O padre Roque de Aguiar Pereira Cabral morreu em Braga no dia 24 de Junho de 2021, faz hoje uma mão cheia de saudades. Mas vive. E ajuda-nos a perceber um bocadinho a omnipresença: a sua ausência espelha a sua presença na mesma medida. Ou, quando se é tão inteiro, está-se, integralmente, em toda a parte. Aqui, ali, lá e cá. Mesmo sem partilharmos a genética e sem nunca ter assistido a uma sua aula na faculdade, arrisco dizer com um orgulho que me é caro, que sou uma sortuda que encaixa em todos os seus bons lugares. Foi, e é, muito mais do que o padre de referência: família, amigo, mestre e professor de todas as matérias.
Cresci com o tio Roque à distância de uma carta, com a certeza e o grande privilégio de passar com ele pelo menos 15 dias por ano no verão. Académico por excelência, tinha muito jeito para crianças e, olhando agora para trás, a sua paciência estratosférica devia ter sido também estudada. Não sei quando mas um dia comecei a reparar no «padre» Roque. Reparar é parar duas vezes. Atravessar um silêncio do princípio ao fim e demorar generosamente o olhar. Ensinou-me a dar tempo para que coisas novas brilhem, apesar de antigas. E, de repente, em pleno agosto, o meu recreio passou a ser espiar o universo que lhe saía pela boca, sem nunca gastar uma frase. Admirar a precisão das suas palavras e o rigor das suas traduções. Apreciar a intenção e luminosidade do seu olhar e deliciar-me com o seu sentido de humor tão puro e tão bom.
Depois do almoço o tio Roque subia sempre ao terraço lá de cima para “dar umas voltas”. Um dia ganhei coragem, segui-o e percebi ao que se dedicava. Achei mágico, achava o terço uma seca mas não tive a menor dúvida: aquele só podia ser melhor.
No verão, todos o visitavam com a maior alegria — esperavam-no, família e amigos, quase todos os dias. Um ano trouxe consigo duas irmãs, a tia Inês e a tia Rita, e durante muitos outros passaram a vir os três. A maneira como estas duas irmãs o tratavam era de uma ternura que não se inventa, e confirmavam tudo aquilo que ía testemunhando sem saber. O padre Roque era o mais novo de 9 irmãos e muitíssimo orgulhoso de todos, mas recordo este trio em particular porque pude contemplar uma boa série de tardes e serões entre eles. Sorte a minha de se meterem tanto comigo e de acabar a juntar-me tantas vezes aos seus chás, cafés e às areias preferidas do padre Roque.
Depois do almoço o tio Roque subia sempre ao terraço lá de cima para “dar umas voltas”. Era possível vê-lo cá de baixo, sempre que se aproximava da margem que dava para o pátio. Víamo-lo e deixávamos de o ver, como uma onda que vai e vem. Nunca foi dito mas sabíamos que não o podíamos interromper nas suas voltas. Um dia ganhei coragem, segui-o e percebi ao que se dedicava. Achei mágico, achava o terço uma seca mas não tive a menor dúvida: aquele só podia ser melhor. Parecia que o tio Roque se iluminava. Durante o dia ficava sempre na dúvida, mas de noite, confirmava a teoria.
Devia ter uns 15 anos quando lhe perguntei pela primeira vez se podíamos combinar uma conversa e aí começou a verdadeira aventura de crescer. A sua mão foi fundamental para a minha conversão e, também por isso, ressoam para sempre as suas luzes.
Foi a primeira pessoa a falar-me da Brotéria. Em pequena, pedia-me sempre para as arrumar cronologicamente, para ficar quieta enquanto esperava pela mamie, que com ele se ia confessar. Durante anos “li” as revistas como se liam as caixas de cereais ao pequeno-almoço nos anos 90: meio zombie, talvez até com alguma criatividade e melodia mas sem consciência nenhuma. Juntava-as por cores, empilhava pelos nomes dos autores mais frequentes, tentava arrumar as repetidas de maneira diferente e brincava com a luz que reflectiam (muitíssimo menos que agora, não era fácil). No fim fazia-me sempre explicar a estética da arrumação, com verdadeira curiosidade. Com o passar dos anos, começou a sugerir-me artigos. Quando, em 2019, comecei a colaborar com a Brotéria, foi o primeiro a saber, claro.
Em abril deste ano fez 80 anos desde que o Petit Prince foi editado pela primeira vez. O seu autor, que estudou num colégio jesuíta, foi um escritor, ilustrador e aviador francês. Além disto, não sei se partilhavam assim tanta coisa mas durante alguns anos, no meu imaginário, quem escreveu o Petit Prince foi o tio Roque. O que não é assim tão descabido. Devia ter uns 15 anos quando lhe perguntei pela primeira vez se podíamos combinar uma conversa e aí começou a verdadeira aventura de crescer. A sua mão foi fundamental para a minha conversão e, também por isso, ressoam para sempre as suas luzes.
Soprava conselhos sempre certeiros como se nada fosse e deixo aqui o que mais uso, o filtro triplo de Sócrates, que nos impele a falar apenas quando o que queremos dizer passa em três crivos: o da verdade, o da bondade e o da utilidade.
Uma vez chamaram-me «o milagre do padre Roque» e acho que isso revela bem o nível da minha teimosia. Prefiro persistência, mas é verdade que faço jus ao signo touro, até conseguir perceber o que leio. O padre Roque ensinou-me a abrir as mãos, a deixar cair muitos «mas» e fez-me aceitar a ambiguidade do nosso olhar: sempre insuficiente e também muito precioso (sem mas!). Soprava conselhos sempre certeiros como se nada fosse e deixo aqui o que mais uso, e também o que mais ofereci à minha volta. Tem graça porque amigos meus, que não o chegaram a conhecer, às vezes me perguntam: «como é que são os filtros do padre Roque?» quando, na verdade, estamos a falar do filtro triplo de Sócrates (claramente o da Grécia Antiga). Isto é, falar apenas quando o que queremos dizer passa nos três crivos: o da verdade, o da bondade e o da utilidade. Guardo também todas as suas cartas, a sua letra cursiva e a beleza de o ver ler, escrever e trabalhar.
Homenagens não lhe faltam, evidentemente, e não só há muito que não tem como se dizer como, em 2021, no VOL 193—2/3 da revista Brotéria, Michel Renaud escreveu já tanto. Do que é possível. Em quatro flashes tão bons de ler e reler (onde, por vezes, quase o podemos ouvir). Queria só garantir que, nem que seja só de cinco em cinco anos, voltamos a esse artigo. E, sempre, a este amigo.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
