As recentes declarações de Donald Trump visando o Papa não devem ser liminarmente descartadas como mero teatro político ou como uma provocação calculada para agitar o espaço mediático. Em vez disso, representam o culminar de um exibicionismo de impotência e fanatismo por parte da atual administração americana. Face à gravidade destas afirmações, escudar o presidente no velho argumento de que o mundo precisa de “homens de ação” deixou de ser sustentável. O que está efetivamente em causa é um conflito de matriz muito mais profunda: o confronto entre a força estritamente transacional e uma autoridade institucional que escapa ao controlo de Washington.
O verdadeiro incómodo que a Igreja Católica suscita na atual liderança americana não reside em questiúnculas teológicas, mas na sua autonomia estrutural. A Igreja opera através de uma linguagem que recusa reduzir-se à gramática do interesse pessoal ou do poder bélico. Para uma administração que encara a governação como um exercício de domínio absoluto, uma entidade cujo poder é aferido por critérios independentes torna-se intolerável. Perante esta realidade, táticas intimidatórias — como a inusitada chamada do representante papal ao Pentágono — revelam-se manifestamente inúteis perante líderes que navegam fora da armadilha do presidente americano.
Hoje, o ímpeto de Trump reflete menos a de um grande estratega focado no bem comum e mais a resposta reativa e possessiva de quem vê os seus desejos imediatos negados.
Para compreender a magnitude desta fricção, é imprescindível recorrer às lições da História. Historicamente, o ataque direto e físico à pessoa do Papa ou à instituição que representa não ocorre em períodos de estabilidade. Acontece, quase invariavelmente, quando líderes civis se veem encurralados, sem alternativas táticas, sentindo o chão das suas próprias épocas a ceder perante inevitáveis ruturas civilizacionais. Foi assim em 1303, quando as tensões com o reino francês ditaram o fim trágico da ordem medieval, e em 1527, com o assalto a Roma pelo exército de mercenários do Imperador Carlos V, marcando o colapso da unidade europeia.
O paralelo mais instrutivo, contudo, poderá ser o de Napoleão Bonaparte. O imperador francês, tal como o atual ocupante da Casa Branca, via a religião e o clero puramente como instrumentos utilitários de lei, ordem e controlo social. Quando as suas ambições esbarraram na independência política e moral do Vaticano, Napoleão respondeu com o uso da força militar, ocupando os Estados Pontifícios em 1808 e detendo o Papa até 1814. Hoje, o ímpeto de Trump reflete menos a de um grande estratega focado no bem comum e mais a resposta reativa e possessiva de quem vê os seus desejos imediatos negados.
No contexto da política americana, embora o anticatolicismo tenha um longo historial — desde as suspeitas dos Pais Fundadores às políticas visadas por Ulysses S. Grant em 1875 —, as afirmações recentes de Trump configuram o ataque mais direto e pessoal ao papado por um presidente desde essa época. É um facto que as tensões em torno de conflitos militares não são inéditas: papas anteriores criticaram ativamente o envolvimento americano no Vietname, no Golfo Pérsico e no Iraque, opondo-se a administrações desde Johnson e Nixon até Bush pai e filho. No entanto, essas divergências enquadravam-se no debate geopolítico, não num ataque personalista destinado a subjugar a liderança de Roma.
O verdadeiro triunfo garante-se salvando aquilo que se preza, e não destruindo o que se odeia.
Vivemos, possivelmente, um espelho de outras transições imperiais. A eleição de Robert Francis Prevost, que assumiu o pontificado sob o nome de Leão, evoca o Papa Leão I, figura central que, no século V, interveio num vazio de poder provocado pelo colapso de um Império sobrecarregado e financeiramente arruinado para travar as investidas de Átila, o Huno. Enquanto o império assente na extorsão de Átila colapsou após a sua morte súbita, a instituição papal sobreviveu e consolidou a sua influência política e diplomática.
A grande lição destas crises sistémicas é que a Igreja até pode perder as suas batalhas de âmbito material e territorial, chegando a ser despojada e humilhada por poderes revolucionários ou militares, mas, invariavelmente, sobrevive aos regimes que a tentaram aniquilar. Num momento em que as fundações de velhas alianças parecem ceder, a vitória a longo prazo pertencerá às instituições que compreendem a máxima da resiliência: o verdadeiro triunfo garante-se salvando aquilo que se preza, e não destruindo o que se odeia.
As palavras ditas com serenidade por Leão XIV esta manhã deviam ser uma referência: “Não tenho medo da administração Trump, nem de falar abertamente sobre a mensagem do Evangelho, que é aquilo que acredito ser a minha missão, a missão da Igreja”.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
