De há seis anos para cá, sou professor do ensino secundário. Tenho 29 anos e, por isso – pelo menos gosto de me autoconvencer disso –, o meu tempo de secundário também não está muito distante. Contra a minha vontade, tenho algumas opiniões sobre as recentes polémicas relativas às aprendizagens e metas essenciais do ensino.
Sobre Saramago, os termos da discussão são já uma tragédia. Explico porquê. Atualmente, tenho 64 alunos no 12.º ano. No ano passado, quando tinham de ler obrigatoriamente Os Maias, nenhum destes 64 alunos os leu. Nenhum. Volto a repetir: nenhum. No entanto, em geral, estes 64 alunos leem mais livros do que a minha geração. Efetivamente, a questão Saramago é só a ponta do icebergue do estado da leitura em Portugal. Os alunos têm de ler no 11.º e 12.º anos uma obra por ano e nem essa obra leem. No entanto, noutros países, por exemplo, a média de obras por ano situa-se entre as 5 (Espanha) e as 10 (França).
Devemos perguntar: esta geração lê mais, mas qual é a qualidade da sua leitura? Se a literatura é a potência máxima da língua, que literatura e, consequentemente, que língua e linguagem dominam os mapas mentais desta nova geração? Para que serve, afinal, a literatura no ensino? Porque é que, e bem, nas ciências exatas não se pode ensinar pseudociência, mas no campo das humanidades qualquer coisa serve e o que importa é ler?
Além disso, esta polémica enferma de uma miopia histórica. Por Saramago ser, mais ou menos, nosso contemporâneo, todos estamos na nossa trincheira sobre a sua inclusão, ou não, como leitura obrigatória. Mas ninguém está preocupado com a ausência de nomes como Frei Luís de Sousa, Sá de Miranda, Bernardim Ribeiro ou Fernão Mendes Pinto do programa de Português. E talvez esta perspetiva ajude a mostrar que há uma dimensão totalmente fútil nesta polémica.
Na verdade, a discussão em torno da inclusão de Saramago é uma cortina de fumo para aquilo que esta e as anteriores propostas pedagógicas apresentam: uma perigosa reestruturação do ensino assente na simplificação. Neste caso, a título de exemplo, a avaliação é reduzida apenas a dois níveis de desempenho (“Avançado” e “Proficiente”) e é proposta a progressiva substituição do conhecimento histórico e estruturado por abordagens mais genéricas. Ora, a diluição da exigência não resolve as dificuldades reais dos alunos; pelo contrário, camufla os desempenhos medianos, empobrece a intervenção pedagógica e condena os estudantes a uma aprendizagem superficial que asfixia a verdadeira capacidade de pensamento crítico. Este nivelamento por baixo ameaça agravar profundamente as desigualdades sociais e desvirtuar a missão da educação.
A diluição da exigência não resolve as dificuldades reais dos alunos; pelo contrário, camufla os desempenhos medianos, empobrece a intervenção pedagógica e condena os estudantes a uma aprendizagem superficial que asfixia a verdadeira capacidade de pensamento crítico.
Algo tem de estar muito mal para que os alunos cheguem cada vez mais ao ensino secundário e, posteriormente, ao universitário com lacunas e níveis de impreparação brutais. Este é, a meu ver, o centro da questão, que a decisão de só ser necessária uma prova de ingresso para a entrada no ensino superior quer encobrir. No final do ensino obrigatório em Portugal, mesmo tendo excelentes notas, os alunos não sabem o básico sobre História, Geografia, Matemática ou motricidade. Não sabem o que foi o 5 de outubro ou o 1 de dezembro. Não sabem saltar à corda. Não sabem dizer três rios que nasçam em Portugal. Não sabem resolver uma equação de 1.º grau. E, atenção, estas não são as perceções de um professor de província. São as conclusões que podemos tirar dos dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) e da Sociedade Portuguesa de Matemática. E tudo isto terá resultados gravíssimos, com futuros decisores políticos, económicos e sociais a terem um lastro educativo essencialmente linear e simplista.
Em parte, creio que o problema pode ter estado na convicção segundo a qual o ensino é, sobretudo, holístico, e que, numa sala de aula, todos estão em processo de aprendizagem. É verdade, são frases bonitas, mas criam perceções, a meu ver, totalmente deturpadas do processo de ensino. Dizer que o professor ensina e o aluno apreende não significa criar um regime totalitário dentro da escola. Significa colocar as coisas no seu devido lugar. Quando as matérias são complexas, o aluno é confrontado com a dificuldade, recebe estímulos, dedica-se, aprende. Não muda de rumo.
Um sistema de ensino que negligencia as humanidades forma cidadãos e líderes menos preparados para lidar com a ambiguidade, mais permeáveis à desinformação e com menos capacidade estratégica.
Além disso, o declínio do peso do ensino da História, da Filosofia e da Literatura deixa as novas gerações desarmadas para compreenderem um mundo cada vez mais complexo. Um sistema de ensino que negligencia as humanidades forma cidadãos e líderes menos preparados para lidar com a ambiguidade, mais permeáveis à desinformação e com menos capacidade estratégica. Como a polémica em torno da obrigatoriedade da leitura de Saramago mostra, somos um país marcado pelo presentismo, pelo imediato, pelo “logo se vê”.
Mas, atenção, não será a leitura de excertos soltos de Sófocles que mudará o paradigma. Porque há tramas, enredos, complexidades, ambiguidades e contradições que só a integralidade de uma obra é capaz de desmascarar. A educação integral também é isso. A obra toda. E, neste caso, mais obras, mais autores, mais mundo.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
