E Jesus disse-lhes: “Não pertence a vós saber os tempos e datas que o Pai reservou à sua própria autoridade” (At 1, 7). Nestes últimos meses questionei-me de forma quase diária sobre as minhas ações e a sua moralidade. O raciocínio por detrás daquilo que me moveu em cenários difíceis. Até esta reflexão escrita foi submetida a este meu processo de dúvida perpétua sobre qual o caminho a seguir. A conclusão a que tenho chegado é que esse exercício, a que me entreguei nos últimos meses, permitiu-me atingir uma compreensão cada vez mais clara sobre a minha humanidade, e como ela cresce e floresce no encontro com Cristo no meio das multidões e na intimidade de cada um.
Vi uma comunidade cristã desfigurar-se por completo. Perder a essência do desafio pastoral, uma vida repleta de esperança no encontro com Jesus nos sacramentos, que se transforma num sentido de responsabilidade para com o próximo. Sentimo-nos na obrigação de escolher trabalhar com sentido de serviço, de justiça, de zelo pelo mais enfraquecido e esquecido. Uma pastoral que é farol da dignidade humana.
Ser testemunho vivo do mistério da nossa fé passa por não ignorar estes passos, e isso dá trabalho, muito mesmo. A tentação de cortar alguns cantos é grande, e com o passar do tempo, e com o silêncio a tornar-se ensurdecedor, é preferível sacudir o pó das sandálias e partir. Questionei-me muitas vezes se seria capaz, e cheguei a dizer que o faria. “Até quando me escondereis a Vossa face?” (Sl 12). Onde estava Deus nas dores, nos confrontos? Queixava-me como no salmo, procurava amparo para as minhas fraquezas e falhas, pedia perdão pelo sofrimento que poderia ter causado injustamente. Procurava o perdão. O meu ímpeto semi-revolucionário de jovem inconsequente estava desfeito num par de semanas. Algo não estava certo.
Não devemos associar o curso natural e normal da vida a dificuldades impostas. Por vezes a vida é simplesmente isso, difícil.
Vi uma peregrinação a Roma. Entre receios e dúvidas, embarquei ao encontro da graça do Jubileu, das Portas Santas, da misericórdia de Deus. E quão cheia de misericórdia foi esta peregrinação. O caminho em diocese, com tantas caras conhecidas, uma verdadeira sensação de comunidade cristã rumo aos braços de Deus. O túmulo de Francisco, onde por momentos me deixei vencer pelo cansaço dos dias, a fraqueza dos meses, e a saudade de um homem que me marcou de uma forma inconcebível. A Porta Santa em São Pedro. Um caminho feito individualmente, onde não faltaram lágrimas que corriam onde menos se poderia prever. O nosso Papa Leão XIV, que em Tor Vergata apelou a corações jovens, muitas vezes maleáveis às piores intenções, a uma identidade cristã ancorada nos sacramentos, na coragem, e na esperança de que a misericórdia pode mudar o mundo.
De tudo o que vivi, destaco a última noite passada em Lourdes. Depois de uma série de acontecimentos desafiantes em grupo, de pernas e olhos pesados, vi Jesus consagrado exposto. Estava um pouco longe de mim, mas lá estava. E ali, com os meus amigos a dormir ao meu lado, ajoelhei-me, e meditei sobre a Sua misericórdia. Era incapaz de questionar onde estava Nosso Senhor, porque era naquele lugar que ele se encontrava. As questões foram substituídas por afirmações, por reforço. Senti-me como Tomé, que viu e acreditou. “Alegro-me nas minhas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por Cristo, pois, quando me sinto fraco, então é que sou forte.” (2 Cor, 12,10). Naquela noite, senti que foi reforçada a minha vontade de viver comprometido com Cristo e com a Sua proposta, e fazer da esperança o sustento da minha vida. A esperança é o caminho da comunhão entre irmãos, do amor incondicional, um caminho para lá da cruz.
Reforçado pela chama da esperança divina, vi um sepulcro vazio no adeus a uma mãe. Perante tanta dor e sofrimento, era capaz de ver a herança de uma vida inteira dedicada à vocação da família. Quanta bondade, caridade e humildade se alimentou graças a uma mulher que se entregou todos os dias pelo amor ao próximo. Que colocava Jesus e a Sua família no centro da sua casa. Congregava amigos e conhecidos, estrangeiros e esquecidos. Olhos e mãos plenos de céu. Uma vida que transparece santidade a cada canto. É impossível não sorrir quando sei onde estás. Não pude realizar as lágrimas de que precisava, porque tu não estavas lá. O sepulcro está vazio. Quero ser como tu, Teresa.
Ver para crer. Tocar para acreditar. Estes meses foram cheios da presença de Cristo em tudo o que me rodeia. Na comunidade ferida, nos jovens apaixonados, nas despedidas súbitas. Tudo formas de Deus nos colocar à prova, e de a Seu tempo, mostrar-nos a Sua misericórdia, de formas que não esperamos. A capacidade de persistir na fé nestes momentos é recompensada, sempre. O nosso carácter é reforçado em humildade, compaixão, sabedoria e integridade. É verdade que não devemos associar o curso natural e normal da vida a dificuldades impostas. Por vezes a vida é simplesmente isso, difícil. Nem devemos glorificar o sofrimento ou consolarmo-nos a cada esquina. Não há lugar para o desespero ou para falsos otimismos. Só há espaço para o radicalismo de uma vida lado a lado com Cristo, até ao fim.
“Entrai pela porta estreita, porque é larga a porta e espaçoso o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela! Como é estreita a porta e apertado o caminho que leva à vida, e são poucos os que o encontram.” (Mt 7, 13-14).
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
