Os meus Exercícios Espirituais: entre a cruz, o silêncio e a confiança - Ponto SJ

Os meus Exercícios Espirituais: entre a cruz, o silêncio e a confiança

É com esta confiança que regresso ao quotidiano: com menos medo, mais liberdade, e a certeza de que aquilo que é essencial se revela, muitas vezes, precisamente quando encontramos a coragem de permanecer.

Há decisões que adiamos durante anos, e raramente é por falta de razões para as tomar: é por nos faltar a coragem de parar. Tudo, à nossa volta, parece feito para nos poupar ao incómodo — para apressar respostas, abafar o vazio e não deixar um único intervalo por preencher. Também eu fui contornando este encontro. Adiei a minha primeira experiência dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio algumas vezes, talvez por preguiça, se calhar apego ao conforto, ou pela convicção silenciosa de que não precisava deles. Hoje sei que o que me faltava era tempo para amadurecer esta decisão, para que esta nascesse pensada, tomada com o coração, e não fosse mais uma entre tantas promessas que se anunciam e logo se esquecem. Vim, afinal, no momento exato.

Entrar nestes dias foi, antes de tudo, deixar-me interromper. A cruz tem essa força: trava o fluxo apressado com que vamos arrumando a vida e exige que olhemos de frente aquilo que, de outro modo, daríamos a volta para evitar. Eu própria cheguei a querer dar essa volta — trazia comigo perguntas, inquietações e dúvidas sobre o rumo que quero dar à minha vida, e a tentação era resolvê-las à pressa, como quem risca mais um assunto da lista. O silêncio não mo consentiu. Dei-me conta de quanto tinha desaprendido a simplesmente estar — sem tarefa, sem pressa, sem nada para resolver — e foi nessa quietude, que ao início me incomodava, que aos poucos comecei a ver com nitidez.

Boa parte das minhas inquietações vinham de querer dominar o que não está nas minhas mãos e de confundir essa incerteza com fracasso.

E o que aí se me tornou claro foi algo tão simples quanto difícil de aceitar: a minha vida não se resume àquilo que consigo, afirmo ou conquisto. Há nela, também, uma parte frágil e exposta, que eu preferia esconder. Percebi ainda que, durante demasiado tempo, tinha procurado apenas aquilo que me saciava no imediato — o pão que enche por um instante e depressa deixa de bastar — em vez de procurar Aquele que verdadeiramente alimenta. Boa parte das minhas inquietações vinham de querer dominar o que não está nas minhas mãos e de confundir essa incerteza com fracasso. A cruz pede-me o contrário: que confie. Não que a dor se evapore, mas que aceite que há sentido a habitar mesmo nos caminhos que custam.

Por passar grande parte do meu tempo sozinha, há uma solidão que poucos veem e que quase ninguém entende, à qual eu própria me habituei, quase um hábito a que deixei de prestar atenção. A cruz, porém, ensinou-me a olhá-la de outra maneira. A solidão é uma dessas realidades de que toda a gente procura escapar; e foi exatamente nela, no silêncio destes dias, que percebi uma diferença que sempre me passara ao lado: existe uma solidão que isola e uma solidão que abre caminho ao encontro. A primeira pesa porque nos deixa entregues a nós mesmos; a segunda, vivida diante de Deus, deixou de ser abandono para passar a ser companhia. Aprendi que nem sempre estar só é estar sozinha.

Convém, ainda assim, não fazer da cruz um elogio do sofrimento. O que lhe dá sentido não é a dor, mas a forma como a atravessamos: sem fugir, fiéis a quem amamos mesmo quando amar deixa de ser fácil. Aprendi que o que pesa não tem de destruir. Há fardos que limpam, que põem a vida na ordem certa, que nos devolvem profundidade e nos fazem distinguir o que conta daquilo que é apenas barulho. Engana-se quem pensa que viver bem é viver sem peso nenhum: uma existência demasiado leve corre o risco de ficar oca. No fundo, compreendi que o que me é prometido não é uma vida poupada a tudo, mas uma vida plena, vivida em abundância — e que essa plenitude passa, muitas vezes, precisamente por aquilo que mais custa carregar.

A esperança verdadeira não está em negar a dor, mas em deixá-la transformar-se noutra coisa.

Mais do que tudo, estes dias ensinaram-me a permanecer. A permanecer diante das perguntas sem lhes exigir resposta imediata; a manter-me fiel ao sonho de Deus para mim, mesmo sem ver ainda o caminho inteiro; a não fugir, num tempo em que o reflexo é sempre trocar, apressar ou esquecer aquilo que custa. Foi nesse esforço de não sair do lugar — tão ao contrário de um mundo que descarta com tanta facilidade — que encontrei uma paz plena: não a paz de quem tem tudo garantido, mas a de quem aprendeu a confiar.

Senti-me verdadeiramente guiada e acolhida pelo Senhor. Pela primeira vez em muito tempo, deixei-me parar, escutar e arrumar aquilo que trazia por dentro. Compreendi que só quando me deixo habitar pela verdade — quando largo as meias-verdades e as pressas com que tantas vezes me protejo — me torno capaz de reconhecer e escutar a Sua voz. No meio desse silêncio voltaram a fazer-me sentido palavras que o barulho dos dias tinha degastado — entrega, misericórdia, gratidão, confiança — já não como ideias distantes, mas como gestos reais de uma vida mais inteira. E veio-me uma clareza que não nasceu de raciocínios nem de explicações: percebi que há uma felicidade reservada a quem acredita sem precisar de ver, e foi nessa confiança, mais do que em qualquer prova, que encontrei a certeza serena de que sigo na direção certa.

Saio sem todas as respostas, mas com menos perguntas do que tinha à entrada. Sei que a vida há de continuar a trazer-me desafios, dúvidas e cruzes; levo, porém, a certeza de que não terei de as carregar sozinha, e de que a esperança verdadeira não está em negar a dor, mas em deixá-la transformar-se noutra coisa. A frase que me acompanhou ao longo destes dias — da canção “A Cruz”, de Luís Roquette — diz bem o que ficou no meu coração:

“Tenho o coração em paz, porque confio em Ti;
Eu abraço a minha cruz porque confio em Ti.”

É com esta confiança que regresso ao quotidiano: com menos medo, mais liberdade, e a certeza de que aquilo que é essencial se revela, muitas vezes, precisamente quando encontramos a coragem de permanecer.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.