O ressuscitado envia-nos - Ponto SJ

O ressuscitado envia-nos

A ressurreição não acontece num mundo justo e em paz. Justo e pacificador é Jesus. A ressurreição acontece num mundo necessitado de ser cuidado e de ter o amor como arma.

A ressurreição traz palavras de paz, alegria e o envio.

“… veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco!» Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o peito. Os discípulos encheram-se de alegria por verem o Senhor.” (Jo 20, 20-21)

A ressurreição, que é uma certeza e uma das maiores expressões de fé da vida cristã, não deve ser um mero facto histórico, um acontecimento do passado ou uma simples manifestação cultural. A ressurreição pede-nos que esta seja acolhida e atualizada na nossa vida quotidiana. Cristo está no meio de nós!

A ressurreição enche-nos de vida e dá-nos uma missão. A ressurreição encheu os discípulos de alegria e ânimo. Perderam o medo e passaram a dar continuidade à missão de Jesus: o anúncio do Reino, um Reino de justiça e de paz.

O mundo está cheio de guerras, o mundo está cheio de injustiças. Sem querer aqui aprofundar, mas o mundo também está também cheio de testemunhos de justiça e de construtores da paz.

Este é um primeiro aspeto e que deve ser trazido ao nosso pensamento. A ressurreição não acontece num mundo justo e em paz. Justo e pacificador é Jesus. A ressurreição acontece num mundo necessitado de ser cuidado e de ter o amor como arma.

São poucos os que tocam o ressuscitado, mas podem ser muitos os que são tocados pelo ressuscitado.

A missão do anúncio do Reino é assumida pelos apóstolos com a ressurreição e é, ao mesmo tempo, um convite a ser acolhida por nós e pormos em prática. Celebrar a ressurreição é trazer à nossa vida o mesmo compromisso dos apóstolos.

«A paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós.» (Jo 20, 21)

Um segundo aspeto sobre o qual reflito é o da desconfiança que se pode instalar em nós: “Tenho de ver, tenho de ter certeza, mas há tanto mal no mundo, há tanto para fazer, não consigo…” Isto faz-nos viver, ora centrados em nós e na nossa insuficiência, ora centrados numa impotência diante de uma realidade que nos paralisa, e que muitas vezes nos pode tornar indiferentes ao outro.

São poucos os que tocam o ressuscitado, mas podem ser muitos os que são tocados pelo ressuscitado. É este o anúncio do Reino; que as pessoas vivam e tenham uma vida em abundância. Mais significativo do que sermos muitos ou poucos – os apóstolos eram doze –  é o vivermos com um coração inflamado e anunciarmos de modo apaixonado.

Penso aqui em tantos que se afastam das necessidades e dos dramas dos outros, os que estão fechados ou não exercitam a compaixão. Os céticos, os desconfiados. Como gostarias que te olhassem e cuidassem de ti num momento frágil e difícil da tua vida?

Penso igualmente em tantos que se compadecem e que cuidam com ternura os que procuram uma ajuda, dedicando-lhes tempo, saber, bens, etc. Esta mesma tarde em que escrevo fui surpreendido com a visita de um companheiro jesuíta. Trazia consigo uma jovem mulher que tinha sido agredida e expulsa de casa pelo namorado. Este companheiro encontrou um sítio para ela ficar e, sobretudo, deu-lhe alento. Não a deixou só.

As guerras, migrantes e refugiados, os pobres, os descartados, os idosos, os que andam tristes, cansados, os que são violentados, os que sofrem na solidão. A todos chega ou deve chegar a ressurreição. E nós somos instrumentos desse anúncio.

“A paz esteja convosco! Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós.” (Jo 20, 21)

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.