A ciência vai à guerra     - Ponto SJ

A ciência vai à guerra    

Os decisores políticos convidam agora a comunidade científica em Portugal a desenvolver tecnologias e artefactos militares. Eco de outras épocas de catástrofe, assistimos ao envolvimento da ciência com a organização e a produção da morte.

No dia 30 de janeiro do ano corrente recebi uma mensagem por correio eletrónico do meu centro de investigação. A Fundação para a Ciência e a Tecnologia abriu um programa de financiamento designado Defesa+Ciência, que visa “aproximar o Sistema Científico e Tecnológico das Forças Armadas, estimular a economia de defesa e fomentar projetos multidisciplinares que respondam a desafios societais em segurança e defesa”. Uma das áreas temáticas prioritárias é a da “Engenharia Organizacional e Comportamento Humano em Contexto Militar”, sendo que cada projeto aprovado pode receber até 50.000 euros.[1]

Quando falta tanto a tantos, até comida e habitação, criar linhas de financiamento para envolver a ciência no desenvolvimento da indústria da morte, num mundo “armado até aos dentes” – convocando a conhecida afirmação de Francisco – revela muito sobre os valores morais que orientam quem tem poder de decisão no campo científico português. Colocando-se na contramão das proclamações, a bem dizer, postiças, dos valores humanistas da defesa da paz e do bem-estar, que repetidamente apresentam a Europa como imaginado farol moral do mundo, os decisores políticos convidam agora a comunidade científica em Portugal a mobilizar os seus conhecimentos e competências para desenvolver tecnologias e artefactos militares, bem como para conceber engenharias organizacionais que preparem os cidadãos para a guerra. Com inquietantes ressonâncias de outras épocas de catástrofe, assistimos assim a uma ciência comprometida com a organização e a produção da morte em massa.

As inovações científicas e tecnológicas não são sempre expressões de progresso.

Estas questões suscitam muitas interpelações. Por exemplo, o uso da ciência para a guerra, tendo como referência fundamental o que há muito é conhecido: a ciência, as tecnologias e a inovação não são bens em si mesmo. Basta pensar no uso da energia atómica em Hiroshima e Nagasaki. Ou na destruição da natureza, só possível devido aos imensos recursos disponibilizados pela ciência e pela técnica, que nos permite explorar mais fundo e mais intensamente os recursos naturais, inclusive nas latitudes mais extremas. Quer isto dizer que as inovações científicas e tecnológicas não são sempre expressões de progresso, como há muito assinalou Ulrich Beck na sua análise dos efeitos negativos e não raro inesperados e não desejados por elas produzidos.[2] Também Francisco nos incentiva a um olhar desconfiado, necessariamente crítico e político, sobre a ciência e as tecnologias, afirmando que é já passado o “tempo de confiança irracional no progresso e nas capacidades humanas”.[3] Por isso, é preciso perguntar: que responsabilidade ética assiste aos cientistas quando os seus saberes são instrumentalizados para fins bélicos? Até que ponto a indiferença de quem produz ciência é aceitável perante o financiamento orientado para a morte?

Não é possível fixar com precisão cirúrgica a origem desta viragem belicista, pois são vários os acontecimentos que marcam a linha do tempo desta dinâmica. Podemos, no entanto, sublinhar uma data: 2022. Sempre atento e sagaz, Francisco captou bem o momento quando, na sua intervenção no Congresso do Centro Feminino Italiano, realizado em Roma a 24 de março de 2022, denunciou sem meias palavras: “Fiquei envergonhado quando li que um grupo de Estados se comprometeu a gastar dois por cento do PIB na compra de armas, como resposta ao que está a acontecer agora. Loucura! A verdadeira resposta, como disse, não são mais armas, mais sanções, mais alianças político-militares, mas outra abordagem, uma forma diferente de governar o mundo globalizado – não mostrando os dentes como agora –, uma forma diferente de estabelecer as relações internacionais”.[4]

Afinal, não é 2%! Trazendo a esta discussão o artigo que publiquei recentemente na revista Brotéria,[5] para os senhores da guerra, 2% é demasiado pouco para alimentar a vertigem beligerante, que se confunde com a voragem insaciável da indústria militar. Nada podendo ser mais concreto do que esta insensatez transformada em razão de Estado, alguns políticos apressaram-se a garantir que os novos gastos militares não terão impacto nas despesas sociais. João Gomes Cravinho, então na qualidade de ministro da Defesa, exaltou mesmo o papel das indústrias de armamento, afirmando que “empregam pessoas altamente qualificadas, são geradoras de exportações [pelo que] o investimento também tem retorno para a economia”.[6] Mesmo que isso fosse verdade, fica a pergunta: se o atual nível de despesas sociais é manifestamente insuficiente para colmatar necessidades humanas fundamentais na Europa, como a alimentação ou a habitação para todos, porque não usar o dinheiro que existe na produção de bens e serviços para uma vida digna, em vez de armas para matar?

Como é pouco popular trocar mísseis e drones por escolas e hospitais é preciso colocar em marcha a banalização do mal.

Não sendo os recursos infinitos, optar pelo desenvolvimento do complexo industrial‑militar implica tirar o pão a quem precisa. Com a crueza a que nos vamos habituando, Trump confirmou-o, ao propor aumentar as despesas militares para 1,5 biliões de dólares, cortando no orçamento destinado às despesas sociais.[7] Para termos uma noção da medida deste número, corresponde a mais de quatro vezes o PIB português, tomando como referência o ano de 2025. Ou a quase dez vezes o orçamento do Estado português (cerca de 130 mil milhões de euros). Antes de Trump, já Mark Rutte tinha avisado: os membros da NATO devem “mudar para uma mentalidade de guerra” e “turbinar” a produção de armas, pois 2% não é suficiente para conter eventuais inimigos.[8]

Como é pouco popular trocar mísseis e drones por escolas e hospitais, a não ser que se tenha interesse em os fabricar e vender, é preciso colocar em marcha a banalização do mal que mais não faz do que dar livre curso à indiferença. Nesta tarefa participam muitos dos jornalistas e comentadores que marcam presença assídua nos principais média, em especial os do audiovisual televisivo. Embora as guerras sejam outras, nada de novo. Na sua obra Os últimos dias da humanidade,[9] Karl Kraus apontou a responsabilidade dos jornalistas na carnificina em que se transformaria a Primeira Guerra Mundial, por disseminarem notícias falsas, glorificando o conflito e ocultando as suas consequências.

Enfim, tornámo-nos indiferentes!

Agora, porventura, a situação é mais grave: esta indiferença não só banaliza o mal, como remove das consciências os riscos de uma escalada descontrolada da guerra. Com o atrevimento de quem tem um conhecimento muito deficiente da história e uma compreensão superficial do que significa a existência de armas nucleares, fala-se e debate-se sobre o seu eventual uso, distinguindo, como se fosse possível distinguir entre males da mesma ordem, entre armas nucleares estratégicas e armas nucleares táticas. Obliterando que com as armas nucleares “a guerra deixa de ser um instrumento, para se transformar no principal inimigo da política, [obrigando a] “uma nova razão de Estado”,[10] este debate contém em si algo suicidário: despreza o que o mundo e os governantes foram assimilando ao longo do século XX, desde Hiroshima e Nagasaki. Convocando a carta encíclica Pacem in Terris, “Difunde-se cada vez mais entre os homens do nosso tempo a persuasão de que as eventuais controvérsias entre os povos devem ser dirimidas com negociações e não com armas. Bem sabemos que esta persuasão está geralmente relacionada com o terrível poder de destruição das armas modernas e é alimentada pelo temor das calamidades e das ruínas desastrosas que estas armas podem acarretar. Por isso, não é mais possível pensar que nesta nossa era atómica a guerra seja um meio apto para ressarcir direitos violados”.[11]

Palavras sábias de João XXIII, hoje menosprezadas ostensivamente por quem tem o poder de mandar na política e de falar no campo mediático. Tanto mais grave pois a supressão do medo em relação aos efeitos da guerra nuclear ocorre num quadro de enraizamento social da indiferença. O lema dos mercadores da morte – “a mim que me importa” – espalha‑se pela sociedade como petróleo derramado no mar. Parece que temos de dar razão a Margaret Thatcher: a sociedade não existe, só existem indivíduos e famílias, tudo o resto pouco importa, desde que o indivíduo e os seus próximos se safem. Expressão extrema da corrosão moral produzida pelo que Francisco cunhou por “cultura do descarte”, tornamo-nos indiferentes ao sofrimento dos outros, próximos ou distantes. Até muitas camadas populares simpatizam com as palavras criminosas de Trump e seus esbirros que prometem a destruição de uma civilização ou empurrar um povo inteiro para a Idade da Pedra.

Enfim, tornámo-nos indiferentes!

Por isso é tão difícil mobilizarmo-nos coletivamente para exigir, fazendo nossas as palavras duras mas urgentes de Leão XIV: “Quem tem armas nas mãos, que as deponha! Quem tem o poder de desencadear guerras, que opte pela paz! Não uma paz conseguida com a força, mas com o diálogo! Não com a vontade de dominar o outro, mas de o encontrar!”[12] A situação é tanto mais paradoxal quando, nestes tempos de “imperialismo desbocado”, como titulou o El País na primeira página da edição de 11 de janeiro passado, existem muitas razões para nos indignarmos e protestar em defesa da paz; mais do que aquando das gigantescas mobilizações populares contra a guerra no Iraque, quando em 15 de fevereiro de 2003 mais de 1,5 milhões desfilaram pelas ruas de Londres contra a invasão do Iraque e muitos mais em muitas outras cidades na maior mobilização internacional jamais ocorrida; ou antes, a 12 de julho de 1982, quando uma multidão em Nova Iorque se mobilizou pelo desarmamento nuclear ao som de Joan Baez, Bruce Springsteen, James Taylor e Jackson Browne, como justamente recorda Benoît Bréville;[13] ou ainda mais distante no tempo, nas décadas de 1960 e 1970, com a mobilização popular contra a guerra no Vietname.

Tornamo‑nos indiferentes!

Como denuncia Leão XIV, sem poupar nas palavras, habituamo‑nos “à violência, resignamo-nos a ela e tornamo-nos indiferentes. Indiferentes à morte de milhares de pessoas. Indiferentes às repercussões de ódio e divisão que os conflitos semeiam. Indiferentes às consequências económicas e sociais que produzem e que todos sentimos”.[14] O sofrimento vai substituindo a paz no presente e a tragédia define-se no horizonte da vida coletiva. Em nós habita o Dr. Strangelove de Stanley Kubrick: aprendemos a parar de preocupar e a amar a bomba [na minha tradução de Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb]. Entretanto, no momento em que escrevo, a 12 de abril, mantém-se o cessar-fogo periclitante entre os Estados Unidos e o Irão. Mas nem assim a guerra parou no Médio Oriente: Netanyahu prossegue a sua ofensiva para concretizar o plano sionista do Grande Israel, agora destruindo o Líbano, ao mesmo tempo que em Gaza e na Ucrânia se continua a morrer. Até quando?

 

[1] Cf. www.fct.pt/concursos/defesa-ciencia-concurso-para-projetos-exploratorios-2025.
[2] Beck, Ulrich (2010), Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. São Paulo, Editora 34.
[3] Papa Francisco (2015), Carta encíclica Laudato si’: sobre o cuidado da casa comum. Vaticano, Libreria Editrice Vaticana.
[4] Tradução do autor a partir do castelhano (www.vatican.va/content/francesco/es/speeches/2022/march/documents/20220324-centro-femminile-italiano.html).
[5] Ribeiro, Fernando Bessa (2025), “As armas ou o pão: uma crítica às políticas que produzem mais pobres”, Brotéria, n.º 201, pp. 209-216.
[6] Cf. www.publico.pt/2022/03/10/politica/entrevista/gomes-cravinho-aumento-despesa-defesa-ja-proximo-programa-governo-cimeira-nato-1998188.
[7] Cf., entre outros sítios de informação, www.rtp.pt/noticias/lusa/trump-aumenta-em-50-orcamento-de-defesa-dos-eua-face-a-conjuntura-perigosa_n1708549 e www.dw.com/pt-br/trump-quer-cortes-em-programas-sociais-para-turbinar-gastos-militares-em-40/a-76657512.
[8] Ver https://pt.euronews.com/my-europe/2024/12/12/lider-da-nato-pede-aos-europeus-que-facam-sacrificios-para-aumentar-despesas-com-a-defesa.
[9] Kraus, Karl (2003 [1915]). Os últimos dias da humanidade. Lisboa, Antígona.
[10] Soromenho-Marques, Viriato (2022). “A lição esquecida da Guerra Fria”, Jornal de Letras, Artes e Ideias (disponível em https://visao.pt/jornaldeletras/2022-04-01-a-licao-esquecida-da-guerra-fria/).
[11] Papa João XXIII (1963), Pacem in Terris. Vaticano, Livraria Editora Vaticana, p. 23.
[12] Cf. www.vaticannews.va/pt/papa/news/2026-04/papa-leao-mensagem-urbi-et-orbi-pascoa-rezar-paz-mundo-guerras.html.
[13] Bréville, Benoït (2026), “Um otimismo indómito”, Le Monde Diplomatique (edição portuguesa), 2ª série, n.º 234, p. 1.
[14] Cf. www.vaticannews.va/pt/papa/news/2026-04/papa-leao-mensagem-urbi-et-orbi-pascoa-rezar-paz-mundo-guerras.html

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.