Comecei a escrever este texto em março, numa praia ao Sul. A Primavera ainda não se tinha oficializado no calendário, mas os dias já se apresentavam soalheiros e calmos. O Algarve nesta época baixa é uma experiência diferente da que se começa a ter a partir de junho e está nos antípodas do querido (eu diria terrível) mês de agosto.
Naquele dia na praia, sentei-me e enterrei as mãos na areia. Notei que estava morna. O sol estava quente q.b., mais uma carícia que um escaldão. Lembrei-me da quantidade de vezes que atravessei o mesmo areal a saltitar no tapete escaldante, mas naquela tarde, tirei os ténis e enterrei os pés na areia com um gozo que diria proibido só porque surgiu fora de época. Ouvi uma onda a desmanchar-se na praia e a regressar ao mar, com um arrastar pedras e conchas. Lá de cima, vinha o guincho das gaivotas e ao longe, o murmúrio sussurrado de uma conversa, como se os meus vizinhos, a vários metros de distância, não quisessem perturbar o cenário com uma vibração intrusa.
Guardo aquela tarde como um instante bom de pausa e sei que preciso de muitos semelhantes, para compensar a correria habitual dos dias.
A natureza tem o dom de nos serenar e, nos tempos que correm, isso é tão precioso quanto as coisas raras. Vivemos em ambientes de constante ruído e estranhamos o cansaço no fim de cada jornada.
O silêncio começa a ser uma espécie em vias de extinção.
As nossas cidades não se calam, pulsam ferro e pó, numa sinfonia dissonante feita do ranger metálico de máquinas e guindastes, buzinas, motores, chávenas de café a serem largadas na pia, buzinas e impropérios. Tudo empurra o silêncio natural para um canto e, às vezes, só precisávamos de uns minutos disso para acalmar por dentro.
Lembro-me de uma entrevista que ouvi há uns tempos com um homem que corre o mundo a gravar a verdadeira voz da terra. Chama-se Gordon Hempton e apresenta-se como ecologista acústico. Ele considera que o nosso planeta é uma jukebox movida a energia solar, mas alerta-nos para o facto de que, nessa imensa sala de concertos, o silêncio começa a ser uma espécie em vias de extinção.
Não estamos a falar, naturalmente, da total ausência de som, esse espaço antinatural que só existe nas câmaras anecoicas que conseguem absorver quase 100% das ondas sonoras e que, por isso, se tornam ambientes hostis ao homem. O silêncio de que fala Hempton é outro, é o silêncio da poluição sonora que criamos; é o silêncio das florestas, do campo, das praias, das montanhas, dos prados ventosos, dos oceanos, dos rios, dos jardins, dos lagos. Neste sentido, ouvir não tem a ver com som, é estar num lugar e experimentá-lo, como se houvesse uma poesia do espaço.
Na verdade, se o procurarmos, mesmo numa cidade turbulenta, conseguimos encontrar oásis de calma e os espaços de oração são disso exemplo. Conheço não crentes que entram numa igreja quando precisam de silêncio, de um tempo resguardado, de um refúgio. Com ou sem fé, sabemos que ali podemos estar, simplesmente, connosco, com Deus, com tudo o que, num determinado momento, habita em nós. Entramos e o nosso olhar eleva-se, como que por instinto, vai para o alto. Só depois voltamos à base, de olhos fechados, de olhos abertos, de olhos marejados de lágrimas porque aquilo que nos alegra, perturba, magoa ou comove, encontra numa igreja o espaço para ser, apenas isso, sem medo e sem julgamento, como um abraço imenso.
Nós habitamos o ruído, mas esquecemo-nos que a criação é sempre equilibrada e que o bulício deve ser compensado com a sua parceira quietude.
Peter Li é um fotógrafo e designer gráfico que consegue capturar esse carácter suspenso dos lugares sagrados. Ele constrói panoramas resultantes de várias fotografias que são unidas numa única paisagem vertical, revelando-nos a experiência de entrar, por exemplo, numa catedral. Do seu trabalho, saem imagens 3D de espaços silenciosos e contemplativos que nos apraz olhar.
Nós habitamos o ruído, mas esquecemo-nos que a criação é sempre equilibrada e que o bulício deve ser compensado com a sua parceira quietude.
No mundo de hoje, o silêncio é tão raro que já o desaprendemos, ao ponto de, para muitos, ser até um lugar incómodo, um sítio desconhecido, estranho e, por isso, perigoso – sabe-se lá que animal nos pode surpreender dentro dele…
Mas é também sabido que é no silêncio que pensamos, criamos, serenamos, conhecemos melhor o outro e quem nós próprios somos. A imaginação precisa da tela branca e o silêncio dá-nos isso.
Volto à memória daquela praia em março. Ali, nada me gritava “urgente”, “importante”, “para ontem”. O telefone, nem o tinha comigo. A palavra “prazo” tinha desaparecido do meu vocabulário e o “tem de ser” afogara-se no mar. A minha sempre inacabada lista de tarefas estava a anos-luz e, se porventura eu voltasse a vê-la, talvez a reduzisse a menos de metade. Em contrapartida, veio-me à cabeça a música de Debussy, uma oração, os verões da minha meninice em Manta Rota, a Lagoa do Fogo em S. Miguel, o deserto na Terra Santa, verão, livros à espera de ser lidos, gelado de morango, um mojito bem fresco, uma brisa a levantar um cortinado, o primeiro mergulho de verão e aquele que gosto de dar ao final do dia, uma bola de Berlim, os passos de um samba, uma piscina à noite, uma sesta numa rede, em silêncio.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
