Em 1989, quando o muro de Berlim caiu e depois a União Soviética se desmoronou, não celebrámos apenas a vitória do nosso lado. Celebrámos a vitória de uma ideia boa e a derrota de uma ideia má. O Ocidente democrático e liberal não é um poço infinito (ou sequer finito) de virtudes. A nossa História está repleta de tragédias, erros e pecados. Mas a ideia fundamental que nos opôs ao regime comunista soviético é absolutamente virtuosa. É a ideia de que os homens são livres, devem ser livres e o poder deve ser limitado, sendo a democracia o melhor meio que conhecemos para o fazer. Ao longo da Guerra Fria, na defesa dos interesses do Ocidente, não estivemos sempre acompanhados de democracias ou regimes recomendáveis. Mas as democracias e os regimes recomendáveis estavam todos do lado de cá. Se tivesse prevalecido o modelo alternativo, que perdeu a Guerra Fria, não haveria nada para celebrar. É preciso lembrarmo-nos disso quando olhamos para o que se está a passar.
Em 2001 aconteceram duas coisas extraordinárias e impensáveis. Os Estados Unidos da América foram atacados brutal e inesperadamente. No resto do Ocidente, a maior parte percebeu que aquele ataque não era apenas à América, era ao Ocidente, ao nosso modo de vida, às sociedades liberais onde as mulheres não vivem de rosto tapado, os criminosos não se apedrejam, a Fé é vivida em Liberdade, sem interferência do Estado. Áquilo a que Bin Laden chamava a degradação moral do Ocidente (e que Putin também chama, agora) nós chamámos sempre Liberdade, com orgulho. Tal como na Guerra Fria, no combate à ameaça do terrorismo da al-Qaeda estava em causa a defesa de um modo de vida, o modo de vida Ocidental.
Nesse mesmo ano, a China entrou para a Organização Mundial do Comércio (OMC). Com optimismo, ingenuidade ou oportunismo, aquele momento foi percebido como mais uma peça da vitória ocidental. Um regime comunista que aceita entrar no jogo, e nas regras, do capitalismo global. O resultado, resumindo muito, foi prosperidade e poder económico para a China, mas foi também a saída de milhões de seres humanos da pobreza, e o acesso de milhões de ocidentais a bens de consumo que antes eram um exclusivo dos mais ricos. Esse processo alterou equilíbrios globais, com a “ascensão da China”, e criou protestos internos no Ocidente, com grupos sociais a sentirem que perdiam empregos e oportunidades para a industrialização chinesa.
Em 2019, antes da Pandemia começar, a União Europeia fez uma revisão da sua política em relação à China e chamou-lhe um “parceiro, um competidor e um rival”. Resumidamente, a Europa entendia, então, que o processo iniciado com a entrada da China na OMC tinha permitido a Pequim uma expansão económica, interna e externa, que era desafiadora para o Ocidente. Tanto na competição por recursos naturais como na competição pela influência política em países terceiros, particularmente em África. Aos olhos dos europeus, a China era um parceiro naquilo que precisava de ser feito em cooperação à escala global, como fosse o combate às alterações climáticas; era um competidor por recursos e por mercados; e, mais grave, era um rival sistémico porque o regime chinês queria espalhar o seu modelo político alternativo, apoiando regimes autoritários pelo mundo fora e, eventualmente, promovendo visões políticas antidemocráticas na própria Europa. De novo, era o modelo político, o risco para a ideia de Liberdade e Democracia que nos preocupava.
Era o Ocidente, por oposição ao comunismo soviético, que inspirava. E esse Ocidente era, antes de mais, americano. O tempo desse mundo acabou.
E agora? O que se está a passar? O nosso modelo liberal democrático está em perigo? Ameaçado por quem?
Na década de 90 (para compreender estes tempos voltamos sempre aí), se pudessem, os países da Europa central e de leste teriam aderido aos Estados Unidos da América em vez de concorrido para entrar na União Europeia. É um exagero, claro, mas a verdade é que o sonho de polacos, húngaros, romenos, ou bálticos era o modelo democrático e capitalista do Ocidente, de que os Estados Unidos da América eram o expoente e o símbolo máximo. Era essa vida, essa democracia, liberdade, prosperidade e ambição que os movia. A Europa era o meio para lá chegar. Claro que na Alemanha havia o desejo da reunificação, e em muitos dos países da Europa central e de leste havia um regresso à geografia política do Império Austro-Húngaro, de que fizeram parte antes da absorção por Moscovo. Mas era o Ocidente, por oposição ao comunismo soviético, que inspirava. E esse Ocidente era, antes de mais, americano. O tempo desse mundo acabou.
Em 2025, a América já não tem o poder de atração que tinha. Já não inspira os povos. Já não é o modelo. A atração agora é outra. Há, entre os populistas e nacionalistas europeus, um fascínio por Trump e pelos movimentos que lhe estão associados. Mas isso não se confunde com admiração tradicional pelos valores da América. Lá e cá, alguns grupos activistas, cada vez maiores e mais novos, estão fascinados por um discurso de ódio à esquerda, aos liberais (no sentido americano, mas também e cada vez mais no sentido europeu do termo) e aos imigrantes, por uma mensagem radical assente numa perspectiva supostamente Cristã que nada deve a Deus e a Cristo mas que Os invoca. O ódio ao outro nunca foi cristão.
A América que os europeus de centro e de leste idolatravam era a América das oportunidades, da liberdade, do sonho. Esta América de Trump e Vance fala de ordem, de ódio e divisão. Que só tem paralelo na América da esquerda radical americana, que odeia a História dos Estados Unidos e o seu papel no mundo, que fala de racismo com generalizações, da polícia com ódio e do passado com o espírito da Inquisição. Juntos, estão a desfazer a América.
Aqui chegados, sobram-nos três opções. Fazer de conta que não estamos a ver nem a perceber, colaborar com o fim do nosso mundo para ver se somos poupados ao pior, ou defender o que nos define e nos protege.
Tirando os activistas, dificilmente alguém tem o sonho americano que antes se tinha. De resto, a redução do número de turistas que visitou a América nos últimos meses é mais um sinal nesse sentido. Esse é o maior prejuízo para a América da liderança de Trump e dos tempos que correm: o fim da atracção. Mais do que poder, dinheiro e armas, os Estados Unidos da América eram um sonho. Já não são.
Quando Xi Jinping reuniu a Organização de Cooperação de Xangai, em Setembro, o mais notório foi o acolhimento fraterno a Vladimir Putin e a presença do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi. E, claro, a integração da Coreia do Norte nas festividades. George W. Bush chamar-lhe-ia o novo eixo do Mal. Mas Bush, com todos os defeitos, sabia o que a América devia ser no mundo. Trump está a desfazer essa América e esse mundo.
Enquanto Trump abraça Putin ao mesmo tempo que as suas supostas iniciativas para a paz são infrutíferas, Xi oferece um palco global e respaldo internacional ao presidente russo que invadiu a Ucrânia, ameaça a segurança europeia e pode acabar com a NATO. Enquanto Trump puniu a Índia por não o propor para Prémio Nobel da Paz, o líder chinês aproxima-se do seu rival regional. Enquanto os líderes europeus foram indo a Washington preocupados e conscientes do afastamento, o presidente chinês acolhe o ditador nuclear Kim Jong-un. A todos promete o mesmo: uma ordem mundial pós americana e pós ocidental.
Em Washington, Trump terá percebido alguma coisa? Se Trump parece perceber que aquilo é uma conspiração contra a América, em vez de fazer uma aliança global, procurando manter e fazer amigos entre democracias melhores e piores, e até alguns que não o sejam, porque prefere afastar aliados? Ameaçar invadir um território da Dinamarca, que é um aliado americano, serve que interesse da América que não pudesse ser servido pela cooperação que existe? E que ideia? Porquê apoiar o partido extremista alemão que nem Órban quis no seu grupo político, ou o partido extremista iliberal e antidemocrático no Reino Unido, contra sociais-democratas e conservadores?
No dia seguinte à intervenção na Venezuela, aconteceram duas coisas que clarificam o que se está a passar. O presidente Trump excluiu a democracia na Venezuela das prioridades americanas e a América começou a falar, abertamente, da anexação, a bem ou a mal, da Gronelândia. O facto de num caso e no outro Washington só ter como critério de acção o acesso a recursos que lhe interessam é eloquente. Não está em causa a defesa de uma ideia de mundo, não está em causa a manutenção e reforço da aliança ocidental. Está em causa o poder desta América. Alguns, ideologicamente alinhados, dirão que é legítimo. Outros, cínicos, dirão que é da natureza das coisas: as potências açambarcam recursos e poder. Nem uns nem outros poderão dizer que é isto o Ocidente.
Aqui chegados, sobram-nos três opções. Fazer de conta que não estamos a ver nem a perceber, colaborar com o fim do nosso mundo para ver se somos poupados ao pior, ou defender o que nos define e nos protege. Quem acredita no Ocidente, na ideia de Liberdade, no controlo do poder por via de Democracia, quem não quer acordar na selva do mais forte, seja no mundo seja nas nossas casas, tem de escolher de que lado vai estar. Essa escolha é individual, mas é colectiva também. A Europa, com custos, terá de ser a casa das democracias e dos valores do Ocidente. Foi por aqui que tudo começou.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
