do Governo, uma sondagem ou um estudo da OCDE para noticiar e contextualizar.

Convém sempre que a notícia seja equilibrada e, por isso, ouço quem concorda e quem discorda, de maneira a que o leitor possa fazer também a sua análise. Muitas vezes ouvimos argumentos novos, inesperados ou sobre os quais nunca tínhamos pensado. E esta é “a” mais-valia e é o que revela porque é importante o trabalho do jornalista.

Isto porque o jornalista não é caixa de ressonância, mas ajuda o leitor, o espectador ou o ouvinte a pensar.

Isto porque o jornalista não é caixa de ressonância, mas ajuda o leitor, o espectador ou o ouvinte a pensar. O jornalismo, sobretudo o escrito, é especializado — existem jornalistas de política, economia, saúde, educação, desporto, lifestyle —, feito por profissionais conhecedores e críticos que, à partida, são mais difíceis de enganar pelo emissor. Por exemplo, a memória é muito importante, quantas vezes os políticos anunciam medidas que não são novas, têm só uma roupagem ligeiramente diferente? Está lá o jornalista especialista para o lembrar.

Quando eu escrevia sobre educação, recordo-me de uma colega da televisão, excelente profissional, que chegava com o seu cameraman a uma conferência de imprensa no Ministério da Educação, no Conselho Nacional de Educação ou a uma manifestação de professores, dirigia-se a mim, à colega da Lusa ou à do Jornal de Notícias, todas nós “especialistas”, e perguntava: “Qual é a notícia?”

Atitude semelhante tinha eu quando era enviada para cobrir um tema sobre o qual percebia pouco. Assim que identificava os camaradas especialistas, era a eles que perguntava “o que há de novo?” Depois, chegada à redacção, ia ler e aprofundar, e em caso de dúvida, ligar a quem me pudesse esclarecer. Este procedimento ajuda-nos a não errar e a dar a notícia o mais correcta e actualizada possível.

Este é o trabalho do jornalista, um trabalho que está a ser atacado por todos os lados, das caixas de comentários das notícias às redes sociais. Ataques de políticos — o exemplo mais grosseiro é o de Trump que acusa todos os órgãos tradicionais de difundirem fake news e faz sentar jornalistas ao lado de influencers e tiktokers de extrema-direita, na sala de imprensa da Casa Branca.

Como dizia em cima, um jornalista não é uma caixa de ressonância, não ouve acriticamente e reproduz. Ouve, vai investigar, vai ouvir, vai ler, etc., etc. e só depois escreve ou faz a sua peça para a rádio, televisão ou redes sociais. Daí se chamar à comunicação social o “quarto poder”, porque fiscaliza e isso é um aborrecimento para quem quer impingir uma narrativa que não corresponde à realidade. Veja-se a quantidade de jornalistas mortos por Israel e por outros países onde o jornalismo é realmente incómodo.

A partir do momento em que um político, um economista, um professor universitário, um sindicalista põem em causa o trabalho do jornalista — “veja lá o que vai escrever… olhe que não foi isso que eu queria dizer… não se pode confiar num jornalista…” — qualquer um se sente no direito de o fazer e de, com toda a confiança, insultar o jornalista. Lembram-se há um ano de uma jornalista ter sido agredida por manifestantes de extrema-direita em Espanha, enquanto fazia um directo?

Há umas semanas, ouvia um podcast de gastronomia cuja convidada era a jornalista Cláudia Lima Carvalho, uma especialista na área (sim, há jornalistas especializados em tudo, inclusive relógios) e o chef Alexandre Silva insurgia-se contra o jornalismo, confundindo-o com comentário ou crítica gastronómica. Pacientemente, a jornalista explicou-lhe a diferença: o jornalista escreve sobre a crise na restauração ou a abertura de um restaurante, um crítico escreve sobre o que comeu nesse novo restaurante. Daí a pouco, o chef voltava a bater na mesma tecla. A informação não passou.

De alguma forma, eu compreendo a confusão. Afinal, aqui estou eu, jornalista, não a dar uma notícia, mas a escrever uma opinião. Portanto, uma mesma pessoa pode escrever um texto noticioso com toda a isenção, mas pode ter uma opinião sobre o tema e ser convidada a emiti-la.

Quem lida com mais frequência com a comunicação social não pode fazer essas confusões, não pode juntar tudo no mesmo saco, tem de saber distinguir e olhar para o profissional com respeito, concorde ou não com ele. Não confundindo a mensagem com o mensageiro.

Contudo, quem lida com mais frequência com a comunicação social não pode fazer essas confusões, não pode juntar tudo no mesmo saco, tem de saber distinguir e olhar para o profissional com respeito, concorde ou não com ele. Não confundindo a mensagem com o mensageiro.

E estes parágrafos todos para chegar a Cristiano Ronaldo — merecedor de todos os elogios por ser o maior embaixador que temos, já estive em sítios onde não sabiam onde ficava Portugal, mas sabiam quem era CR7. Ao fim de várias décadas, o jogador que mais tem de saber lidar e respeitar a comunicação social. Não pode tratar os jornalistas com arrogância, para não dizer, com falta de educação, só porque confunde jornalismo com comentário desportivo.

No Mundial, no fim do primeiro jogo de Portugal, foram os comentadores que chamaram de tudo ao jogador, que disseram que estava velho, acabado, que Martínez estava a destruir uma jovem equipa na teimosia de manter Ronaldo a jogar. Contudo, no final do segundo jogo, foram os jornalistas que levaram com as reacções do futebolista, os seus maus modos e as acusações à comunicação social, desvalorizando-a, maltratando-a.

Se Trump e Ronaldo podem, qualquer um pode descredibilizar o papel do jornalismo e achar que é indiferente o que estes profissionais fazem, aliás, até a Inteligência Artificial os pode substituir!

É preciso saber distinguir os vários estilos jornalísticos, da notícia à reportagem, passando pela entrevista ou pela crítica. Aprende-se na escola, falta aplicar na vida. Assim como é preciso diferenciar os papéis de cada um na comunicação social — um jornalista não opina, a não ser que lhe seja pedido e faça essa salvaguarda, “agora estou aqui a dar a minha opinião”. E, sobretudo, é preciso respeitar estes profissionais porque acabando com o jornalismo, com a investigação que nos revela quem ganha com tudo isto, anula-se o tal quarto poder e a democracia fica em risco. Estamos dispostos a correr esse risco?

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.