Artigo inicialmente publicado na revista Brotéria 200–5/6 (2025): 380–385
Entre maio e junho de 325, teve lugar o primeiro concílio ecuménico da história do cristianismo, convocado pelo Imperador Constantino para a cidade de Niceia, hoje Iznik, na atual Turquia. Celebramos o 1700º aniversário. Passadas as grandes perseguições dos primeiros três séculos, inaugurava-se, então, o longo arco da cristandade que, com múltiplas etapas, viria até às portas do Vaticano II, nos anos sessenta do século XX. Em Niceia, cerca de três centenas de bispos estabeleceram a profissão comum da fé cristã. Com as aquisições do Concílio subsequente, que haveria de reunir-se em Constantinopla, em 381, ficava estabelecido o Credo, herança comum ao universo cristão que, em momentos posteriores, viria a dividir-se em diversas confissões.
Em contexto romano-helenista, já longe da matriz bíblica-hebraica, por convocatória e sob a égide do imperador romano, colocava-se a questão teológica de Deus uno e trino. Se Jesus de Nazaré é o Filho de Deus encarnado na história, como pensar o Filho na sua relação eterna com o Pai? Como pensar o Deus único e as suas relações trinitárias? E como pensar a criação, em particular a do ser humano, a partir da dinâmica trinitária? O Cardeal Kurt Koch, Prefeito do Dicastério para a promoção da unidade dos cristãos, num artigo publicado no jornal do Vaticano L’Osservatore Romano, de 24 de março passado, resumia assim o que estava em jogo: «o pano de fundo histórico é o de uma violenta disputa que eclodiu no cristianismo da época, especialmente na parte oriental do império romano (…). A controvérsia girava principalmente em torno da questão de como conciliar a profissão de fé cristã em Jesus Cristo como Filho de Deus com a fé igualmente cristã num único Deus, no sentido da confissão monoteísta».
Niceia teve uma verdadeira audácia cristológica e trinitária que ainda tem muito para nos dizer sobre Deus e sobre a humanidade que partilhamos.
Protagonista na disputa tinha sido Ário, teólogo que nascera em Alexandria, em 260, e morrera em Antioquia, em 312, que «preconizava um monoteísmo rigoroso, de acordo com o pensamento filosófico da época». Para o manter, «excluía Jesus Cristo do conceito de Deus». Por isso, «Cristo não podia ser “Filho de Deus” no verdadeiro sentido da palavra, mas apenas um ser intermédio utilizado por Deus para a criação do mundo e para a sua relação com os homens». Ainda que divino, mas de um grau inferior, o Filho não era coeterno com o Pai, mas uma sua criatura. Lógica e ontologicamente, o Filho viria depois do Pai. Para preservar a unidade “monárquica” do princípio divino e o seu carácter absoluto, cabia pensar um momento em que Deus era sozinho, sem o Filho e, portanto, sem ser Pai. Será tal «modelo de monoteísmo filosófico rígido difundido por Ário» que o Concílio vem rejeitar, opondo-lhe a formulação de que Jesus Cristo é Filho de Deus “gerado, não criado”, portanto, “da mesma substância” ou “da mesma natureza” do Pai. Homoousios, “consubstancial” ao Pai, é a palavra grega usada que ficaria como património da Igreja. Com ela, «os Padres conciliares queriam exprimir o mistério mais profundo de Jesus Cristo, que a Sagrada Escritura testemunha como o Filho fiel do Pai, ao qual está intimamente unido na oração».[1]
“Bizantinices”, dirão alguns. De facto, tais disputas teológicas sobre o sentido preciso e o alcance de palavras como “gerar”, “criar”, “substância” ou “natureza” são-nos muito distantes. Mesmo para cristãos que continuam a recitar o Credo todos os domingos na Eucaristia, não são conceitos que despertem particulares paixões intelectuais ou afetivas. Porém, Niceia teve uma verdadeira audácia cristológica e trinitária que ainda tem muito para nos dizer sobre Deus e sobre a humanidade que partilhamos.
Ao professar que Jesus de Nazaré é o Filho encarnado e que o Filho é gerado pelo Pai, não criado, consubstancial a Ele, Niceia está a afirmar que Deus é Pai que gera um Filho e que é Filho gerado pelo Pai. Deste modo, redefine o núcleo da doutrina trinitária de uma forma inédita, pondo em tensão a hermenêutica bíblica e a tradição filosófica da compreensão da invisibilidade e da imutabilidade de Deus. O ser originário não é substância que subsiste de forma absoluta, literalmente sozinha e solitária, na sua omnipotência autossuficiente e livre de vínculos. Se «Deus é amor», segundo a definição depuradíssima do Evangelista João, Deus é amor-que-gera: desde toda a eternidade, é Pai que gera o Filho; desde toda a eternidade, Deus é amor-gerado-que-corresponde: é Filho gerado pelo Pai; desde toda a eternidade, Deus é Espírito Santo, liberdade e fecundidade do amor que circula entre Pai e Filho – o entre-tanto que irradia a vida, distinto do Pai e do Filho, que é também o lugar da criação. Cada um – Pai, Filho e Espírito Santo – é quem é na medida em que é para outro e se recebe de outro; nenhum vive separado do outro; nenhum se funde ou se confunde com o outro. Diferença e relação dão forma à perfeição da identidade divina, segundo a inteligência teológica cristã salvaguardada em Niceia. Nas palavras da teóloga Stella Morra, ao confessarem Deus-Trindade como «comunhão na qual a diversidade dos Três é também a sua perfeita igualdade», os cristãos recorrem com criatividade às palavras disponíveis «para dizer que não há defesa nem inveja possível entre Pai, Filho e Espírito, mas apenas perfeita aceitação recíproca, até à identidade: um só Deus»[2].
O Absoluto-Narciso sem relações não é o divino estabelecido no credo cristão em Niceia. Não é, por isso, a verdade do humano criado à imagem e semelhança de Deus-Relação.
Reconhecendo em Niceia a introdução de um dado «impensável na história da interpretação bíblica e da ontologia filosófica»[3] grega, o teólogo Pierangelo Sequeri identifica nesta singularidade doutrinal e originalidade linguística um grande filão, cujas consequências ainda não explorámos de forma radical, nem filosófica, nem antropológica, nem socialmente. Trata-se de identificar na “geração” o vínculo afetivo que define a relação entre Pai e Filho e que institui a diferença pessoal na mesma relação. Mantendo o conceito bíblico de geração para exprimir a igualdade e a reciprocidade eterna entre o Filho e o Pai – “gerado, não criado” – e permanecendo longe da matriz racionalista e inafetiva do princípio absoluto do real – da “matéria-prima” ontológica de que são feitas todas as coisas –, a fé de Niceia afirma que tal princípio absoluto não é “ser”, mas “fazer ser”. A “substância” de Deus «não é simplesmente ser, mas fazer-ser “por amor” e “no amor”», afirma Sequeri. Consequentemente, «ser autossuficiente não é o vértice da perfeição», acrescenta – esse ser supremo que simplesmente goza da sua autorrealização «não é o Deus digno de adoração da revelação cristã».
Para nós ocidentais, que «temos cultivado uma verdadeira idolatria da autorrealização e aprendido a considerar a liberdade como faculdade de poder anular qualquer vínculo», colocar na identidade divina a “geração” e o “vínculo afetivo” (um afeto verdadeiro é um laço forte que liga) significa desarmar «a versão narcisista do monoteísmo à qual nos fomos adaptando» – Deus visto ou como Monarca Absoluto ou como Grande Narciso que tanto desejo de imitação desperta. Hoje, assume contornos particulares. «Se observarmos bem a campanha eleitoral vencedora das eleições presidenciais norte-americanas, concluímos que ela foi construída como um vórtice incessante, tumultuoso e dionisíaco, cujo centro foi um Eu omnipresente e agigantado, exibido e louvado, hipertrofiado e obsessivamente autonomeado e nomeado por todos». A análise é de João Manuel dos Santos e de António Soares no editorial do número de inverno de 2024–2025 da revista Electra, toda dedicada ao tema do narcisismo. Tal culto «subterrâneo e sombrio deste eu másculo, musculado e maiúsculo – continuam os autores –, que apenas reconhece e consente os mesmos e nunca os outros, os súbditos e jamais os iguais, faz do mundo o incomensurável espaço onde se olha para se ver, onde se vê para se exaltar e onde se exalta para ameaçar, conquistar, possuir e dominar». Na verdade, distingue-se do Narciso grego por trocar «o lago de águas calmas e fixas, em que o antigo rosto incansavelmente se contemplava, pelos fluxos frenéticos e fulminantes dos écrans». Agora, são estes que «lhe garantem a amnésia que rasura o passado, o medo que mina o presente e a mentira que manipula o futuro»[4].
O Absoluto-Narciso sem relações não é o divino estabelecido no credo cristão em Niceia. Não é, por isso, a verdade do humano criado à imagem e semelhança de Deus-Relação. Contrariamente a afirmar Deus como Eu descomunal e separado, ao colocar a “geração” na identidade divina, resgatam-se os vínculos humanos de um registo eminentemente negativo, no mínimo a evitar. No mesmo número de Electra, o jornalista e ensaísta Vincent Cocquebert desenha assim o quadro: «são cada vez mais as pessoas que vivem sozinhas, que decidem não se casar, não ter filhos, não ter contas bancárias conjuntas, não discutir as decisões importantes com os parceiros ou deixar de partilhar as refeições em família. Também é cada vez maior o número de pessoas que não se preocupa com a política (41%) e com os acontecimentos internacionais (46%)». Seria injusto considerar todos estes traços como expressão de individualismo e de indisponibilidade para estabelecer vínculos, mas podemos reconhecer uma tendência do tempo presente. «Já não estamos simplesmente acometidos pelo sentimento individual de estar separados do resto da sociedade. Estamos agora encolhidos dentro de nós mesmos e em luta permanente com o mundo que já não queremos mudar coletivamente, mas submeter à nossa vontade». É esta a razão «pela qual as reivindicações atuais dos indivíduos oscilam entre a “busca do reconhecimento” (…) e uma preocupação crescente em proteger o nosso poder de compra, tornado sinónimo de poder de sermos nós próprios»[5].
Há 1700 anos, Niceia abriu um caminho diferente cuja exploração ainda não esgotámos.
De modo bem diferente, na compreensão trinitária de Deus e na compreensão do humano que se reveja nessa matriz ontológica, o “outro” não é aquele que posso ignorar ou do qual, antes de mais, me devo proteger, mas é aquele de quem me recebo (venho à vida gerado por outrem) e aquele para quem posso ser (sou eu enquanto gero outros à vida). Por isso, ser eu próprio passará mais por me interrogar sobre “para quem sou” do que sobre “quem sou”. Ainda que esta linguagem possa não ser imediata, percebemos que o que está em causa é bem mais do que a discussão do “sexo dos anjos”.
A compreensão de Deus formulada em Niceia professa que a identidade divina e, consequentemente, a humana é “ser para outro”. A pergunta “quem sou eu?”, que hoje tanto nos ocupa e tanta ansiedade nos gera, cederá, por isso, o lugar a “quem se me deu para que eu seja?” e “para quem sou eu?”, outro modo, talvez mais verdadeiro e justo, de nos compreendermos e de nos relacionarmos.[6] Dizer não à versão despótica ou narcisista do monoteísmo e dizer não a uma humanidade que tem Narciso por ídolo, não é sem alcance quando, hoje, se reforçam, por um lado, traços de uma cultura do indivíduo solitário, atraído pelo imagem de si mesmo, o desenvolvimento pessoal e a autorrealização, e se afirmam, por outro, dinâmicas autoritárias e imperiais que se regem pela imposição da lei do mais forte – nós primeiro que os outros; nós de novo grandes, à custa dos outros, se necessário.
Soi-même comme un roi é o título do ensaio de 2021 de Élisabeth Roudinesco sobre as derivas identitárias que passaram a estar no centro do debate contemporâneo e que, segundo a autora, tomaram o lugar da cultura do narcisismo (A cultura do narcisismo é o título do conhecido livro de Christopher Lasch, de 1979). Há 1700 anos, Niceia abriu um caminho diferente cuja exploração ainda não esgotámos. Dizendo a intimidade divina como “fazer-ser-por-amor”, portanto, que gera livremente e que irradia a vida por pura gratuidade, bem longe da relação romântica de espelhamento autorreferencial e autossuficiente, diz também que o ser humano, porque criado à imagem e semelhança de Deus-que-é-assim, aprende que a verdade de si mesmo não está em impor-se como um soberano prepotente nem em contemplar-se como Narciso estéril, mas que está em ser-para-outro.
[1] Veja-se também o documento da Comissão Teológica Internacional, “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador. 1700º aniversário do Concílio Ecuménico de Niceia 325–2025”, recentemente publicado, disponível on-line.
[2] Stella Morra, Parole intorno al pozzo. Conversazioni sulla fede (Cinisello Balsamo: San Paolo, 2013), 67.
[3] Anne-Marie Pelletier, Pierangelo Sequeri, Claudio Monge, Massimo Donà, “Nicea, impensabile sommovimento”, Vita e Pensiero 1 (2025): 99–111. Para aprofundar o pensamento teológico-ontológico de P. Sequeri em torno da “geração”, veja-se, por exemplo, L’amore della ragione (Bologna: EDB, 2012); La fede e la giustizia degli affetti (Siena: Cantagalli, 2019); Il grembo di Dio (Roma: Città Nuova, 2023).
[4] “A certeza de si”, Electra 27 (2024–2025): 8.
[5] “A nova cultural do narcisismo”, Electra 27 (2024–2025): 56.
[6] Permito-me reenviar para José Frazão Correia, Entre-tanto. A difícil bênção da vida e da fé (Prior Velho: Paulinas, 2014), 15–35.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
