Ser cristão também é ser vegetariano num mundo de carnívoros - Ponto SJ

Ser cristão também é ser vegetariano num mundo de carnívoros

Ser vegetariano num mundo de carnívoros pode parecer ingénuo, mas será talvez a única via que nos pode levar à vida e à felicidade. É atravessar a porta estreita do seguimento de Jesus.

O início de mais uma guerra, no passado dia 28 de fevereiro, apanhou-me a viajar para Cabo Verde em missão de trabalho do Dicastério: visita às duas dioceses e aos seus inúmeros projetos sociais de desenvolvimento e de fortalecimento das capacidades das comunidades locais, em semana festiva da celebração dos 50 anos da criação da Cáritas Cabo Verde. Confesso que fiquei alguns dias como que anestesiado diante do horror que voltava a ter lugar no Médio Oriente. A beleza das paisagens – enamorei-me da Ilha de Santo Antão! – e o embalo das mornas, o calor do acolhimento, tantos rostos, encontros e visitas…

Despertei para a realidade à medida que, a conta gotas, me iam chegando notícias de que os bombardeamentos se intensificavam, as vítimas mortais aumentavam em vários países, incluindo em aldeias cristãs no sul do Líbano, ou numa escola feminina iraniana barbaramente suprimida. E a incredulidade tomou conta de mim ao assistir a um ex-político renomado da nossa praça a justificar o apoio ao desencadear deste conflito com um “não podemos ser vegetarianos num mundo de carnívoros”.

Os discípulos de Jesus são chamados a viver como promotores da paz

O Papa Leão XIV e inúmeras outras figuras eclesiais não têm cessado de clamar pelo fim das hostilidades, pelo respeito do direito internacional e pelo recurso ao diálogo multilateral e à diplomacia para a resolução deste e de todos os conflitos. “Uma paz desarmada e desarmante” tem sido lema do Papa Leão desde a primeira aparição no balcão da Basílica de São Pedro logo após a sua eleição. A esse tema dedicou a Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2026 “Rumo a uma paz desarmada e desarmante”.

Esta é uma paz, pela sua própria natureza e pela complexidade dos desafios do mundo contemporâneo, que é “humilde e perseverante”. Leão XIV descreve “as circunstâncias históricas em que vivemos” com a imagem bíblica tradicional do combate entre as trevas e a luz, recordando como o Papa Francisco definiu este drama como “terceira guerra mundial em pedaços”. Os discípulos de Jesus são chamados a viver como promotores da paz, resistindo “à contaminação das trevas, como sentinelas na noite”. Sem ilusões, porém, de que “é possível esquecer a luz” e ceder a uma representação parcial e distorcida do mundo, chamando de “realistas as narrativas privadas de esperança”.

O caminho de Jesus foi outro: “A paz de Jesus ressuscitado é desarmada, porque desarmada foi a sua luta, dentro de precisas circunstâncias históricas, políticas e sociais”. Nós, cristãos, somos chamados, apela o Papa, a tornar-nos “testemunhas proféticas desta novidade”. Para isso, importa resistir ao “grande sentimento de impotência [que nos] invade diante do curso cada vez mais incerto dos acontecimentos” e a tratar “a paz como um ideal distante”. Sem essa resistência, alerta, “acabamos por não considerar escandaloso que ela possa ser negada e que até mesmo se faça guerra para alcançá-la”. Diante de toda a agressividade da retórica com que nestes dias tantos justificam os violentos ataques que uns desencadearam, ou a resposta bélica que outros protagonizam, ecoa o lamento do Papa: “Parecem faltar as ideias certas, as frases ponderadas, a capacidade de dizer que a paz está ao nosso alcance” e até mesmo “chega-se a considerar uma culpa o não estar suficientemente preparado para a guerra, para reagir aos ataques e para responder à violência”. Não são de admirar, pois, “os repetidos apelos para aumentar as despesas militares”. Leão chega mesmo a alertar para um “realinhamento das políticas educativas” que está em curso, pelo qual se parece promover a perda da memória e da consciência adquirida ao longo do séc. XX dos horrores das consequências dos conflitos mundiais e dos seus milhões de vítimas.

Atravessar a porta estreita do seguimento de Jesus.

A paz de Jesus é também desarmante. E foi-o desde os primeiros instantes do mistério da Encarnação: “«Paz na terra», cantam os anjos, anunciando a presença de um Deus indefeso”. Leão recorda o exemplo luminoso do seu predecessor São João XXIII e o seu apelo a um desarmamento integral na famosa encíclica Pacem in terris. Esse é um desarmamento que supõe a “renovação do coração e da inteligência”. E as religiões têm um serviço fundamental a prestar à humanidade. Atentemos bem à denúncia verdadeiramente profética que o Papa fazia no primeiro dia do ano: “Infelizmente, faz parte do panorama contemporâneo, cada vez mais, arrastar as palavras da fé para o embate político, abençoar o nacionalismo e justificar religiosamente a violência e a luta armada. Os fiéis devem refutar ativamente, antes de tudo com a sua vida, estas formas de blasfémia que obscurecem o Santo Nome de Deus”.

Aos políticos, o Papa pedia que trilhassem “o caminho desarmante da diplomacia, da mediação, do direito internacional, infelizmente contrariado por violações cada vez mais frequentes de acordos alcançados com grande esforço, num contexto que exigiria não a deslegitimação, mas sim o fortalecimento das instituições supranacionais”. Perante o desânimo e a desconfiança que se instalam, Leão XIV apela ao “desenvolvimento de sociedades civis conscientes, de formas de associativismo responsável, de experiências de participação não violenta, de práticas de justiça restaurativa em pequena e grande escala”.

Para nós, cristãos, não pode, portanto, haver dúvidas. Diante da retórica e do recurso cada vez mais despudorado e aberrante a metáforas e narrativas religiosas para justificar esta guerra, recordemos a grande tradição profética dos nossos textos sagrados: “Ele julgará as nações, e dará as suas leis a muitos povos, os quais transformarão as suas espadas em relhas de arados, e as suas lanças, em foices. Uma nação não levantará a espada contra outra, e não se adestrarão mais para a guerra” (Is 2, 4-5). E as palavras escandalosas de Jesus: “Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5, 44). Ou, por outras palavras, e voltando à imagem do início, ser cristão também é ser vegetariano num mundo de carnívoros. Desejar percorrer este caminho é, para muitos, ingénuo, é irrealista, infantil, disparatado e inconsequente. Mas será talvez a única via que nos pode levar à vida e à felicidade. É atravessar a porta estreita do seguimento de Jesus.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.