Os reis no céu e as rainhas que lá esquecemos
Há uma cena icónica de O Rei Leão que me marcou desde miúdo e que volto a ver, agora do outro lado, com filhos ao colo: aquela em que Mufasa leva o pequeno Simba a olhar o céu noturno e lhe explica que os grandes reis do passado nos observam lá de cima, de entre as estrelas, e que nunca estaremos verdadeiramente sós enquanto eles ali estiverem a guiar-nos. Sempre achei comovente essa ideia e sempre estranhei, confesso, o mesmo pormenor: que num firmamento tão povoado coubessem principalmente reis. Porque também Portugal, olhando para trás, deixou pendurados no seu céu sobretudo reis (os dos feitos, das batalhas com data e estátua) e foi-se esquecendo de que teve rainhas que fundaram, assinaram e seguraram o reino, e que mereciam, essas também, um lugar entre as estrelas. E fui-me convencendo de que há um firmamento mais modesto, que não precisa de telescópio e que trazemos no bolso: o dinheiro. Uma moeda, uma nota, não são senão um pequeno céu portátil onde decidimos que rostos hão de continuar a brilhar, de mão em mão; e um banco central não passa de uma casa muito séria, encarregada de zelar por esse céu e de escolher que faces nele mantém acesas e quais deixa apagar-se.
A assinatura de uma rainha, há 180 anos
Passam este ano 180 anos – desde 19 de novembro de 1846 – que uma rainha se sentou a assinar aquele que é, se quisermos, o mais duradouro dos nossos retratos de família. D. Maria II, “a Educadora”, “a Boa Mãe”, pôs a sua letra no decreto que, fundindo o velho Banco de Lisboa com uma sociedade de nome hoje quase profético – a Companhia Confiança Nacional –, fez nascer, em plena crise, o Banco de Portugal: nasceu, portanto, da confiança e da falta dela, da urgência de devolver crédito a um país que o perdera. E há uma justiça discreta no facto de o próprio Banco, século e meio depois, ter guardado o rosto da sua rainha fundadora não num pedestal empoeirado, mas ali onde quis que continuasse a brilhar – na nota de mil escudos com a face de D. Maria II que hoje se vê no Museu do Dinheiro, instalado na antiga igreja de São Julião, por cima de um troço da muralha de D. Dinis, como se a instituição soubesse, sem precisar do filme, que guardar dinheiro antigo é uma forma de manter as estrelas acesas. É como aquele momento em que Rafiki leva Simba a debruçar-se sobre a água e lhe mostra que o pai não morreu de todo, que “ele vive em ti”: também nós, ao inclinar-nos sobre a face de D. Maria II – a primeira e única mulher a exercer entre nós o poder político como chefe de Estado, que fundou o Banco sete anos antes de morrer, quase dia por dia –, nos veríamos, se olhássemos com atenção, um pouco a nós próprios.
Uma moeda, uma nota, não são senão um pequeno céu portátil onde decidimos que rostos hão de continuar a brilhar, de mão em mão; e um banco central não passa de uma casa muito séria, encarregada de zelar por esse céu e de escolher que faces nele mantém acesas e quais deixa apagar-se.
D. Beatriz, a leoa exilada da nossa memória
Mas nem todas as rainhas tiveram a sorte de ficar no céu ou na nota. Há, no filme, um Simba que se perde do seu reino e passa anos no exílio a fingir que não tem passado, aprendendo a viver sem preocupações – cantando hakuna matata – até quase esquecer quem é. Portugal tem a sua Simba em fuga, e chama-se D. Beatriz. Filha de D. Fernando e de D. Leonor Teles, herdeira única de um trono que o casamento com o rei de Castela ameaçava entregar ao país vizinho, D. Beatriz foi a rainha do lado que a História afastou: a crise de 1383-85 – que com toda a razão celebra os que ficaram na rocha, o Mestre de Avis, Aljubarrota, o Condestável, S. Nuno, em vitral e estátua – varreu-a para longe da memória nacional, como uma cria que se embrenha na savana e de quem ninguém mais fala. E, no entanto, foi ela, e não os vencedores, a primeira mulher cujo rosto se bateu em moeda portuguesa: mandou cunhar, em Santarém, um real de prata com a sua própria efígie coroada, tendo no reverso as armas de Portugal ao lado das de Castela e Leão. Só que – e aqui dói – a peça é tão tosca que os numismatas notam que a rainha quase parece um homem, a legenda mal se lê, e há exemplares cortados de propósito: é como se lhe tivessem dado um reflexo tão turvo na água que nem ela própria conseguiria reconhecer-se ali. Começou a apagar-se do céu no instante mesmo em que foi cunhada. E se ainda hoje nos lembramos dela é, entre outras razões, porque um desses reais foi parar exatamente ao Museu do Dinheiro do Banco de Portugal – de modo que a rainha exilada e a rainha fundadora acabam, ironicamente, a repousar sob o mesmo teto.
As Marias e as leoas que seguram o reino
Há, aliás, um pormenor de O Rei Leão que só se percebe em adulto: quem caça, quem alimenta, quem segura de pé o dia a dia da rocha não é o leão da juba imponente, são as leoas, a Sarabi e as suas companheiras, que fazem o trabalho enquanto a coroa e a canção ficam para eles. É uma boa parábola da nossa história de rainhas. Antes da fundadora do Banco houve D. Maria I, “a Piedosa” ou “a Louca”, a primeira rainha a reinar em Portugal por direito próprio – e cujo fim, mergulhado na doença e no esquecimento de si, é a versão mais dolorosa do medo que atravessa todo o filme: o de deixar de saber quem se é. Foi como se a nossa primeira rainha reinante tivesse, ela própria, esquecido o seu nome antes de todos os outros. E depois a fundadora, essa D. Maria II cuja moeda de ouro de 1833 o povo apelidou, com humor macabro, de “degolada”, por nela surgir a cabeça da rainha sem busto, como decepada – porque mesmo os rostos que decidimos manter no céu, guardamo-los quase sempre com alguma ferida, incompletos, meio degolados pela distância do tempo. As Marias são, em rigor, as nossas boas mães da pátria; e uma pátria, como uma alcateia, tende a lembrar-se melhor do rei que ruge do que das leoas que a alimentaram quando a fome apertou.
Entretanto, o euro repinta o seu céu
E o mais curioso é que tudo isto se joga precisamente agora. Enquanto o Banco de Portugal sopra as suas 180 velas, o Banco Central Europeu – que hoje imprime as notas que trazemos no bolso – prepara-se para apagar a face de todas elas e escolher novas: está em curso a primeira grande mudança das notas de euro desde 2002, com dez propostas em cima da mesa e um inquérito público, aberto até setembro, em que se convida os europeus a dizer que desenhos preferem e, com eles, que rostos hão de subir ao firmamento comum. Numa das hipóteses – a que dá pela ideia de “cultura europeia” – as notas passariam a exibir, pela primeira vez, gente que de facto existiu; e quis o acaso que, entre esses rostos, aparecessem uma Maria Callas e uma Marie Curie, como se a Europa, ao repintar o seu céu, hesitasse ainda entre que Marias há de guardar do esquecimento. É uma decisão que parece contabilística e é, no fundo, de memória – e não há gesto mais político do que escolher de quem é a estrela que passará, todos os dias, de mão em mão.
«Lembra-te de quem és»
Termino onde comecei, de olhos no céu. A meio de O Rei Leão, quando Simba já quase se resignou a não ser ninguém, a imagem do pai forma-se nas nuvens e deixa-lhe a única ordem que verdadeiramente importa: «lembra-te de quem és». É o que qualquer moeda antiga nos sussurra em surdina quando a apanhamos ao fundo de uma gaveta, e é, no fundo, aquilo que um banco com 180 anos guarda sem dar por isso – não apenas ouro e papel, mas os rostos de um punhado de rainhas: a fundadora que o assinou, a louca que primeiro reinou, a exilada que primeiro se cunhou. Que nos próximos 180 anos não nos falte, pois, o juízo de manter o céu aceso e de erguer as nossas rainhas à luz, como Rafiki ergue no alto da rocha a nova cria para que todo o reino a veja e ninguém a esqueça. Porque um país, como Simba diante da água, só sabe verdadeiramente quem é quando reconhece a face que o fita do fundo do reflexo – e uma rainha, mesmo degolada no metal, só morre de vez no dia em que o último de nós deixar de a ver ali.
Lembrete: A votação pública para escolher o desenho das novas notas de euro está aberta até 21 de setembro de 2026. Todos os cidadãos da zona euro podem participar no inquérito online promovido pelo Banco Central Europeu para ajudar a decidir o novo aspeto da moeda. Mais informações:
https://www.ecb.europa.eu/press/pr/date/2026/html/ecb.pr260723~c2d43f9170.pt.html.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
