Marta e Maria – duas irmãs que nos abrem a Cristo - Ponto SJ

Marta e Maria – duas irmãs que nos abrem a Cristo

Este verão, os movimentos ligados à Companhia de Jesus irão entrar na vida destas duas irmãs e do seu encontro com Jesus. O que têm Marta e Maria para nos dizer sobre Cristo nos nossos dias?

Este verão, os movimentos ligados à Companhia de Jesus irão entrar na vida destas duas irmãs e do seu encontro com Jesus. O que têm Marta e Maria para nos dizer sobre Cristo nos nossos dias?

No verão de 2026, as atividades dos movimentos ligados à Companhia de Jesus (Campinácios, CAMTIL, Gambozinos e “Rabo de Peixe sabe sonhar”) decorrerão sob o mote espiritual “Escolhe a melhor parte”. Este foi inspirado pela passagem do encontro de Marta e Maria com Jesus, relatado no evangelho de São Lucas (Lc 10, 38-42), e levanta questões importantes para os cristãos do nosso tempo, como o acolhimento, o cuidar das relações, e a conexão entre ação e oração.

Partilhamos convosco uma breve reflexão sobre esta passagem, desafiando toda a comunidade inaciana a rezar connosco pelas atividades do nosso verão, promovendo a união de corações ao longo do verão de 2026.

 

O enquadramento da passagem na teologia lucana

Marta e Maria é um texto sobejamente conhecido, no qual vale a pena mergulhar devagar. Jesus entra numa aldeia e é acolhido por uma mulher, chamada Marta, que vivia com Maria, sua irmã. Podemos imaginar que partilharam mesa com Jesus e que, no final da refeição, Marta encarrega-se de arrumar enquanto Maria fica com Jesus, sentada aos seus pés, escutando-o. É então que Marta, que tinha muito que fazer, dá nota do seu descontentamento a Jesus. Sentindo a sua dispersão, Jesus chama-a pelo nome e desafia a focar-se no essencial.

Recordemos o texto, tal como surge no Evangelho segundo São Lucas, capítulo 10, versículos 38 a 42.

38Prosseguiram, então, a viagem, e Ele entrou numa certa povoação. Acolheu-o uma mulher, chamada Marta. 39Esta tinha uma irmã chamada Maria que, sentada aos pés do Senhor, escutava a sua palavra. 40Marta, porém, andava de um lado para o outro com muito serviço. Entretanto, parou e disse: «Senhor, não te importa que a minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe que venha ajudar-me». 41O Senhor respondeu-lhe: «Marta, Marta, andas preocupada e agitada com muitas coisas, 42quando uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada».

Este episódio é exclusivo de São Lucas e tem temas tipicamente lucanos, como a escuta da palavra, o discipulado feminino e a hospitalidade. A expressão «sentar-se aos pés» tem uma forte carga rabínica, pois esta é a posição do discípulo, o que tendo em conta o género de Maria, é culturalmente surpreendente. Com este episódio, São Lucas afirma que a escuta da Palavra é constitutiva do discipulado, e que este está aberto a homens e a mulheres.

Com a narração do episódio do encontro de Marta e Maria com Jesus, São Lucas apresenta-nos quatro chaves teológicas centrais: o primado da escuta, que nos recorda que mais do que fazer muitas coisas por Ele, há que estar com Ele; a unidade entre oração e ação, numa hierarquia de fundamento, com a ação a alimentar a oração e tendo na oração um princípio despoletador; hospitalidade exterior e interior, acolhendo Jesus na casa e no coração; a inquietação como categoria espiritual. Está última não é despicienda nem deve ser afastada, pois pode ser sinal espiritual de dissonância e dispersão interiores. Tal deve mover-nos a procurar a cura junto de Jesus, numa conversão de vida que nos permite acertar passo com o Espírito Santo.

 

Marta e Maria: da tradição à contemporaneidade

Desde os Padres da Igreja, principalmente por influência de Santo Agostinho e de São Gregório Magno, que a interpretação deste Evangelho tem sido feita a partir de uma chave de leitura que coloca em evidência o contraste entre duas formas de vida na Igreja, representando Marta a vita activa e Maria a vita contemplativa. Esta distinção inspirou uma certa leitura moralizante do Evangelho, em que Marta é identificada com a dispersão mundana e Maria com a superioridade espiritual, numa oposição simplificadora.

A exegese mais recente tende a contrariar esta oposição, chamando a nossa atenção para Jesus e a dificuldade por ele identificada: não é tanto a ação o alvo das palavras de Jesus, mas sim a ansiedade dispersiva. Jesus não condena o serviço, mas aponta o centro, a ‘única coisa necessária’: a relação com Ele, fundamento de toda a ação.

O foco não está na falsa oposição ação-oração, mas sim dispersão-unificação interior. Devemos ter prudência na abordagem deste Evangelho, evitando uma leitura precipitada que nos leve a apontar o dedo a Marta como aquela que estava “errada” no fazer. Devemos, isso sim, reconhecê-la como alguém que está dispersa na ação.

Este texto não contrapõe ação e oração, mas estabelece uma ordem interior: a escuta precede, purifica e orienta a ação. Evitemos a falsa diatribe entre Marta e Maria. Apostemos naquilo a que Cristo nos chama: sermos ‘Marta’ com coração de Maria. Ou ter coração de Maria nas mãos de Marta, como rezamos na oração do animador, disponível infra. É esta a conversão por viver e a que somos chamados: atuar com o coração centrado em Jesus Cristo, prontos e disponíveis para a sua santíssima vontade.

Este atuar com o coração centrado em Jesus requer um itinerário que é traçado pela estrutura do texto. Este vai-se desenvolvendo num movimento de aprofundamento, em que a narrativa vai progredindo do exterior para o interior (fora da povoação » povoação » casa), mas também de ação exterior para o centro interior (descrição do que fazem » centrar no essencial, que não está à mostra). Este movimento pode inspirar os nossos dias este verão, bem como o ritmo das nossas vidas.

 

Oração do animador

Senhor Jesus,
antes de começarmos o que temos a fazer,
queremos sentar-nos aos teus pés.
Livra-nos da ansiedade de fazer tudo perfeito.
Liberta-nos da comparação.
Guarda-nos do ativismo vazio.
Ensina-nos a escolher a melhor parte:
estar Contigo.
Que o nosso serviço neste campo não seja ruído,
mas expressão de amizade.
Quando estivermos cansados,
recorda-nos que não somos salvadores – Tu és.
Dá-nos coração de Maria nas mãos de Marta.
Que cada participante se sinta recebido na casa do nosso cuidado
e no espaço do teu Coração.
Que cada animador seja casa de Marta e Maria para o outro.
Ámen.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.