Um peregrino na Terra Santa - Ponto SJ

Um peregrino na Terra Santa

Logo no início da visita, o Cardeal Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém, tentou alertar o P. Arturo Sosa para a complexidade da realidade local:​ “Ninguém está disposto a envolver-se porque todos acreditam que só eles estão a sofrer”.

Ia chegando o tempo que ele tinha pensado para partir para Jerusalém​”

Autobiografia de Sto Inácio de Loiola​, nº 34

Entre 29 de novembro e 2 de dezembro de 2025, o padre Arturo Sosa, Superior Geral da Companhia de Jesus, esteve em peregrinação na Terra Santa. À sua chegada, escreveu uma carta dirigida a toda a Companhia. Não é um documento político nem um texto programático. É, antes de tudo, o eco de um peregrino que caminhou, escutou e rezou numa terra ferida. Tal como Inácio de Loiola foi, antes de tudo, um peregrino — mais do que um herói da contrarreforma — também o 31.º Superior Geral dos Jesuítas se apresenta aqui menos como especialista em ciência política (apesar de o ser) e mais como alguém que, num tempo de peregrinação, se deixa tocar pelo sofrimento das pessoas e dos lugares.

A carta nasce num tempo litúrgico preciso: o Advento. Um tempo de balanço, de verdade e de espera. Um tempo para reconhecer a graça recebida, mas também as sombras que atravessam a nossa história comum. Desde a Ucrânia ao Sudão, de Gaza à Cisjordânia, do Haiti à República Democrática do Congo, o P. Arturo recorda os conflitos que marcaram este ano e as suas vítimas silenciosas: famílias dilaceradas, crianças privadas de futuro, povos inteiros condenados a uma dor que atravessará gerações.

Na Terra Santa, esse sofrimento adquiriu nomes, rostos e vozes. Muçulmanos e cristãos palestinianos falaram-lhe da vida sob controlo permanente, dos postos de controlo usados como forma de humilhação, das terras e oliveiras confiscadas, do medo constante de desaparecer sem justiça nem explicação. Uma “normal vida anormal”, escreve. Mas também escutou o sofrimento israelita:

O padre Francesco Ielpo, Custódio da Terra Santa, partilhou comigo a história de um israelita que perdeu a sua esposa nos ataques de 7 de outubro. Assassinada diante dos seus olhos, os últimos momentos do seu ser querido atormentam-no e até ao dia de hoje não consegue voltar a entrar em sua casa.

No meio desta escuta, uma frase tornou-se decisiva. Logo no início da visita, o Cardeal Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém, tentou preparar o P. Arturo para a complexidade da realidade local com uma confidência desarmante:​ “Ninguém está disposto a envolver-se porque todos acreditam que só eles estão a sofrer”.

Esta frase funciona como chave de leitura não apenas da carta, mas também do nosso tempo. Vivemos uma solidão paradoxal: cada grupo, cada povo, cada pessoa sente-se vítima exclusiva, incompreendida, abandonada. E essa solidão aparente acaba por legitimar a polarização. Se só eu sofro, o outro torna-se ameaça. Se o outro é ameaça, a empatia parece ingenuidade. O diálogo, cobardia. “A reconciliação é vista como traição”, diz a carta. Por oposição, recordo aqui as palavras enxutas de Dorothy Day no seu livro The Long Loneliness: “Todos nós conhecemos a longa solidão e aprendemos que a única solução é o amor, e que o amor nasce da comunidade”.

A fé cristã, insiste o Superior Geral dos Jesuítas, chama-nos a responder de outro modo.

O P. Arturo percebeu, no contacto com tantas histórias, que grande parte do sofrimento nasce precisamente desta incapacidade de ver o outro como humano, de criar comunidade. Um jovem palestiniano dizia-lhe que só vê judeus quando está perante um posto de controlo, a mostrar documentos. Outro recordava com nostalgia os campos de verão onde crianças judias e palestinianas se encontravam, aprendiam a conhecer-se e desmontavam narrativas de ódio — iniciativas que foram interrompidas, talvez exatamente por serem eficazes.

Perante tudo isto, a carta recusa tanto a desesperança como a radicalização. A fé cristã, insiste o Superior Geral dos Jesuítas, chama-nos a responder de outro modo: “unir divisões como Cristo o fez (…) com corações dispostos a entender antes de julgar, a sarar antes de condenar, a acolher em vez de excluir”. Parece ressoar, no fundo destas palavras, a célebre oração de São Francisco de Assis – compreender mais do que ser compreendido, amar que ser amado… Curiosamente, nos mesmos dias em que Arturo Sosa peregrinava à Terra Santa, o Papa Leão XIV fazia a sua primeira visita apostólica ao Líbano e dizia aos jovens, no dia 1 de dezembro: “Estão preparados para se tornarem em artesãos da paz? Gostava de vos deixar uma simples e bela oração atribuída a São Francisco de Assis: Senhor, fazei de mim um instrumento da Vossa paz…”

E é aqui que, a meu ver, o Natal se torna decisivo neste caminho arriscado de criar comunidade e fazer-se, com a graça de Deus, artesão da paz. No mistério do Natal não contemplamos um Deus que nos peça que tenhamos pena d’Ele. Pelo contrário! O centro do Natal não é a pena de Deus mas que, em Jesus, o Altíssimo assuma a nossa pena. Envolve-se. Entra na nossa história ferida. Daí que o filósofo ateu Ernst Bloch sabiamente afirme que a manjedoura e a cruz são feitas da mesma madeira. Na verdade, a Encarnação é o gesto supremo de envolvimento que vem a culminar no mistério Pascal: Deus não observa a nossa pena à distância, não se protege dela, mas assume-a, ilumina-a desde dentro, faz-Se próximo destruindo, no Seu corpo, todos os muros de inimizade. (Cf. Ef 2, 14) É este movimento que faz de nós uma família humana e, ao mesmo tempo, nos abre à vida divina.

A pergunta que fica não é estratégica nem ideológica, mas profundamente evangélica: estamos dispostos a envolver-nos?

Na verdade, ao assumir a nossa pena, o Natal inaugura uma lógica outra. A vitória, assim, revela-se no gesto de quem as mãos estende – como cantamos –, quando alguém decide não absolutizar o próprio sofrimento e se dispõe a carregar, ainda que por um pouco, o sofrimento do outro. A carta termina como começou: com um convite.

Aos meus irmãos jesuítas, devo confessar que esta peregrinação me tocou profundamente. Rezo para que também a vós vos toque quando a escutardes. O Papa Leão, o Papa Francisco e o Papa Bento XVI enviaram-nos para as margens da Igreja. Cada um deles nos recordou que é nas fronteiras que a Igreja mais precisa da Companhia de Jesus. A missão na Terra Santa é uma dessas fronteiras. Esta fronteira precisa de jesuítas dispostos a aprender as línguas e as culturas das pessoas, para que possamos cumprir a nossa missão de reconciliação e de justiça.

Talvez possamos ler esta carta — e esta peregrinação — como um exame de consciência para o nosso tempo. A pergunta que fica não é estratégica nem ideológica, mas profundamente evangélica: estamos dispostos a envolver-nos? A Terra Santa torna-se espelho de um drama mais amplo, presente também nas nossas sociedades, comunidades e famílias: a tentação de absolutizar o próprio sofrimento e a dificuldade em reconhecer a dor do outro como nossa. A carta recorda-nos que não há verdadeira paz sem proximidade, nem reconciliação sem risco.

No limiar do Natal, esta mensagem ganha um peso particular. O Deus que nasce não resolve os conflitos por decreto nem anula a violência por força. Escolhe envolver-se. E é precisamente aí que inaugura uma esperança nova. Não uma esperança ingénua, mas encarnada. Num mundo ferido pela solidão e pela polarização, a fé cristã não nos chama a tomar distância, mas a dar um passo para o outro. É neste gesto humilde — tão natalício quanto pascal — que começamos, de novo, a fazer comunidade e a tornar possível a paz.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.