E fui vê-lo uma segunda vez, agora com a Mulher que eu amo (não consigo interiorizar os «meus» filmes favoritos sem a presença, na minha companhia, da Constança).
Vi-o sozinho há dias e não consegui falar dele.
Apenas de o sentir.
É a hora agora.
De verbalizar sobre ele.
Fala de ervas doces e selvagens, de pés nus e de mãos calejadas e negras da terra em que se envolvem.
De presságios centenários, de mães bruxas no lado certo da história, de florestas e falcões, de um tutor de Latim e de uma Mulher visionária.
Ela toca nas mãos dos outros e sente o futuro visto, calmamente visto.
Agnes encontra Will – mais tarde o bardo mais famoso do mundo – e conclui que ele tem mais mundo interior que todos os homens que conheceu.
E, por isso, entrega-lhe o seu Amor, essa indecente obsessão que suporta o mundo e que, não raras vezes, corrói os dias.
Will vai ser um supremo bardo em Terras de Sua Majestade mas, por ora, é apenas um aprendiz de poeta e das liturgias das tábuas.
Nasce uma primeira filha, Susanna de sua graça.
Depois, vêm ao mundo dois gémeos, Hamnet e Judith.
E aqui tudo parece mortificadamente confuso para Agnes – afinal, eram duas as pessoas que ela via no seu leito de morte…
A pestilência chega sem se fazer convidada.
E Hamnet decide desafiar a Morte, fazendo em quase morte aquilo que lhe era costume em vida.
E aí a tragédia shakespeariana dos enganos ganha foros de relevo.
A ficção confunde-se com a Vida, o fantasma do pai volta para se redimir da sua não presença aquando da partida do filho, a história de Eurídice e Orfeu repete-se…
E aquele olhar final entre os dois progenitores de Hamnet fazem-no voltar à vida, mesmo que por um fugaz instante e sob a capa diáfana dos interstícios da peça que Will escreveu com a dor nos dedos.
O pai olha para a mãe em pleno palco.
E, afinal, em vez de a condenar à mortificação eterna, tal como no mito de Eurídice, dá-lhe um sopro de vida que a tudo aquilo dará sentido.
Este filme sente-se.
A obra literária de Maggie O’Farrell é também sublime.
Mas este filme que vi deliberadamente duas vezes entrou-me na alma.
Para lá ficar para sempre.
Max Richter volta a encantar-me com as suas notas musicais.
Por aqui é fácil amar as mulheres que aceitam sacrifícios e apoiam o sucesso dos seus maridos, o amor que sentem pelos filhos (elas e eles), os pés descalços a tocar no chão, os toques e rituais nas florestas de duendes e gnomos (e buracos negros), nas folhas, nas ervas que curam, nos abraços que se dão.
Por ali há unhas sujas e mantras que seguem as crianças mesmo quando a mãe não está por perto.
Há amor puro entre irmãos.
Há nomes que dilaceram mas que se podem transformar em redenção – de Hamnet a Hamlet vai um sopro de inspiração.
E há por ali fantasmas, florestas, elefantes, mitos, sonhos…
No fim, Hamnet permanece como uma longa vela acesa contra a escuridão.
Não é um romance sobre Shakespeare, nem sequer sobre a morte de uma criança.
É sobre aquilo que fica quando o amor perde o seu corpo e precisa de encontrar outra forma de existir.
E poucas obras contemporâneas conseguem transformar o silêncio da ausência numa música tão delicada.
É verdade: há vida depois da morte, mesmo que não demos por ela.
O resto… é o silêncio!
Porque falar sobre a MORTE e as suas promessas de vida também pode – e é – um acto de AMOR, o mesmo que o Senhor Deus nos deu para ofertar sem saldos ou meias-palavras…
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
