Intro
Allow me to set the scene
Retiro o álbum de lombada vermelha de entre os restantes vinis.
A nossa história começa aqui.
Na capa, o cenário de nuvens negras preenche o horizonte. Sobre o relvado, descalça, uma mulher vestida de sangue puxa uma corda suspensa que abre uma janela de azul no céu de cinzas.
Ficamos a conhecer o título: This Music May Contain Hope.
De resto, uma rosa escondida na penumbra reflete a luz que agora se vislumbra.
Viro a capa.
Atrás, os sapatos, uns saltos afiados, deixados para trás, junto a outra rosa – ou à mesma – que se curva, murcha, perante uma cortina de veludo escarlate que se fecha.
Abro o álbum.
No interior, num fundo do mesmo vermelho, The Story of the Rose. Sete quadros ilustram uma flor que se fecha em botão para desabrochar em algo novo.
A rosa e a semente.
A rosa que será sempre semente e a semente que, mesmo antes, já era rosa.
It’s all right there inside us, the seeds and the roses.
Sento-me.
A agulha do gira-discos vai cravando o vinil num som branco, estático, à procura da melodia da primeira canção. O disco, amarelo-torrado, em vez do clássico preto, vai girando sobre o prato, como o sol do ocaso.
Uma voz doce quebra o ruído.
Allow me to set the scene.
Fecho os olhos e contemplo, na imaginação, a rapariga debaixo da nuvem cinzenta.
Ato I – Outono: We must Shed
There’s a thin grey veil over her horizon
Raye estende-me a mão e convida-me a penetrar no seu mundo ferido – ou no meu?
Debaixo da tempestade de novembro, lágrimas de luar azul caem do céu, ao som dos violinos e da harpa. As árvores, dançando com o vento, vão pintando o chão das ruas com um tapete de folhas secas. No reflexo da janela de um carro, vejo o meu antigo eu, cicatrizes do passado, e detesto-o. No reflexo do ecrã do telemóvel, vejo tudo aquilo que não poderei ser, tudo o que parece pertencer apenas aos outros, e detesto o meu eu de agora. Porque as vossas palavras também ardem como setas cravadas na carne.
Fala-me da Amy ou da Edith, e da tristeza que carregaram, num turbilhão de vozes faladas, sussurradas, sintetizadas. A bateria e os trompetes fazem as vezes de trovões. Canta uma ópera ao meu luto, e dá voz à mágoa que choro.
Não somos todos pessoas quebradas, perfeitos apenas a escondê-lo?
Um fino véu cinza desce sobre o palco onde atuo. Ao longe, o eco de um aplauso que se desvanece na escuridão, memória perdida no tempo.
E eis que no coração profundo da selva de betão, um amante surge, uivando na noite. Gargalhadas de desdém percorrem os becos frios da cidade, prometendo o paraíso.
Tem cuidado.
Ele sabe onde te encontrar.
Ele sabe como te encontrar.
Faz-te dançar com o seu swing, com o seu jazz. Conduz-te em contrapasso pela madrugada, numa dança frenética sem fim. Prende o teu corpo bem junto ao seu, com as garras cravadas nas feridas já abertas. Uma coroa de espinhos entrelaçada nos cabelos.
[O castelo é sempre atacado pela muralha mais frágil].
Não sou eu Eva e ele serpente?
Trinquei a maçã.
A poesia dele era tão doce como a de Shakespeare, soprada por uma língua de veneno. Um demónio, um Romeu disfarçado, um lobo em pele de cordeiro que me conduziu ao matadouro, entre marteladas suaves ao piano, tocando a minha sentença.
Um cortejo fúnebre ao som de uma marcha.
Será que poderei ressuscitar como Lázaro?
E eu vivi outrora na palma da sua mão.
E na altura como poderia perceber?
Fujo. Foge enquanto ainda podes.
Há um longo e escuro caminho pela frente.
Ato II – Inverno: We must Lose
It is the wall between hope and despair
O disco roda sobre si próprio num movimento silencioso e hipnotizante, dando corda aos segundos e às rotações do mundo. Acordo do torpor em que me afundava ao ouvir o estalido da agulha a saltar, indicando o fim da gravação.
Viro o disco.
O frio apodera-se de mim. Luto contra o corpo que me abandona, enregelado, debaixo da terra escura. Coração que teima ser bateria no peito. Ao som de Vivaldi, sou uma silhueta gelada no calor de julho. Coração azul, vestido vermelho. Beijo a garrafa (para me aquecer) – porque tempos desesperados exigem prazeres desesperados.
Mas vou rezar por dias mais quentes.
A vida continua.
Confession.
Dobro-me sobre o ventre morno. Fecho-me sobre o ego. Contraio-me.
Uma rosa curvada pelo peso das pétalas.
Recolho-me no silêncio gélido. Desço ao profundo. Espero.
Uma semente nua que brota no inverno.
Um relógio impõe o tempo. Marcando o compasso dos dias.
Click, clack.
As pétalas caem ao chão. As nuvens que deixo para trás.
Click, clack.
Tenho de esperar. Tenho de largar.
Click, clack.
Um passo de cada vez. Rompendo a parede de cinzas.
Click, clack.
Ao longe, a orquestra deixa entrever a luz da superfície. A música e a atmosfera expandem-se com o sol nascente. O canto de uma sirene chama-me do outro lado.
Alguém me traga o sol.
Consigo ver o brilho da rapariga que um dia acreditou.
E talvez tudo possa ficar bem.
As sementes plantadas debaixo da neve.
Click, clack.
The cold never lasts, my darling. It just teaches the heart how to burn.
Uma pequena chama arde, ao som de uma balada. Por detrás de um sorriso que esconde toda a dor. Sentado no limite. Na superfície entre o desespero e a esperança.
Eu sei que sofres, mas bem fundo há algo que arde.
Não precisas de passar por isso sozinho. Eu estou aqui.
Fiz uma oração por ti e espero que resulte. Não deixes de acreditar em milagres.
Deixa-me juntar a minha chama à tua, para nos aquecermos juntos.
Tu encontras sempre palavras de conforto para um estranho.
Não estamos todos à procura de uma cura?
Rezo para que o Senhor tenha misericórdia.
Sei que Ele está a trabalhar.
Eu sei que a luz queima, mas não estás sozinho.
O sol de uma guitarra com os seus raios luminosos.
Nunca desistas.
Nunca.
Olho à volta. Vejo-me rodeado de rostos e vozes.
Não estou sozinho.
Rostos que reconheço e outros que penso nunca ter visto. Rostos sem uma cara, mas com muitas faces. Sem género, mas de homens e mulheres. De todos e de ninguém. Ao som do techno, figuras vão surgindo por entre batidas e luzes, como anjos a pairar nos meus ombros que dizem Ainda não vou desistir. Ele vê-te.
A gargalhada de uma criança. O sussurro de um velho. A doce voz de uma mãe. O cumprimento de um amigo. O gemido de um bebé.
Debaixo da batida na pista de dança, mil vozes sintetizadas.
Ainda não vou desistir.
Diz outra vez.
Há Esperança.
E atravesso a barreira de som e luz.
Ato III – Primavera: We must Grow
She exists behind it
A rosa floresce. Um pequeno caule emerge da superfície da terra.
O som e a luz antes sufocados tornam-se límpidos e cristalinos como um pedaço de vidro afiado sobre o corpo despido.
As marcas do inverno cruel permanecem na pele, tatuagens de gelo.
Desde o nascente, o sol beija o rebento que, tímido, começa a nascer.
A flor que se expõe ferida, depois de tanto tempo fechada, escondida, sem vida.
Assim frágil, ainda sem pétalas para mostrar.
I hate the way I look today.
As feridas abertas ao sol para poderem sarar.
Sim, estás a vê-las também.
[Só o que sai da terra poderá florescer.
Só o que se deixa tocar pela luz poderá curar-se.]
Mas odeio o que sou.
Diz-me que não pareço horrível.
Faz-me aprender o Amor.
Canta-me palavras alegres como Nina ou Ella e toca-me o teu saxofone.
Tenho de gostar de mim, sim.
Deixar as palavras bonitas entrar e acreditar nelas.
Amar a maneira como estou hoje.
E deixar que o amor triste me abandone.
Crescer é largar aquilo que ficou debaixo da terra.
É fazer pazes com os caminhos que não segui.
Dos campos em flor, o perfume.
Espero que estejam bem, os que amei.
Às vezes temos de dizer adeus com lágrimas nos olhos.
Regar.
Da aridez do deserto, a serpente.
Só quero desejar o teu bem.
Às vezes temos de partir sem olhar para trás.
Podar.
Se me envolveres nas tuas raízes, mesmo que me roubem o ar, hei de desejar para ti os frutos mais doces.
Quando me lançares ao abismo, e a escuridão for o meu dia,
esperarei para ti a luz da aurora.
Irás enganar-me no caminho, indicando a direção errada,
e vou pedir para ti o regresso a casa.
Ao entrares no meu peito, e tomares o lugar do Bom Espírito,
terei rezado para ti a Vida Eterna.
Espero que acertes no alvo, te deixes abraçar.
Mas nunca fomos feitos um para o outro.
Já te deixei partir.
E não voltarei a dar-te a mão.
Porque achaste que te podia amar sem que me amasses de volta.
Para ti, eu era apenas um corpo.
Pele e ossos. Caule e pétalas.
Mas um dia, alguém irá amar.
Ato IV – Verão: We must Live
She will overcome
Onde está esse Amor?
Porque demora tanto a encontrar-me,
deixando que os dias passem?
Talvez estejas algures por aí,
a preparar o meu coração
para Te encontrar.
Sei que já passou muito tempo
desde a última vez que falámos.
Mas estás a ver?
Eu só quero ser livre
Livre de todas e cada uma das preocupações
Como uma criança a rebolar
Num campo dourado e vermelho.
Já ouço o gospel a abrir as portas
para um céu finalmente azul.
A flor que se deixa, enfim,
tocar pela luz da janela que abri.
E todos os fardos que pesam sobre mim
Cairão como uma chuva suave
E irão desaguar num riacho
Algures entre campos dourados e verdes.
Não quero chorar.
Quero alegria.
Por isso, declaro e decreto
Haverá alegria.
I may cry through the night, but my joy comes in the morning.
Eu sei que há alguém lá fora que tem rezado por mim.
E sim, não pode chover para sempre.
O sol existe já ali por detrás das nuvens.
Seja o que for que venha.
Haverá tempos mais felizes.
Fin: We must Die
The end
Chegou o fim.
Após dezassete histórias cantadas, o tempo em quatro estações, o prato que sustenta o disco para de rodar com o mundo.
A rapariga vestida de sangue, rosa vermelha com as suas pétalas em flor, curva-se perante os aplausos da audiência.
São feitos os agradecimentos e rolam os créditos finais.
A banda toca os últimos acordes, acompanhada pela orquestra, que cresce e comove numa banda sonora de filme de Hollywood.
Os músicos levantam-se ao sinal do maestro e iniciam a procissão de saída.
Depois, lentamente, o palco esvazia-se.
No centro, a rosa, sozinha. Ela sabe que um dia voltará à terra.
E, por um instante, depois de tudo, resta apenas o silêncio.
Talvez seja esta a metáfora mais cruel e mais bonita do espetáculo.
A vida também tem uma última música.
Os aplausos acabam. As luzes apagam-se. A cortina fecha-se, desta vez para sempre.
E no meio da chuva e das tempestades, enquanto caminhamos sem saber quando chegará o último acorde, resta-nos a certeza de que a vida é apenas uma e que o sol prometeu brilhar durante todas as estações.
Ainda que não o vejamos, a Esperança estará sempre lá, atrás das nuvens.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
