O nosso Deus tem espinhas - Ponto SJ

O nosso Deus tem espinhas

Passamos a vida a tirar as espinhas a Deus. Alguns para fazer dele um pega-monstro ou um boneco antisstress. Alguns para afiar as vértebras. Confunde-nos um Deus que nos leva demasiado a sério.

Só hoje nos damos conta. Não passa desta noite. É amanhã. É hoje. E em todos nós naufraga a pergunta que, antes de sair da cama, não conseguimos deixar de fazer: como é que se celebra o Natal? Precisamos de a fazer vezes sem conta. Existe a consoada, os presentes, a missa, a mesa, mas, ainda assim, como se celebra o Natal. Que é isso de cunhar, às vezes de maneira tão desafinada e desajeitada, o título de salvador a um recém-nascido que, já o sabemos, acabará preso e condenado à morte? Precisaríamos mesmo disso? De um salvador? E o que é isso de o Verbo se fazer carne, de Deus se fazer Homem?

Se esta é a comemoração da proximidade, teremos que assumir o risco de não ver plenamente. Afinal, quando estás longe de mim, vejo-te a ti e ao espaço que te rodeia. Vejo-te de todos os ângulos. Movo-me. Moves-te. Mas se estás perto, não percebo tudo o que há em ti e à tua volta. Por isso, o Natal será a festa contrária à evidência e ao percetível, festa só possível de viver à sombra da noite, desse duplo corpo quase deformado e traiçoeiro, a festa dos que, como os pastores, não são nem se fazem estranhos ao estábulo, a festa do Deus que não se relaciona connosco, como se estivesse no outro patamar das escadas, ou lá em baixo, na cave, a festa do Deus que se escreveu a si mesmo na peça.

Que festa pode, afinal, começar com um gesto burocrático: uma contagem, uma estatística, um ordenamento do catálogo? Que festa inicia desorganizando a vida: criando suspeitas, repúdios, segredos? Que festa é esta marcada, mas sem lugar? Que jogo é este em que são os convidados que se veem obrigados a encontrar uma sala para ela ocorrer? Afinal de contas, os lugares onde nascemos, mesmo na esterilidade elegante de uma maternidade, não são assim tão diferentes. A pergunta é se vivemos a necessidade de atenção como forma de opressão, ou como modo de aceitar a vida como entrega.

Confunde-nos um Deus que nos leva demasiado a sério.

No meio da incerteza ou cultivando a ansiedade, catalogamos razões de quem, como numa lista de compras, exige um salvador. A decadência do mundo, o crepúsculo da democracia, a corrupção, a violência, o isto já não ser como dantes. E assim reduzimos o Natal a um parêntesis, a um remendo, a uma resposta tardia face a um desastre, como se Deus entrasse na História porque algo correu mal. Entendemos a contingência como uma imperfeição e esquecemos que salvar não é resolver, nem reparar o que ficou danificado. Salvar é levar à plenitude, ou seja, não possuir o ser por nós mesmos, mas vivê-lo como dom recebido. Por isso, não é verdade que o problema seja não sabermos lidar com pecado. Precisamos de um salvador, antes de tudo, porque não sabemos lidar com o nosso excesso de futuro; de um salvador que sendo Messias, negue todo o messianismo.

Neste sentido, anota bem Karl Rahner quando diz que o Natal só se torna radicalmente significativo para nós “como início daquela vida e daquela morte (…) que atravessa toda a extensão da nossa vida e que não é apenas algo que acontece no fim, e que ainda não nos diz respeito” (Karl Rahner, “Understanding Christmas,” in Theological Investigations, 23/12, 140), mas futuro sempre consumação do começo.

Passamos a vida a tirar as espinhas a Deus. Alguns para fazer dele um pega-monstro ou um boneco antisstress. Alguns para afiar as vértebras tornando-as arma de ataque ou escudo de defesa. Tornamos Jesus e o seu nascimento puré instantâneo, ou buffet onde cada um é livre de “construir a sua massa”. E, no entanto, fazer-se homem, tornar-se carne, é totalmente o inverso. Tal como incarnar não é simplesmente nascer. Confunde-nos um Deus que nos leva demasiado a sério. Que aprende a viver, que aprende a tornar-se filho, que se desdobra e estende em liberdade, que nos diz que jamais irá embora, que nos diz que tudo isso não é imperfeição nem falha, que assuma que, embora não gostássemos de amadurecer, não estamos glorificados desde início, e que a perfeição não é estática, mas teleológica.

Tal como Gregório Magno referiu quando escreveu que “a Escritura cresce com aqueles que a leem”, a incarnação revela que a vida, enquanto relação, cresce na medida em que se abre e não é vivida como história já pronta ou previamente isenta por privilégio. Não por acaso, na celebração de Natal, ao rezarmos que “por nós, homens, e para nossa salvação, [Jesus] desceu dos céus e encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem”, somos convidados a ajoelhar, porque, mais que reverência, foi dado o sinal de partida.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.