"Tu, porém, entra no teu quarto..." - Ponto SJ

“Tu, porém, entra no teu quarto…”

Face à hipocrisia dos que praticam boas obras para serem vistos e elogiados pelos outros, Jesus pede que os nossos gestos, ritos e práticas sejam vividos com verdade.

Estamos em tempo quaresmal. Um tempo que nos parece pintado de tonalidades escuras, associado a renúncias e privações, a um discurso por vezes excessivamente moralista no apontar do pecado ou da indignidade humana, a práticas que nos parecem desajustadas ou ultrapassadas.

A liturgia propõe-nos, logo em Quarta-Feira de Cinzas, um caminho diferente. Na verdade, o passo de Mateus que nos é proposto nesse dia (Mt 6, 2-6.16-18), abre caminho para um itinerário que nos convida a revisitarmo-nos, a entrar nessa divisão da nossa casa interior onde Deus fala, a vivermos tudo a partir de dentro, a não nos contentarmos com a superficialidade ou um mero cumprimento de preceitos.

Este texto surge integrado no chamado “Sermão da Montanha” que, em Mateus, se inicia com as bem-aventuranças, um texto profundamente subversivo porque se exaltam não os poderosos, os cheios de si, os bem sucedidos, os que vivem na abundância, mas antes os pobres, os humildes, os mansos, os que se compadecem e usam de misericórdia, os que constroem a paz, os que aceitam a perseguição quando está em causa a justiça e a fidelidade a Jesus.

É nesta sequência que o evangelista insere um conjunto de sentenças que parecem contradizer ou remeter para uma definitiva caducidade todos os preceitos e normas da lei judaica: “Ouvistes o que foi dito aos antigos… Eu, porém, digo-vos…”. Mateus coloca Jesus no cimo da montanha, a proclamar uma nova lei, tal como outrora Moisés o fizera no monte Sinai. A sua autoridade, contudo, é maior, pois a sua palavra revisita e dá um sentido outro à Lei. E, ainda assim, de forma quase paradoxal, o mesmo Jesus proclama que não veio abolir a Lei, mas dar-lhe pleno cumprimento…

As palavras de Jesus conduzem os seus ouvintes a passarmos da letra à vida, da rigidez da lei à liberdade exigente do amor.

Jesus conhece bem a Lei e relembra algumas das suas determinações – “Não matarás”, “Não cometerás adultério”, “Não perjurarás”, “Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo” – ou alguns ditos que se haviam tornado norma, como a lei de talião: “Olho por olho, e dente por dente”. Contudo, Jesus também sabe como a observância da Lei se separara do espírito que lhe dava vida, do que podia fazer dela um caminho de resposta livre e mais plena à ação salvadora de Deus. O texto tornara-se norma em si mesmo, rígido, por vezes fraturante e gerador de exclusão. Jesus enfrentaria recorrentemente este modo de ver a Lei: ao relembrar como o sábado é feito para o Homem e não o Homem para o sábado, ao ultrapassar ideias feitas de pureza e impureza (“Não é o que vem de fora que torna o Homem impuro…”), ao relembrar como o próprio Templo nada era face a esse outro templo que era o Homem, aquele onde Deus verdadeiramente se fazia presente.

As palavras de Jesus conduzem os seus ouvintes (e nós hoje) a passarmos da letra à vida, da rigidez da lei à liberdade exigente do amor. E, para isso, é preciso percorrer esse caminho interior de conversão, com inteireza e com verdade. Jesus é muito concreto no itinerário a percorrer: o abandono de cólera que mata, a procura incessante da reconciliação, que nos faz próximos dos outros, que nos convida a anteciparmo-nos no pedido ou na oferta do perdão; a limpidez do coração e das palavras; a inteireza das relações e o cuidado com aqueles que amamos; a atenção para com os mais frágeis; a renúncia a toda a forma de violência e o desprendimento de si.

Neste jogo de oposições, Jesus termina com o mandamento em que toda a Lei se resume e se cumpre: o amor. Um amor que se estende aos inimigos, um amor que recusa a lógica da vingança, um amor que só pode responder ao mal com o bem. Na entrega de si mesmo pelos pecadores, Jesus haveria de manifestar como só esse amor, até à dádiva de si mesmo, pode quebrar o ciclo de morte e abrir caminhos novos de vida e de ressurreição. Um amor que, doravante, se deve entender à luz da sua entrega, Ele que amou os seus até ao fim: “Amai-vos como Eu vos amei”.

Mas o texto de Mateus não se fica por aqui. Na dialética entre a exterioridade do cumprimento farisaico da Lei e o caminho de uma autêntica vida interior, Jesus denuncia também o risco do esvaziamento das práticas religiosas. Inclui aqui a esmola, a oração e o jejum, as boas obras que, segundo a tradição judaica, tornavam o Homem justo diante de Deus. Face à hipocrisia dos que as praticavam para serem vistos e elogiados pelos homens, Jesus pede que os nossos gestos, ritos e práticas sejam vividos com verdade. Que a esmola que damos, a oração que fazemos ou o jejum que impomos a nós próprios sejam um meio de alcançar a verdadeira conversão do coração. Libertando-nos do julgamento ou da aprovação dos outros, dispomo-nos a caminhar humildemente na presença de Deus e a tudo viver nesse tu a tu, nesse segredo que só Ele conhece e habita.

Jesus desafia-nos a ser perfeitos como o Pai celeste é perfeito (Mt 5, 48). Fá-lo, não como um apelo a um seguimento escrupuloso de regras ou a uma simples obediência a preceitos morais, mas antes como um repto a sermos plenos, inteiros. E a sê-lo com as nossas fragilidades, com este corpo de desejo que nos desinquieta e desinstala. Aceitando que, no segredo, Deus nos fala, trabalha em nós, se dispõe ao encontro. Consentindo e procurando viver tudo a partir de dentro, na verdade das nossas vidas. Só assim a nossa partilha será desinteressada, a nossa oração um gemido de plenitude, o nosso jejum um caminho de desprendimento em ordem ao essencial.

Boa Quaresma!

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.