Partículas de bem e adversários do absurdo - Ponto SJ

Partículas de bem e adversários do absurdo

Creio poder dizer que nos une o amor que temos “aos últimos”, tão ao modo inaciano. Experimentamos continuamente que o amor se põe mais em obras do que em palavras. E vamos aprendendo que não podemos encarnar esse amor de uma forma qualquer

Intervenção da Irmã Irene Guia, aci, na IX Assembleia Social Inaciana da Comissão Apostolado Social, que teve lugar a 16 de maio de 2025, em Lisboa.

 

Gostava de começar por agradecer o vosso convite. Creio poder dizer que nos une o amor que temos “aos últimos”, tão ao modo inaciano. Experimentamos continuamente que “o amor se põe mais em obras do que em palavras” (EE 230). E vamos aprendendo que não podemos encarnar esse amor de uma forma qualquer. Vamos aprendendo que “o amor consiste em comunicação das duas partes, a saber, em dar e comunicar o amante ao amado o que tem ou do que tem ou pode, e assim, vice-versa, o amado ao amante; de maneira que se um tem ciência, dar ao que não a tem, se honras, se riquezas e assim o outro ao outro” (EE 231). Talvez esta clareza de Stº Inácio possa servir de dica para um bom exame sobre a nossa prática na eterna questão das preposições – o para, o por, o com. – do nosso trabalho, do nosso acompanhar, do nosso dia a dia.

Esta partilha que vou fazer, e que está condensada no título, teve o seu início numa reflexão que fui obrigada a fazer ao aceitar um convite do IPO do Porto, há 6 meses atrás. Hoje, diria que talvez tenha estado a mão de Deus por trás: Deus bem sabe que “esta mulher (eu!) só vai refletir para tirar algum proveito sobre os últimos 10 anos da sua vida se a isso for “obrigada” por terceiros!”.

O certo é que, quando fui convidada para participar no 1º Encontro de Humanização do IPO-Porto, estava totalmente incapacitada para dizer que não. Não sabia o que ia dizer. Sabia que não podia dizer que não.

Aquele convite obrigou-me a responder à chamada que nos é feita permanentemente durante os Exercícios Espirituais, depois de cada contemplação: “(…) e depois refletir em mim mesmo para tirar algum proveito” (EE 107.3 et al). Aquele convite foi este “e depois”.

Ao olhar para esta sala, podemos dizer que somos um grupo de pessoas “viradas para fora”, cuja própria vida profissional é “para fora”; pessoas que se gastam ao serviço dos outros, dos “últimos”, para além das 35 horas semanais; pessoas cujo trabalho é interagir permanentemente com as vidas de outros em momentos de fragilidade, medos e inseguranças; pessoas cujo próprio trabalho é, em definitiva, amar e semear fraternidade, cuidar e chamar a um estranho “irmão”, porque de facto o é. Como não lidamos com papéis ou com ações de mercado, o nosso único descanso é quando dormimos e, mesmo aí, às vezes, as preocupações com pessoas que não têm o mesmo apelido que nós fazem-nos “deixar de lado” o nosso apelido, como se de um filho, um irmão, uma mãe, ou um pai se tratassem.

Dizia eu que aquele convite foi claramente um convite a contemplar, retrospetivamente, os últimos anos da minha vida… “e depois refletir em mim mesma para tirar algum proveito”.

Para Stº Inácio este refletir em mim não é pensar, discorrer, meditar. Não. Refletir em mim é deixar que a luz do que contemplo entre em mim com tal força que eu a possa refletir. Como um aparelho-refletor que serve para refletir a luz, o calor, as ondas, de dentro para fora de si. Receber a luz, deixar-me iluminar para entregar isso mesmo que vemos com a luz e o prisma. Lembram-se na escola? A luz bate no prisma e um leque de cores sai para fora, para o mundo. Esta é a atitude recetiva à qual Inácio chama “refletir em mim”. Refletir não é tanto um ato de reflexão, é algo muito mais imediato e passivo: deixar que se reflita numa superfície a luz de um outro corpo. Como dizia, o que fazem os espelhos, os vidros. Ou o que faz a lua em relação ao sol.

Levada pela mão de Deus, foi a pensar na minha irmã que formulei, finalmente, o que poderia chamar a identidade/missão para mim (e, acredito, para nós, hoje): no meio do “mal”, do absurdo, somos chamados a ser partículas de bem e a assumir-nos publicamente como adversários do sem sentido!

“Refletir em si mesmo” é deixar-se empapar – na cabeça, no coração e nas entranhas – pelo mistério contemplado, que na nossa vida TODA (pessoal e profissional) é o mistério do outro, ou do Outro.

Não sei se também vos acontece, mas na vida existem estes momentos, não escolhidos por mim, que me levam/obrigam a um “refletir” deste tipo, onde, de repente, se consolida, numa fórmula clara, uma intuição que se vinha a afirmar cada vez mais como realidade na minha vida, uma intuição que se tinha vindo a encarnar no que sou.

Fui convidada com esta finalidade – e por isso a culpa não é minha, se isto correr mal… Por isso, vou atrever-me a fazer de lua.

Não vou começar por referir os anos dedicada, de uma ou de outra forma, “aos últimos”. Quero começar por dizer que sou irmã de uma enfermeira! De uma extraordinária enfermeira. Conhecer de perto o que significa a vida dos profissionais de saúde, o empenho deles em querer fazer tudo para conseguir a “salvação” de quem cuidam, traspassou para a forma como, na minha vida, tento colaborar na “salvação” de quem sofre, para além das paredes dum hospital.

Levada pela mão de Deus, foi a pensar na minha irmã que formulei, finalmente, o que poderia chamar a identidade/missão para mim (e, acredito, para nós, hoje): no meio do “mal”, do absurdo, somos chamados a ser partículas de bem e a assumir-nos publicamente como adversários do sem sentido! E é desde aí, dessa vontade – que dispõe e orienta a minha, a nossa vida, o nosso dia a dia, a nossa entrega e, quantas vezes, em des-beneficio próprio (não consigo usar a palavra habitual ‘em prejuízo’) – que me atrevo a estar aqui.

Sabia que estaria perante uma sala como esta, com pessoas que prestam cuidados e se entregam aos outros nos momentos em que eles, e as suas famílias, se encontram de braço dado com o medo, fragilizados e inseguros, sem terem a certeza de se tomaram a melhor decisão, na esperança de um futuro, como se estivessem e vivessem abaixo da linha de superfície.

Assim, mais do que uma exposição com o risco de ser enfadonha, tentei aproveitar este desafio para arriscar verbalizar – com a esperança de não aborrecer – aquilo que provavelmente é uma experiência que acaba por ser comum muito para além deste espaço: como lidar, como lidamos com o sofrimento? A forma como o fazemos torna-nos mais humanos? Torna-nos melhores pessoas?  “Humaniza” o nosso cuidar? O nosso acompanhar e servir? E esse cuidar, cuida sujeitos? E esse servir, serve sujeitos? Ou acaba por reclassificar sujeitos em “objetos”?

Deixarei certamente mais perguntas do que respostas. Mas não creio que faça mal, porque são as perguntas que nos movem a progredir e que provocam as mudanças. Claro que o farei a partir daquilo que tenho vivido e das realidades que tenho conhecido. Estive próxima, muito próxima – e em situações muito diversas – de seres humanos, pessoas, em situação de fragilidade extrema, ao lado de quem percebemos que podemos optar por ser porto de abrigo-refúgio, que se abre e acolhe, ou por ser parede de vidro, que observa e se deixa ver, mas que não toca nem se deixa tocar.

O que escolhemos? Onde é que eu encontro mais saúde: num refúgio de vidro, que se move de cá para lá e de lá para cá, ou num porto que abriga quem está no isolamento ou à intempérie na vida?

Falamos muito das pessoas vulneráveis – tantas de quem me considero amiga verdadeira –, dos que são remetidos para as margens da nossa vida comum, da nossa sociedade; dos que têm de fazer pela vida, submetidos ao julgamento fácil, mas pesado, de quem teria tanto para dar, mas que opta por reter; dos que se encontram em terra estrangeira e no que isso significa de receios, exclusão, exploração, desclassificação e mentira, objeto de ódio, etc…

Como lidamos com o sofrimento? A forma como o fazemos torna-nos mais humanos? Torna-nos melhores pessoas?  “Humaniza” o nosso cuidar? O nosso acompanhar e servir? E esse cuidar, cuida sujeitos? E esse servir, serve sujeitos? Ou acaba por reclassificar sujeitos em “objetos”?

Lembram-se daquele episódio do Antigo Testamento onde o profeta Natan se aproxima do Rei David e lhe conta a parábola de um senhor que, apesar de ter imensas ovelhas, mata a única ovelha do seu pobre vizinho para oferecer um banquete aos amigos? E de como David espontaneamente se revolta afirmando que esse homem é digno de morte? (2 Sam 12) David reage espontaneamente porque lhe estão a contar o caso de uma outra pessoa. Natan não o está a acusar de nada. Mas quando David responde dizendo que esse homem é digno de morte, Natan responde-lhe: “esse homem és tu”.

Vou também propor algo parecido com isso. Vou-vos pedir uma abertura de coração e mente próprias da “contemplação”, onde a “composição de lugar” continue a ser – se não se importarem – o mundo hospitalar, as pessoas surpreendidas com uma doença, os profissionais de saúde, etc. “E depois refletir em mim mesmo para tirar algum proveito”, para o que sou chamada/o a fazer.

De facto, um dos grupos em situação de máxima vulnerabilidade não será o das pessoas que precisam de cuidados de saúde? É tremendo estar doente. É absurdo! Eu nunca estive. Nunca tive uma má notícia em relação ao meu próprio estado de saúde, daquelas que nos tiram o chão debaixo dos pés, nunca fiquei internada num hospital, nunca padeci tratamentos dolorosos que nos fazem desejar a morte quando tentamos, por outro lado e com todas as forças, manter-nos agarrados à vida.

Tem-me tocado, sim, acompanhar, de muito perto, pessoas muito próximas que, de maneira recorrente, tiveram más notícias, ficaram internadas em hospitais, ou passaram por percursos duríssimos. Acompanhei muitas idas aos hospitais, muitas peregrinações com etapas dolorosas, muitos infernos, muitas sombras – muitas luzes também! –; acompanhei quem não tinha hospital para onde ir, ou, embora existindo “o edifício”, era confrontado com equipamentos que não funcionavam.

Como é igualmente tremendo ser socialmente necessitado, ser uma pessoa descartada pelas outras, pela sociedade! Voltando à nossa parábola: tudo isto é absurdo! Em todas as suas formas, as mais cruéis e as menos, é sempre absurdo!

Na exortação “A Alegria do Evangelho”, o nosso querido Papa Francisco chamava-nos a atenção para a degradação na forma como consideramos a dignidade de alguns. Há uns tempos atrás, falávamos de “oprimidos”. Hoje, já não se fala tanto de “oprimidos”; mas de “descartáveis”! Quer dizer, pessoas que “não dão cartas” nem entram no baralho deste jogo que é a vida e a convivência mundial.

Somos feitos para a vida e para a vida em abundância; somos chamados a viver em cada momento desde a nossa dignidade pessoal; somos seres humanos porque somos capazes de exercer a nossa liberdade e de agir usando a nossa vontade; somos pessoas unicamente quando entramos em relação com outras. Tudo isto parece desmoronar-se quando nos dizem que temos de fazer um exame médico mais complexo, quando entramos num gabinete médico com receio de ouvir uma sentença, ou quando, simplesmente, pomos um pé no hospital; tudo isto parece desmoronar-se quando pertencemos ao grupo dos descartáveis e invisíveis, para não falar daqueles que chegam a terra estrangeira.

Somos feitos para a vida e para a vida em abundância; somos chamados a viver em cada momento desde a nossa dignidade pessoal; somos seres humanos porque somos capazes de exercer a nossa liberdade e de agir usando a nossa vontade; somos pessoas unicamente quando entramos em relação com outras. Tudo isto parece desmoronar-se quando nos dizem que temos de fazer um exame médico mais complexo, quando entramos num gabinete médico com receio de ouvir uma sentença, ou quando, simplesmente, pomos um pé no hospital; tudo isto parece desmoronar-se quando pertencemos ao grupo dos descartáveis e invisíveis, para não falar daqueles que chegam a terra estrangeira.

Aquela vida em abundância, de repente, está em perigo; a nossa dignidade pessoal parece desaparecer logo da primeira vez que nos dizem para nos despirmos; a nossa liberdade e a nossa vontade passam aparentemente para as mãos de terceiros, deixamos de ser autónomos, independentes, e passamos a ser dependentes, uma realidade que desconhecemos, ou que conhecemos bem demais… E que dizer da solidão? “Nisso”, no atravessar dessa solidão, ninguém me pode substituir!

Sim, “nisso” ninguém me pode substituir. Mas pode acompanhar. E sabemos bem que a família e os amigos não detêm a exclusividade do acompanhar. Muito pelo contrário. É também, indiscutivelmente, uma dimensão do exercício médico, do processo terapêutico. Acompanhar a evolução da doença no doente e intervir, sem nunca abdicar de acompanhar a pessoa doente, e a sua família, e explicar o que lhe está a acontecer. A palavra de um/a médico/a pacifica muito mais do que as palavras, tantas vezes inadequadas, da família e dos amigos junto ao doente. Sem ser consciente disso, a pessoa doente, a pessoa fragilizada, concede a autoridade, sobre si mesma, ao médico/a, ao enfermeiro/a, por vezes também a nós; entrega-lhe o poder – e de bandeja! – sobre a sua pessoa e a sua dignidade. Nesse momento, as pessoas que acompanham são como a boia salva-vidas lançada no mar agitado dos incontroláveis receios e angústias da pessoa que sofre: não alteram a agitação do mar, mas evitam que se afunde e se afogue.

Este verbo, acompanhar, vem de cum-panis: comer do mesmo pão. Os que comem do mesmo pão são “companheiros”. E nisso em que ninguém nos pode substituir, têm-se companhia. Acompanhar talvez signifique assegurar que aquele cujo corpo sou chamado a cuidar possa experimentar que “nisso”, que lhe toca viver sozinho, não está só: tem o pessoal médico a seu lado, ao lado da sua família; e tem-nos a nós. Estou convencida de que sofrer sozinho é sofrer mais. Sofrer em comunhão é muito diferente de sofrer em solidão.

Uma revolução necessária nos cuidados, nos serviços que prestamos – e mais uma vez falo para além das paredes dum hospital – é que este acompanhar, consciente ou inconscientemente, não dependa, na sua qualidade e proximidade, do estrato social, mas que respeite sempre a dignidade inviolável da pessoa; que não dependa da riqueza do vocabulário, da riqueza de conhecimentos (culturais ou sociais), ou de qualquer outro tipo de riqueza. Falo em revolução, entendendo-a como uma espécie de “reciclagem da evolução”: para quem, no dia a dia, está habituado a que não se respeite a sua dignidade, fará certamente diferença o ser acompanhado de forma positivamente diferenciada. A revolução passará por poderem experimentar, num momento de ainda maior fragilidade, o que raramente experimentam: em sentido amplo, não ser passado à frente, deixar de ser invisível e, sobretudo, experimentar-se ator do seu próprio processo, mesmo que, concretamente, não percebam muito processo em si. Pelo menos naquele momento, pelo menos durante aqueles poucos minutos de encontro com quem os está a tratar, a cuidar, podem sentir-se humanos.

“Não viram só o meu corpo, viram-me a mim também”; “não olharam só para os formulários, viram-me a mim também”. Acredito que a “cura da alma” tem repercussão no corpo, porque não temos um corpo, somos um corpo. Ou seja, há um movimento vital entre interior e exterior, que tem como frutos mais imediatos o reconhecimento da bondade e da beleza em si mesmo e nos outros, de parte a parte, que contribui para sermos, todos, pessoas mais compassivas, atentas e disponíveis para outros.

“Pensei muito em ti, quando perdeste a tua irmã”. Esta frase, ou é uma fórmula banal de delicadeza, ou então, se a pessoa de que se trata é uma amiga, um amigo, significa que ao pensar em mim, sofreu comigo.

Costuma-se dizer que o efetivo é o afetivo. Até onde deve ir o nosso cuidar dos que sofrem? Só efetivo? Qual o lugar do afetivo? Até onde deve ir o nosso cuidado? Devemos usar entre nós, excluindo nos relatórios, palavras como utentes, beneficiários?

“Pensei muito em ti, quando perdeste a tua irmã”. Esta frase, ou é uma fórmula banal de delicadeza, ou então, se a pessoa de que se trata é uma amiga, um amigo, significa que ao pensar em mim, sofreu comigo.

Costuma-se dizer que o efetivo é o afetivo. Até onde deve ir o nosso cuidar dos que sofrem? Só efetivo? Qual o lugar do afetivo? Até onde deve ir o nosso cuidado? Devemos usar entre nós, excluindo nos relatórios, palavras como utentes, beneficiários?

A presença e a atenção à pessoa que não está em harmonia, acabam por ser uma forma de participação. É mais do que um simples “ver”, é um “conhecer”, que na sua raiz latina significa conhecer-com (cum+gnoscere), participar. Aquelo que espontaneamente designamos como “um bom médico” é o que se compadece, se aproxima e se apressa em momentos de urgência, e põe-se a caminho “imediatamente”, porque só pretende uma coisa: curar.

Se este curar se expressasse com uma imagem, seria muito mais do que ver, seria talvez mais tocar. Não se vê simplesmente; toca-se. Diz François Varillon, “A palavra tato é uma das mais bonitas da nossa língua: ela hesita maravilhosamente entre o sentido físico e o sentido moral; vai de um ao outro num balanceamento de caridade”, do amor.

Cada um poderá reajustar o que digo à sua realidade. Mas, continuando na parábola que estou a contar, se há profissão onde o toque é indispensável é na saúde.

Nessa profissão, o “tocar” não é uma imagem para ilustrar um conceito filosófico do qual se tiram ilações para a existência. O toque é indispensável. É o meio privilegiado para identificar, para tratar, para cuidar. Desta imagem do toque sensível, humano, indispensável, é que devemos tirar ilações para a convivência humana, sobretudo nos nossos dias e para lá das paredes dum hospital.

O difícil, parece-me, pode ser tirar ilações sem cair em elações… Quando se substitui o ‘i’ pelo ‘e’ (por vezes sem nos darmos conta, porque, ao falar, não se distinguem necessariamente a ‘ilação’ e a ‘elação’), o que acontece é literalmente oposto: ‘Ilação’ tem origem no latim illatione- (ação de levar) e significa «ação de inferir ou concluir», chegar a uma conclusão; ‘elação’, pelo contrário, deriva de elatione- (elevação) e significa «altivez, arrogância, elevação».

Isto leva-me a mais uma consideração que pode extrapolar as paredes de um hospital: cuidar sem se elevar, e sem cair na tentação de pedir um “comportamento adequado” a quem, por estar no limite, não está capaz de o ter.

Como dizia antes, não fomos feitos para sofrer, mas para ter a Vida em abundância. Por isso, não se pode nunca pedir a quem sofre que se comporte como se não estivesse a sofrer. O que é que eu quero dizer com isto? É lícito acrescentar pressão a quem já está sob sofrimento, a quem meramente tenta encontrar sentido no sem-sentido do que lhe está a acontecer? Pergunto, a quem é que se deve pedir, em primeiro lugar, o esforço para se reajustar, quando a docilidade necessária para poder tratar, e até cuidar, teima em não acontecer? Ao doente? Ao necessitado?

Creio que está da nossa parte não pedir, não acrescentar tamanho esforço a essa pessoa. Creio que o que nos é pedido é a criatividade para que ela dê o seu melhor, seja através da empatia e da simpatia, seja através da escolha do membro da equipa que mais entrada tenha com o doente, com a pessoa.

Que diferença, quando o que nos move é o querer tirar a pessoa que sofre desse “lugar” onde ela mesma, sem querer, acrescenta “mal” ao mal que não quer viver; onde ela mesma acrescenta mais sofrimento àquele que não consegue controlar!

Que diferença na relação quando a nossa ação tem em conta o estado anímico do doente, da pessoa necessitada, em vez de lhe exigir que faça de conta, que ignore a pressão absurda que é o sofrimento ou a necessidade da que se sente prisioneiro e “se porte bem”, de forma adequada, como eu quero, para que eu o possa atender!

Que diferentes os modos de se aproximar e que diferente a forma como se reage a cada uma delas!

É verdade que a simpatia, a compaixão, não precede necessariamente o contacto com o sofrimento: nem sempre nos sentimos previamente “próximos” de quem sofre. Mas, do contacto com o sofrimento, não nascerá necessariamente a simpatia, pelo menos quando se assume seriamente a infelicidade do outro? A compaixão é, em si, um ato distinto da reação sensível, da alteração nervosa.

Este tema da compaixão sem paixão, na época do modernismo, foi trabalhado pelo barão von Hugel. Simpatizar ativamente, diz ele, não é necessariamente sofrer também da mesma forma, ou mesmo sofrer. Dá como exemplo o Pe. Damião que entregou a sua vida ao cuidado de leprosos. Diz von Hugel: “O Pe. Damião não tinha necessidade de ser leproso para amar os leprosos. Compreendia-os e compadecia-se das suas misérias melhor que os leprosos o sabem fazer ordinariamente entre eles. A riqueza da sua imaginação e a finura da sua sensibilidade substituíam perfeitamente a sua falta de experiência pessoal.”

Por seu lado François Varillon comenta: “Aquele que não sofre só ajudará a meias aquele que sofre. Cada um de nós sente-o, ainda que confusamente, e por isso hesitamos, quando estamos a sofrer, em recorrer a vizinhos bem instalados, porque apesar de vizinhos, não são próximos. Em caso de necessidade, fazemos a tentativa, mas de má vontade: não há sintonia. Quando as cordas de dois violinos estão bem afinadas, se uma vibra, a outra canta. Mas a piedade condescendente, mesmo concretizada em socorro espontâneo e generoso, não toca musicalmente a alma do necessitado.”

Retendo quatro palavras dos textos destes dois autores (compreensão e imaginação – enquanto capacidade de me pôr no lugar do outro; sensibilidade e proximidade), creio que podemos aprofundar melhor o significado do meu título, isto de “ser partículas de bem e adversários do absurdo”.

Começo por vos contar uma outra parábola. Não é de La Fontaine, mas acredito que é pelo menos igualmente válida e significativa. Tem por nome: A parábola do bom samaritano.

“Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?”

Seja qual for a nossa condição, seja qual for o nosso estatuto ou posição, seja qual for o grupo, a família a que pertencemos, seja qual for a história pessoal que carregamos, a resposta vai ser a mesma: o samaritano. Como humanos, damos todos a mesma resposta.

«Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto. Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo. Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante.

Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: ‘Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar.’ Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?» (Lc 10, 33-37).

São quatro as personagens e representam quatro grupos de pessoas:

·      o homem – não é identificado, mas é descrito ao pormenor o que lhe aconteceu e o estado em que se encontra: meio morto. Representa os que mais sofrem;

·      o sacerdote – representa os puros, os que julgam poder distinguir o que é sagrado e o que é profano; o bem e o mal;

·      o levita – representa os poderosos, de sabedoria, de bens, de conhecimento, os que “sabem ler e escrever”;

·      o samaritano – representa as consideradas “pessoas de má fama”, aquelas sob as quais cai um juízo social.

A parábola termina com uma pergunta. Exatamente como eu gosto, saber colocar as perguntas pertinentes. E creio que o Autor desta parábola sabe colocar a pergunta pertinente: “Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?”

Seja qual for a nossa condição, seja qual for o nosso estatuto ou posição, seja qual for o grupo, a família a que pertencemos, seja qual for a história pessoal que carregamos, a resposta vai ser a mesma: o samaritano. Como humanos, damos todos a mesma resposta.

De facto, reagindo a uma história, quer isto dizer, sem nos sentirmos postos em causa e, por isso mesmo, sem pormos na nossa reação qualquer tipo de defesa ou justificação, percebemos que não se trata de saber quem é o meu próximo. Repito, a sabedoria para tudo isto vem de se fazer a pergunta certa. E a pergunta certa não é a de querer saber quem é o meu próximo, mas a de ser consciente de quem é que me fiz próximo.

Isso leva-nos a poder definir o verbo “humanizar” como o ato de quem toma a seu cargo as pessoas, acompanhando-as, como o bom samaritano que lava, limpa, levanta o que caiu em mãos de salteadores, ou seja, tornando-se próximo.

Se tomarmos a parábola com as suas diferentes personagens, podemos retirar a ilação, podemos chegar à conclusão de que as reformas organizativas e estruturais tão necessárias, são secundárias, isto é, vêm depois.

A primeira reforma, urgente em tantos âmbitos da nossa sociedade, deve ser, tem de ser!, a da nossa atitude. Se não houver reforma na atitude é impossível não esperar que tudo fique na mesma. As reformas organizativas e estruturais são como um verbo na sua forma infinitiva. Da forma como o pronome pessoal, nas diferentes pessoas, declina o presente, o futuro, o condicional dependerá o resultado.

No Mundo há zonas – que parecem cada vez maiores – onde parece que o único habitante real é o mal e o absurdo: escuridão, dor, desconcerto; zonas onde pessoas morrem e outras sobrevivem como zombies, expostas a esse des-humano que tudo quer ocupar e que parece invencível… Claramente, é esse o mundo dos campos de refugiados, das guerras, no mundo hospitalar e, quem sabe, o mundo dos que formamos a CAS.

Quando todas as armas e estratégias parecem falhar, o Bem morre também?

Quando a Vida em abundância parece ser uma miragem num deserto; quando a liberdade parece estar algemada dentro dum quarto fechado; quando a dignidade pessoal parece soar a uma língua totalmente estrangeira, que desconheço; quando a saúde parece estar a chegar ao fim; quando, nos caminhos que percorro, não tenho nem encontro “próximos”; quando o Absurdo parece ter assumido as regras do jogo e o Mal parece ter a última palavra…
Junto-me aos que se alinham? Aos que se resignam?

Quando todas as armas e estratégias parecem falhar, o Bem morre também?

Quando a Vida em abundância parece ser uma miragem num deserto; quando a liberdade parece estar algemada dentro dum quarto fechado; quando a dignidade pessoal parece soar a uma língua totalmente estrangeira, que desconheço; quando a saúde parece estar a chegar ao fim; quando, nos caminhos que percorro, não tenho nem encontro “próximos”; quando o Absurdo parece ter assumido as regras do jogo e o Mal parece ter a última palavra…

Junto-me aos que se alinham? Aos que se resignam?

Ou disponho-me a ser uma gota de água que humedece os lábios secos de alguém no meio desse deserto? Uma aragem num ambiente carregado que o refresca? Uma presença discreta junto de quem está só, que remete para a linguagem comum e ainda viva da fraternidade? Uma chispa firme de esperança, quando tudo parece ter chegado ao fim.?

Quando todas as armas e estratégias parecem falhar, o Bem morre também?

Não! Não mesmo, porque há um “resto”, uns poucos, um grupo que parece insignificante dentro do todo, que se determina a ser um incontestado adversário do absurdo e uma assumida e permanente “partícula de Bem” que inviabiliza, impossibilita que o Mal seja proclamado vencedor e o Absurdo passe a ser considerado o normal! E isto para não falar do impacto que tem na nossa própria vida o querer ser uma partícula do Bem.

Mesmo no cenário mais negro, onde tudo falha, não falha tudo porque onde parece só haver o mal, devo dizer “não te tenho medo, nem te dou a última palavra, faço-te frente com a minha partícula de bem”.

Aquele que partilha do desejo de Deus da Vida em abundância para todos, é aquele que dentro duma grande realidade não decide na base daquilo que falta, mas na base daquilo que encontra. E, se encontra o mal, não decide na base do mal, mas continua a procurar até encontrar bem, para poder decidir com base naquele pedacinho de bem que encontra.

Os portadores dos desejos de Deus, nos quais nos podemos incluir, são os que procuram o bem; são aqueles que continuam a procurar, sem parar, até que encontram aquele pedaço de bem que basta para poder repartir (e dar, e voltar a partir…) e gerar a salvação no meio do grande mal que existe. São aqueles que não se rendem diante da evidência do mal porque sabem com toda a certeza que um bem mínimo é mais forte do que um grande mal. E vão à procura desse bem porque o seu desejo é o de Deus: SALVAR! E não desistem. Não desistem enquanto não encontrarem o pequeno pedaço de bem que lhes permite continuar a avançar; aquele gérmen de bem que será capaz de tornar sã toda a doença. Isto é servir o bem dentro da realidade!

A dinâmica da salvação não é a de se afastar do mal! Muito pelo contrário! É a de se inserir na realidade do mal para romper com a espiral do mal, respondendo com o bem ao mal, introduzindo uma força de bem que seja capaz de reabsorver todo o mal, re-curando (reparando), assim, a realidade do ser humano.

Ainda por cima, sabemos que é Deus que nos dá o gérmen de bem que cura a realidade do ser humano. E este bem é o Senhor Jesus, ressuscitado, que se fez Homem, partilhando em tudo a nossa realidade, exceto no pecado, trazendo-lhe o gérmen da salvação.

A dinâmica da salvação não é a de se afastar do mal! Muito pelo contrário! É a de se inserir na realidade do mal para romper com a espiral do mal, respondendo com o bem ao mal, introduzindo uma força de bem que seja capaz de reabsorver todo o mal, re-curando (reparando), assim, a realidade do ser humano.

Ainda por cima, sabemos que é Deus que nos dá o gérmen de bem que cura a realidade do ser humano. E este bem é o Senhor Jesus, ressuscitado, que se fez Homem, partilhando em tudo a nossa realidade, exceto no pecado, trazendo-lhe o gérmen da salvação.

Ao ser, e querer ser, uma partícula deste Bem – com maiúscula -, não há realidade onde eu esteja, onde eu entre, com a que me relacione, onde o mal seja rei. Não é rei, porque mesmo que não haja mais nenhuma partícula de bem, estou lá eu, esse ínfimo bem através do qual pode ir, passo a passo, pouco a pouco, acontecendo a salvação.

Uma salvação que em definitiva todos esperam. Dizia o Papa Francisco que “no coração de cada pessoa, encerra-se a esperança como desejo e expectativa do bem, apesar de não saber o que trará consigo o amanhã” (Bula do Jubileu 2025)

Por isso, não podemos confundir a esperança com uma outra palavra: o otimismo. A esperança não é o mesmo que o otimismo. O otimismo quer que as coisas mudem e, quando não mudam, passa-se rapidamente para o seu oposto, o pessimismo. A esperança é aquela força que deriva do Bem e ilumina o caminho sempre para a frente, seja ele qual for.

Spes non confundit – a esperança não engana! (Rom 5,5) Somos peregrinos da esperança!

E basta uma, basta uma pessoa boa para haver esperança! (cfr Laudato Sì, 71).

Convido-vos a estar os próximos cinco minutos em silêncio,  antes de vos deixar duas sugestões para “refletir sobre mim mesmo/a para tirar algum proveito”:

Irm%C3%A3%20Irece%20Guia%2C%20aci
Irmã Irece Guia, aci

– O que mais me tocou, tendo em conta quem sou, as pessoas com quem trabalho, as pessoas que sirvo, os ambientes onde entro ou não quero entrar…?;

–   O que me impede de ser partícula de bem? Onde posso ser partícula de bem? De que devo ser adversário/a?

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.