No evangelho segundo São Mateus, ouvimos Jesus dizer aos discípulos: Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma (Mt 10, 28).
Há quatrocentos anos, em Nagasaki, porque o amor a Deus era maior que o temor aos homens, era martirizado o jesuíta Beato Francisco Pacheco. Talvez, entre aqueles que leem este pequeno texto, haja alguém que tenha já ouvido dizer que há gente que morre tal qual como vive. Se este é o caso, Francisco Pacheco viveu ardendo. Se um fogo o matou, outro maior o consumiu. Se um fogo extingue o corpo, outro maior ilumina a alma. Se um fogo lhe abre o céu, a outro maior quis ele abrir a terra.
Perdoem-me se parece piada de mau gosto. Explico-me. É Jesus quem diz “vim lançar fogo à terra e que desejo Eu, senão que já estivesse ateado?” (Lc 12, 49). Francisco Pacheco foi missionário no oriente, um destes homens desejosos de ir por toda a parte e “deitar fogo ao mundo”. Talvez ressoasse nele a famosa expressão, atribuída a Santo Inácio, Ite, inflamate omnia. Desde cedo, enquanto estudante no colégio dos jesuítas, em Lisboa, vendo as naus partir para o oriente, esse fogo ia-se ateando no interior.
Todos podemos arder, mas quantos de nós deixar-se-iam consumir?
Nascido na Correlhã, em Ponte de Lima, tinha trocado o Lima pelo Tejo para estudar. Haveria de trocar o Tejo pelo Mondego quando, em 1585, entra no noviciado da Companhia de Jesus. É em 1592, com cerca de 26 anos, que Francisco parte para oriente. Segue os estudos em Goa e, depois, no Colégio de S. Paulo em Macau, onde é ordenado sacerdote e ensina teologia. Em 1604 parte, finalmente, para o Japão por um curto período de quatro anos. Voltará a Macau, como reitor do colégio, até regressar de novo ao Japão, em 1612.
A perseguição aos cristãos intensifica-se. Muitos veem-se obrigados à escolha dura com que começamos este texto. Não temer o que mata o corpo não é uma questão de esforço próprio, apenas. Muitos cristãos renunciam à sua fé para salvar a vida; muitos outros, sem renunciar à vida, aceitam a morte pela fé na vida verdadeira. E, estou certo de que concordará comigo, dentro de cada um de nós descobrimos ambos os cenários: somos medrosos e, se não permitimos que a graça de Deus nos inflame, deixamos que o medo nos extinga. Todos podemos arder, mas quantos de nós deixar-se-iam consumir?
Serão poucos, e sê-lo-ão por Graça, os que experimentam a humildade e verdade completas das palavras de Jesus: Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa, há de encontrá-la. Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida? (Mt 16, 25-26).
É difícil apagar a luz do que arde para iluminar.
Francisco Pacheco vê-se obrigado a sair do Japão, mas, discreta e humildemente, a velha chama, que crescia desde os tempos de menino, tinha já afugentado o temor. Assim, em 1615, disfarçado de comerciante, regressa ao Japão. A partir desse momento, com outros jesuítas e leigos catequistas, na clandestinidade, continuará a acompanhar os cristãos, a propagar e viver a sua fé, a ser fogo. E o fogo tem o seu efeito: é difícil apagar a luz do que arde para iluminar. E, como mostra a história dos mártires, apagar esta luz à força para que ninguém a veja é eficaz como enterrar sementes para que não cresçam as árvores.
Já provincial do Japão (fora nomeado em 1621), um seu antigo amigo, que o acolhera em sua casa e que, entretanto, renegara a fé cristã, revela a localização de Francisco e companheiros ao governador. É assim que, na noite de 18 de dezembro de 1625, um grupo de duzentos soldados cerca as casas onde se encontravam.
Até ser dada a sentença final, este grupo de prisioneiros vive, na prisão, como uma comunidade de religiosos, com tempos de oração e preparação espiritual para uma morte que intuíam. Os catequistas pedem para ser admitidos à Companhia e, mesmo sem poder celebrar missa, o Padre Francisco Pacheco admite-os. Um pequeno sinal da vida que floresce junto à morte que se abeira.
Foi no dia 20 de junho de 1626, há exatamente 400 anos, que Francisco e os seus companheiros são levados à colina dos mártires, em Nagasaki, e condenados à morte na fogueira. À espera de Francisco e outros oito jesuítas estão nove estacas de madeira onde seriam atados e, à volta de cada uma, uma grande quantidade de lenha. Estava ali disposta a sua cruz.
Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma. Disse Jesus, e continuou: Temei antes aquele que pode fazer perecer na Geena o corpo e a alma. Não se vendem dois pássaros por uma pequena moeda? E nem um deles cairá por terra sem o consentimento do vosso Pai! Não temais, pois valeis mais do que muitos pássaros. Todo aquele que se declarar por mim, diante dos homens, também me declararei por ele diante do meu Pai que está no Céu (Mt 10, 28-31).
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
