Tolkien e a responsabilidade de fazer o que nos for possível - Ponto SJ

Tolkien e a responsabilidade de fazer o que nos for possível

Tolkien, teólogo da esperança? A sua teologia, mais contada do que explicada, enraizada na convicção de que a criação ferida permanece orientada para a salvação, convida o ser humano a fazer o possível para edificar a civilização do amor.

A propósito da citação do autor católico John Ronald Reuel Tolkien (1892-1973), na encíclica Magnifica Humanitas, pretendo contribuir para o modo como podemos compreender a nossa atuação no mundo, ou seja, os fundamentos que nos levam a reforçar o sentido de responsabilidade do agir cristão em cada circunstância da vida.

Tolkien é referenciado por Alister McGrath, em Christian Theology, a propósito da discussão sobre a teologia narrativa. (Cf. McGrath e Thomas 2025, 133) Sabendo que não se trata de um teólogo em sentido estrito, poder-se-á falar de um teólogo implícito, cuja reflexão sobre Deus, a sua perspetiva sobre a criação e a redenção se expressam, sobretudo, por via narrativa. A sua teologia não é tanto concetual, mas compreende-se como um serviço à verdade por meio da história e do mito, visto que «o mito é a verdade». (Flieger e Anderson 2008, 81)

Tolkien compreendeu a necessidade de criar uma mitologia que servisse de prefiguração ao Evangelho.

Foi através do padre jesuíta Francis Xavier Morgan (1857-1935) que Tolkien, no Oratório de Birmingham, teve acesso ao pensamento de São John Henry Newman, o qual, sem dúvida, influenciou a sua criação literária, particularmente no que diz respeito à apologia da visão católica da história. Segundo Newman, existem duas dimensões da revelação: uma revelação objetiva que se encontra na Bíblia; e uma revelação subjetiva ou natural, que fala ao coração humano através da consciência e da natureza. É neste contexto que os mitos da Antiguidade podem ser considerados como “ecos” de uma verdade divina original dada à humanidade. Partindo deste pressuposto, Tolkien compreendeu a necessidade de criar uma mitologia que servisse de prefiguração ao Evangelho. É nesse horizonte que a sua obra pode considerar, entre outros, duas dimensões teológicas que passo a evidenciar: sub-criação e eucatástrofe.

A primeira baseia-se na ideia de sub-criação. Tolkien vincula este conceito à convicção de que a verdade da revelação cristã está prefigurada nas histórias dos povos pré‑cristãos. Esta posição sustenta-se na tradição teológica que, desde a tradição patrística, presente em Agostinho e Tomás de Aquino, assume a convicção de que imediatamente derivados da unicidade do Deus criador estão os vestígios da sua bondade presentes na obra da criação. A queda original, embora tenha corrompido a humanidade, não apagou totalmente a Imago Dei. Na cosmogonia do Silmarillion a “chama imperecível” (ou Anar Narya) representa o poder criativo e vital de Eru, o Uno. Esta chama está no “coração” do mundo não como um objeto físico que possa ser encontrado, mas como a presença da vontade divina que sustenta a existência. Este centro do mundo é recordado em The Lord of the Rings quando Gandalf declara, na Ponte de Khazad‑dûm, que é servidor do fogo secreto, “portador da chama de Anor”.(Tolkien 2008, 430)

O conceito de sub-criação afirma que a criação humana (arte, literatura, etc.) é uma imitação da ação criadora de Deus. Assim como as crianças tendem a imitar os seus pais, também a humanidade procura imitar o Deus criador através das suas diversas realizações. Pelo facto de o ser humano ser criado à imagem de Deus, participa, de modo derivado e analógico, da criação-criatividade divina através da realização artística. Pertencem, também, a este universo criacional os mundos ficcionais coerentes em cujas narrativas estão presentes fragmentos da verdade eterna. A atividade artística não pode, por isso, ser considerada como um mero exercício estético. Assume uma dimensão eminentemente teológica tendo no mito um potencial elemento de desvelamento da verdade.

Esta dimensão teológica da sub-criação sublinha a responsabilidade do ser humano face ao criado. Na recente Encíclica Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV, ao referir-se ao empenho do homem em construir a civilização do amor não hesita em citar Tolkien:

John Ronald Reuel Tolkien, um escritor católico do século XX, através das palavras de um protagonista dum seu romance, descreveu assim a nossa responsabilidade: «Não nos compete dominar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que nos for possível para ajudar os anos em que estamos inseridos, erradicando o mal nos campos que conhecemos para que quem viver depois possa ter terra limpa para amanhar». (Papa Leão XIV 2026, n. 213)

A civilização do amor tem na sua raiz o dinamismo da esperança. Quer isto dizer que a responsabilidade do homem cristão se fundamenta numa leitura sapiencial da história. «Os cristãos – escreve o Papa – veem as trevas e chamam-nas pelo nome, mas não ficam parados a contemplá-las». Interpretam o presente não com um «destino fechado, mas como um campo aberto à conversão pessoal e coletiva»; contemplam «a história à luz do crucificado ressuscitado. (Cf. Papa Leão XIV 2026, n. 210)

A Encarnação e, sobretudo, a Ressurreição de Cristo são, para Tolkien, os acontecimentos que dão sentido último à história humana.

Esta forma original de interpretar a história encontra-se no pensamento teológico de Tolkien através do conceito de eucatástrofe, ou seja, a reviravolta inesperada do mal para o bem. No seu ensaio On Fairy-stories forja o sentido deste conceito identificando-o com a «consolação do Final Feliz» e caracterizando-o do seguinte modo:

A consolação dos contos de fadas, a alegria do final feliz: ou, mais precisamente, da boa catástrofe, a súbita e alegre “reviravolta” (pois não há um verdadeiro fim para nenhum conto de fadas): essa alegria, que é uma das coisas que os contos de fadas sabem produzir com maestria, não é essencialmente “escapista” nem “fugitiva”. No seu cenário de conto de fadas — ou de outro mundo —, é uma graça súbita e milagrosa: nunca se pode contar com sua recorrência. Não nega a existência da discatástrofe, da tristeza e do fracasso: a possibilidade destes é necessária para a alegria da libertação; nega (diante de muitas evidências, se quiserem) a derrota final universal e, nesse sentido, é um evangelho, oferecendo um vislumbre fugaz da Alegria, Alegria além dos muros do mundo, pungente como a dor. (Flieger e Anderson 2008, 83)

 

Esta reviravolta para o “final feliz” é parte integrante de uma visão da história que se identifica com o núcleo mais profundo do mistério cristão. A Encarnação e, sobretudo, a Ressurreição de Cristo são, para Tolkien, os acontecimentos que dão sentido último à história humana. “O Nascimento de Cristo é a eucatástrofe da história da humanidade. A Ressurreição é a eucatástrofe da história da Encarnação. Essa história começa e termina na alegria.” (Flieger e Anderson 2008, 83)

A meta narrativa da história salvífica é a grande guia da literatura imaginativa de Tolkien. Os seus escritos estão profundamente ancorados nesta estrutura pascal: a vitória não nasce do poder ou da força, mas da humildade, da misericórdia e do sacrifício. Nesse sentido, The Lord of the Rings não sendo uma alegoria cristã direta, não deixa de transparecer esta visão teológica da história.

A esta luz, Tolkien pode ser entendido como um teólogo da esperança. A sua insistência na piedade, no perdão e no respeito pela vida revela uma teologia enraizada na convicção de que a criação, apesar de ferida, permanece orientada para a redenção. A sua teologia, mais contada do que explicada, convida o homem a fazer o que lhe for possível para edificar a civilização do amor.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.